Elder Dias
Elder Dias

Um menino de 16 anos morreu de Covid-19. Quem é que vai pagar por isso?

Não são 562 mil vítimas; são vítimas todas as famílias e todos os amigos de cada um dos que morrem por causa da doença. Vítimas somos todos nós

Antes de tudo, é preciso escrever o óbvio: a Covid-19 é uma tragédia mundial e semeia a dor e a morte em todo o planeta. As vacinas, felizmente produzidas em tempo recorde, suavizaram a curva de óbitos, mas ainda se concentram nos países mais ricos; nos mais pobres em geral, apenas uma minúscula parte se vacinou. E tudo indica que, sim, serão necessárias doses de reforço periódicas.

Em relação ao processo de imunização, o Brasil ocupa um meio termo em nível mundial. Deveria estar bem melhor, mas, embora tivesse estrutura para almejar um combate eficiente à pandemia, autoridades competentes por lei e incompetentes por visão mesquinha deixaram de agir com a devida presteza e vontade política. Um governo que teve tudo nas mãos, inclusive um dos sistemas públicos de saúde mais admirados do mundo, capilarizado e universal, para fazer a coisa certa e reduzir perdas.

Não a fez, da mesma forma como preferiu não só se omitir, no conjunto geral da pandemia, mas andar na contramão: a politização do vírus envolveu fake news em massa, instigação ao tratamento precoce, cloroquina e outros remédios ineficazes, desinformação sobre o uso de máscaras, guerra contra as medidas de isolamento social, ameaças contra as restrições sanitárias ao comércio, satanização de adversários, desconfiança das vacinas e incentivo à “vida normal”. Não foi pouca coisa. No centro de tudo isso, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), com frases como “a melhor vacina é o vírus”, “não sou coveiro” e “todos nós vamos morrer um dia”. 

Bolsonaro liderou um processo de desconstrução de tudo que era necessário para lidar com a crise sanitária. Isso custou um preço para a sociedade pagar, caríssimo em dinheiro e recursos, mas muito maior ainda em dor e traumas. O menosprezo ao vírus e o desprezo à vida levou à desastrosa marca de mais de 562 mil vidas perdidas (apenas os registros oficiais) até o fim da semana passada. E a contagem dos corpos não para.

Todo esse cenário poderia ter sido atenuado se, mesmo com toda a irresponsabilidade no restante, o governo federal assinasse um único documento, logo que procurado pela primeira vez: o contrato de vacinas da Pfizer. A multinacional havia testado aqui a fase 3 da Cominarty – nome de seu imunizante contra a Covid-19 – e pretendia, inclusive, negociar o pacote de doses com um valor 50% menor.

Como dito no vídeo que virou meme, a gigante farmacêutica queria mesmo fazer do Brasil vitrine para o mundo. Não só do país, mas também de seu produto: se sua vacina conseguisse estancar a pandemia descontrolada numa nação desse porte, seria um atestado de sucesso absoluto do produto. Vultosas vendas viriam naturalmente e as ações da Pfizer chegariam a um novo patamar no mercado. Uma ótima parceria envolvendo dinheiro e saúde.

Contrato assinado, o Brasil muito provavelmente teria recebido doses ainda em dezembro, praticamente ao mesmo tempo em que Reino Unido e Estados Unidos iniciavam suas campanhas de vacinação. Uma segunda onda, que realmente veio, seria mais amena e o espalhamento da devastadora variante P-1 (hoje chamada de gama) poderia ter sido abafado.

Não só dezenas de milhares, mas centenas de milhares de mortes teriam sido evitadas, já que a Cominarty tem grande eficácia – imagine se fosse ela a que tivesse sido distribuída e aplicada na população idosa. E, a partir do mês seguinte, entrariam Coronavac e AstraZeneca para reforçar a campanha. A vida e a economia agradeceriam.

