Afonso Lopes
Afonso Lopes

A velha encrenca da base aliada

Em 2016, a base aliada vai completar 20 anos desde a sua última vitória na capital do Estado. Waldir Soares poderá quebrar essa sequência negativa?

OK, a eleição em uma só cidade exerce pouca influência sobre a campanha sucessória estadual, mesmo se tratando da Capital e do maior colégio eleitoral, mas não há como negar que ganhar a eleição em Goiânia tem um gostinho especial. Em tese, é o segundo mais importante trono político de Goiás, perdendo obviamente apenas para o Palácio das Esmeraldas. Na prática, vai muito além disso. Com muito mais visibilidade do que todas as demais cidades, Goiânia é uma ótima vitrine política e uma cidade-modelo para novas práticas administrativas. Ela dita a moda para todo o interior.

A base aliada estadual, extremamente poderosa e vitoriosa em nível estadual, nunca teve vida fácil nas eleições de Goiânia. Ao contrário, em 2016 vai se completar o 20º aniversário da última vitória desse grupo na capital. Foi em 1996, com o professor Nion Albernaz, que liderou uma aliança oposicionista que viria a se transformar dois anos depois naquilo que se convencionou chamar como base aliada estadual, liderada pelo governador Marconi Perillo.

Estratégias

Já se tentou de tudo para se reverter esse quadro sofrível dentro da base. Em 2000, na sucessão de Nion Albernaz, que não quis disputar o que provavelmente seria uma reeleição bastante segura, o PSDB resolveu apostar naquela que, na época, era uma de suas principais lideranças, a então deputada federal Lúcia Vânia, hoje senadora. Entre os tucanos, não havia ninguém com mais prestígio entre empresários e formadores de opinião, além de contar com uma ótima estrutura eleitoral.

Na campanha, porém, as coisas não se devolveram como deveria. Lúcia e Nion, apesar de conviverem publicamente, mantinham uma inegável animosidade entre eles. O então prefeito até que tentou somar forças na campanha, principalmente por causa do empenho pessoal do governador Marconi Perillo, mas Lúcia não levou em conta. Essa divisão pode ter sido um tiro no pé geral, e a candidata tucana terminou o 1º turno numa amarga e distante terceira colocação.

Em 2004, a aposta foi Sandes Júnior, pelo PP. Era a opção pelo nome com melhor penetração nas pesquisas, mas foi um processo interno bastante complicado. Sandes jamais primou por ter um discurso embasado, técnico. Ao contrário, sua imagem sempre foi a de um político que se aproveitou bem da sua enorme popularidade como radialista. O próprio Nion cunhou na época uma frase que perseguiu o pepista durante bastante tempo: a de que ele tinha fãs (do rádio) e não eleitores. O próprio Sandes também não ajudava muito ao responder toda e qualquer pergunta com a voz empostada, como se estivesse nos microfones da rádio comandando o seu programa de entretenimento. Ele dizia, e esse foi o argumento decisivo no processo interno que culminou com a sua escolha como candidato, que era o único capaz de derrotar Iris Rezende. Não deu. Sandes terminou em 3º e foi eliminado do 2º turno.

Em 2008, diante da candidatura de Iris Rezende à reeleição, foi difícil encontrar um candidato disposto a encarar a encrenca eleitoral. Sobrou para Sandes Júnior novamente porque todos os pré-candidatos desistiram antes que ele pudesse desistir. Iris foi reeleito, como sempre se previu, com quase 80% dos votos válidos, sem necessidade de 2º turno.

Em 2012, sem Iris, mas com o prefeito Paulo Garcia como candidato à reeleição, a base aliada entrou em ebulição total. O até então invicto eleitoralmente Jovair Arantes, dono de mandatos sucessivos como vereador de Goiânia, deputado estadual e deputado federal, ganhou a corrida interna como se fosse um trator. Internamente ele foi bem sucedido no processo de escolha, mas ficaram algumas feridas abertas que não cicatrizaram antes da campanha começar pra valer. Além disso, ainda na esteira automática das populares administrações de Iris, Paulo Garcia, seu vice, capitaneou uma campanha tematizada na sustentabilidade e nadou de braçada. Ganhou no 1º turno.

Para o ano que vem, a base aliada tem um candidato declarado, que topa inclusive deixar o PSDB para disputar as eleições por outro partido. É o deputado federal delegado Waldir Soares. Com discurso completamente estabanado, ele passa uma imagem às vezes caricata, mas engana-se quem imagina ser ele despreparado eleitoralmente. Waldir usou seu curto espaço de TV e rádio nas eleições do ano passado para deputado federal como se fosse o finado Enéas, político paulista que disputou a Presidência da República e finalizava um discurso curtíssimo na TV enfatizando seu próprio nome.

Na campanha recordista de votos como deputado, Waldir usou e abusou do tema da segurança pública. E criou até um bordão remetendo ao seu número como candidato: “45 do calibre, zero zero da algema”. Não apenas funcionou naquela disputa como gerou um recai popular muitíssimo forte ainda hoje. Em algumas pesquisas eleitorais, seu nome chega a aparecer à frente de Iris Rezende em determinados cruzamentos.

Sandes, em 2004, embora sem conseguir jamais alguma vantagem sobre Iris nas pesquisas, passou boa parte do tempo bastante próximo, mas não conseguiu se sustentar depois exatamente por causa da inconsistência do discurso. Waldir Soares corre esse risco inicialmente.

Ele terá que migrar a sua imagem de delegado implacável na guerra contra a bandidagem para a de prefeito. Ou seja, o 45, ou qualquer que seja o número dele nas eleições do ano que vem, não será mais do calibre. Waldir terá que tematizar com o mesmo vigor sobre temas como trânsito, meio ambiente, IPTU, transporte coletivo, saúde e educação. Se ele conseguir recolocar-se além do tema da segurança e manter sua boa imagem de sujeito determinado, dificilmente deixará se se postar como referência na eleição goianiense do ano que vem.

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