Augusto Diniz
Augusto Diniz

Surge um novo MDB em Goiás?

Processo de expulsão de prefeitos que discordaram do lançamento de candidato próprio em 2018 está quase no final e abre espaço para costura de alianças

Daniel Vilela Paulo Cezar Martins Gustavo Mendanha Maguito Vilela - Foto Divulgação

Reeleito presidente estadual do MDB goiano no dia 19 de janeiro depois de disputa na Justiça, ex-deputado federal Daniel Vilela quer posicionar partido na liderança do grupo de oposição ao governador Ronaldo Caiado (DEM) | Foto: Divulgação

O resultado da eleição para governador em Goiás, analisado apenas com a frieza dos números, aponta apenas um caminho: a liderança absoluta do governador Ronaldo Caiado (DEM), eleito com 3,7 vezes mais votos do que o segundo colocado, o ex-deputado federal Daniel Vilela (MDB). Enquanto o democrata saiu vitorioso das urnas no primeiro turno com 1.773.185 votos, o que representa 59,73% da votação válida, o emedebista ficou com 16,14% da fatia útil da contagem das urnas, nos 479.180 eleitores.

Mas é preciso ir além dos dados olhados sem o devido critério. O grupo político que comandou o Estado por 20 anos ruiu. O ex-governador José Eliton (PSDB) não conseguiu sustentar o dito legado de sua base de sustentação eleitoral e viu os dois candidatos da oposição, justamente Caiado e Daniel, o ultrapassarem na apuração. A defesa de um Estado organizado, com as contas sadias não durou nem um mês após a votação. Os salários dos servidores começaram a atrasar e a gestão foi encerrada com o não pagamento da folha de dezembro.

Quando chegou o dia 1º de janeiro, momento da posse festiva de Ronaldo Caiado como governador, a chave vira e a eleição fica para trás. O governo ainda não conseguiu descer do palanque, mas tem tempo de sobra para se organizar e dar a resposta correta à confiança depositada pela população goiana no político ético e correto como um opositor no Legislativo nacional, tanto nos quatro mandatos como deputado federal quanto nos quatro anos em que ocupou uma das três cadeiras da bancada de Goiás no Senado.

Parte do MDB, especialmente cinco prefeitos, apostaram todas as fichas numa reaproximação de seu partido ao governo caiadista a partir do início de 2019. Mas apenas um deles se deu bem. Justamente o primo de Caiado, o agora Secretário Estadual de Governo, Ernesto Roller, que deixou a Prefeitura de Formosa para assumir a posição no primeiro escalão do Executivo goiano. No caso de Adib Elias (Catalão), Renato de Castro (Goianésia), Fausto Mariano (Turvânia) e Paulo do Vale (Rio Verde), a expectativa se frustrou logo no primeiro mês da gestão do novo governador.

Os emedebistas que não apoiaram a candidatura própria de seu partido e bandearam para o lado do DEM na eleição para governador ficaram sem os esperados cargos no Executivo, como foi o caso específico de Adib. Outros integrantes do MDB que atuaram como entusiastas da vitória de Caiado nas urnas também passaram longe de indicar, mesmo que nos bastidores, cargos no governo. Foi aí que o jogo começou a virar.

Daniel Vilela, que parecia enfraquecido na busca pela permanência na presidência do diretório estadual do MDB, viu o grupo dos cinco emedebistas pró-Caiado tentarem melar na Justiça a sua reeleição na sigla. A tática deu errado e o ex-deputado federal saiu da sede da legenda aclamado com facilidade na coordenação do MDB novamente. Enquanto nos discursos e ações de governo Caiado patinava e começava a enfrentar seus primeiros desgastes, principalmente junto aos servidores estaduais, com o salário de dezembro atrasado até hoje, Daniel se tornou a principal voz da oposição no Estado. Até porque as urnas deram ao ex-parlamentar esse direito.

Crença furada
Adib, Renato, Mariano e Roller acharam que Daniel estava derrotado no MDB, perderia o controle do diretório estadual e estava com os dias contados na política. Houve um erro de cálculo não observado pelo grupo dos quatro prefeitos e do secretário de Governo: os Vilela não só articularam a permanência da direção do partido em suas mãos como começaram a costurar alianças com outras forças no Estado.