Noves fora todo esse cenário, uma ação rápida teria sido ótima propaganda para qualquer governo pragmático. Mas por aqui há um governo não tão somente ideológico, mas dogmático, a ponto de morrer – e matar, literalmente – por suas próprias crenças.

Diante do cenário sombrio, surgiu a Coronavac, menos eficaz do que a Pfizer. Porém, a parte sensata da população só tem a agradecer à parceria e ao empenho do governo de São Paulo, por meio Instituto Butantan, para desenvolver a vacina chinesa. Caso contrário, não haveria a guerra política e, com ela, os esforços do Ministério da Saúde para antecipar o início da vacinação de março para janeiro. Houve também compra, às pressas, de 6 milhões de doses da Oxford/AstraZeneca, em carregamento vindo da Índia, para o Planalto não ficar para trás na “batalha” contra a “vacina do João Doria”.

Com a Pfizer, o Brasil só assinaria em março o contrato desprezado desde agosto de 2020. E as primeiras doses só seriam aplicadas em maio. Uma diferença de cinco meses, que custou a dor de milhares. O SUS tem capacidade, segundo o próprio ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para vacinar 2,4 milhões de pessoas por dia. Jogando por baixo: em uma semana, 12 milhões; em um mês, quase 50 milhões; em cinco meses; a população inteira vacinada!

Mas ainda hoje, o SUS tem capacidade de aplicação superior à quantidade de doses, Enquanto isso, a média de idade de quem morre de Covid está caindo rapidamente, enquanto a média móvel de mortes no Brasil ainda não baixou dos quatro dígitos. No caso de Goiás, o Estado liderava a ocupação de leitos de UTIs no Brasil, na semana passada.

Quadro de dor
Tudo nisso é dor, e toda dor é única. Mas existem aquelas que podem ser consideradas dentro de um quadro de dor qualificada. São histórias como a de Isac e de sua família.

O nome verdadeiro da vítima e de seus pais serão preservados, menos porque a família não tenha autorizado do que pelo fato de não querer fulanizar quem seja, já que históricos semelhantes todos temos próximos a cada um. Se não chegam aos ouvidos, basta sair do próprio mundo e perguntar à vizinhança do bairro ou no bloco ao lado no condomínio. A história é verídica e teve desfecho na quarta-feira, 4.

Isac era um menino de ouro, segundo sua mãe. Amigo presente e envolvido com os estudos, se destacava na turma do colégio. Aos 16 anos, tinha seus sonhos e uma vida inteira pela frente para realizá-los. Até encarar o coronavírus e sentir sintomas. E medo. Mas, claro, tudo não evoluiria além de consequências leves, porque adolescentes não morrem de Covid-19.

Os sintomas não passaram: ao contrário, pioraram. Ele foi levado ao médico. Teve de ser internado. Teve de ir para a UTI. Em choque, a mãe perguntava, entre desnorteada e catatônica: “Doutor, mas por que ele está mal assim? Covid não mata criança!”. Ressalte-se aqui: estamos em agosto e em, maio, cinco meses após o que teria sido o início de uma hipotética e não realizada vacinação em massa da população brasileira, Isac poderia já ter sido vacinado ao menos com a primeira dose.

Passados apenas dois dias de internação, Isac não resistiu. O mundo desabou não só para a família, mas para todos os que o conheciam: amigos de infância, colegas de escola, vizinhos. Um garoto que tinha em Isac seu melhor amigo estava inconsolável. Sua mãe disse que ele não parava de chorar, sem acreditar na perda do amigo. Com um grau de autismo leve, dificuldade de se socializar, ele tinha em Isac seu esteio, o pé na “vida lá fora”, alguém para fazer com ele e por ele essa ponte com o mundo. Agora não tem mais.

A Covid-19 é isso. Não são 562 mil vítimas; são vítimas todas as famílias e todos os amigos de cada um dos que morrem por causa da doença. E cada família, cada amigo, sendo afetada ou afetado várias vezes durante esse quase ano e meio de pesadelo por aqui. Vítimas somos e temos sido todos nós.

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