Na quarta-feira, 27, veio mais um golpe nas pretensões do grupo dos cinco emedebistas que apoiaram Caiado nas eleições. Enquanto todos eles duvidavam que o conselho de ética do MDB os expulsaria da legenda, um por um, que não se preocuparam em aparecer para fazer suas defesas, foram desligados da sigla. Fausto Mariano, Adib Elias e Paulo do Vale agora estão sem partido. No caso de Ernesto Roller, o primo de Caiado preferiu pular fora do berço emedebista um dia antes de ser expulso.

Resta na mira do conselho de ética o prefeito de Goianésia, Renato de Castro. A expulsão do ex-petista e, por enquanto, emedebista, começa a reduzir o desgaste criado pelas rachaduras que surgiram durante a definição da pré-candidatura de Daniel Vilela ao cargo de governador entre 2017 e 2018. Tanto o filho quanto o pai da família Vilela dizem que nunca houve uma tentativa por parte de Ronaldo Caiado na busca da tão falada união das oposições em Goiás contra a destroçada base aliada dos ex-governadores Marconi Perillo (PSDB) e José Eliton.

Maguito e Daniel reforçaram esse discurso nas entrevistas mais recentes que concederam ao Jornal Opção, quando foram categóricos ao defender a versão de que Caiado trabalhou para impor sua candidatura e não se importou com o abalo que causava na força eleitoral do MDB em 2018. Passados cinco meses da disputa nas urnas, a oposição pouco precisou fazer para criticar os deslizes da gestão Caiado, que ainda se organiza e toma par da situação do Estado. Mas Daniel surgiu como a voz da oposição, inclusive na aproximação com lideranças na Assembleia Legislativa.

Alianças
O que sobrou do PSDB goiano e que atua como oposição ao grupo caiadista hoje no poder avalia uma possível aliança com o MDB de Maguito para atuar como voz dissonante das propostas do governo. Nomes importantes de outros partidos, como o presidente da Assembleia, Lissauer Vieira (PSB), é outra figura de destaque do atual cenário que tem se aproximado do grupo que dirige os emedebistas em Goiás.

A aliança firmada nas eleições entre o MDB e o PP segue como uma conexão estreita. O senador Vanderlan Cardoso e o presidente pepista Alexandre Baldy têm interesse em negociar apoio nas principais cidades do Estado de olho nas eleições de 2020 e no pleito de 2022. Outro partido que tem sinalizado aproximação dos Vilela é o PSD de Vilmar Rocha, que tem interesse em lançar candidato a prefeito de Goiânia o deputado federal Francisco Jr., que já foi do MDB.

Enquanto o governo ainda patina, o que não se sabe quanto tempo vai durar, o MDB se reestrutura, busca aliados, fortalece o nome de Daniel focado em trabalhá-lo como principal voz de oposição à gestão Caiado e articular apoio para encorpar o grupo de apoio, quem sabe, de uma nova candidatura a governador, com mais maturidade, daqui 3 anos e 7 meses.

Há arestas a serem aparadas para que o discurso de oposição do MDB goiano tenha de fato coerência, como a situação do prefeito Renato de Castro, que tende a ser questão solucionada em breve, e a liderança do governo Caiado na Assembleia nas mãos de um emedebista. O deputado estadual Bruno Peixoto não só se sentiu honrado com o convite como se colocou à disposição do democrata antes mesmo de a possibilidade se tornar pública. “Vão pagar, quem quer que seja, eu, o deputado Bruno [Peixoto], pelas suas escolhas”, decretou Daniel Vilela.

Disputa necessária
Para o Estado de Goiás, é mais do que positivo que o MDB se fortaleça, seja com uma possível candidatura a reeleição em Goiânia de Iris Rezende ou não. Ganha a oposição em voz forte e atuante nas críticas aos erros do início da gestão do governador Ronaldo Caiado. E lucra o Executivo por ser incentivado a melhorar onde for necessário e mostrar o que tem feito de positivo pela coisa pública e para os goianos com mais eficácia.

A divergência de ideias e discursos ajuda na maturação do processo eleitoral e na efetividade das políticas públicas. Antes de ser apenas uma disputa por poder, ver os emedebistas reorganizarem a casa e forçarem o governo a mostrar a que veio é uma vitória do bom debate e da democracia. O cabo de guerra da busca por protagonismo, quando não cai na armadilha de tratar a oposição como um reduto de inimigos, faz com que as ações dos gestores públicos se tornem mais transparentes, justas e eficientes.

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