Afonso Lopes
Afonso Lopes

A solidão do velho timoneiro

O que na administração de Goiânia teve pelo menos a solução dos muitos problemas encaminhada neste primeiro ano? Numa análise,  rigorosa deve-se admitir, nada de nada. Iris vive na solidão de um palácio de poder cercado por interesses eleitorais e eleitoreiros

Foto: Alberto Maia / Câmara Municipal

Todas as vezes que foi governador ou prefeito de Goiânia, Iris Rezende, um dos maiores líderes político-administrativo de Goiás, sempre teve um ou mais auxiliares diretos da mais restrita confiança pessoal. Olvanir Andrade, Mauro Miranda, Otoniel Machado e até Maguito Vilela, de certa forma, eram ombros amigos, de apoio total e dispostos muitas das vezes a se sacrificarem pessoalmente pelo sucesso de Iris Rezende. Cada um à sua maneira, eles cuidavam dos detalhes para que nada pudesse escapar do prumo e se perder de tal forma até criar problemas.

Olhando agora para o Palácio do Cerrado Venerando de Freitas Borges o que se vê é um poder isolado, solitário, ocupado por um líder órfão de liderados ao mesmo tempo que minado pelo extenso e infiel jogo dos interesses pessoais eleitoreiros e eleitorais. Iris não exerce nem mesmo o poder da caneta real que o poder lhe confere. Suas nomeações não são suas, mas de quem as indica. Há gente dentro do Palácio que parece exercer muito mais poder do que o próprio Iris. O prefeito que aí está não é nem de longe o líder que sempre foi, e que a população queria para corrigir os rumos errados da administração da cidade. Talvez seja exagero afirmar até que o Iris que ocupa o palácio é um velho esboço desbotado do líder que ele era antes. Que sempre foi, mas deixou de ser. Infelizmente, diga-se.

Iris era a grande esperança da maioria do eleitorado goianiense de que a sua vasta experiência administrativa, capacidade política e têmpera forjada ao longo das muitas dificuldades que teve que enfrentar, e superar, era uma aposta melhor do que tentar algo novo, ainda não totalmente conhecido. Iris venceu a eleição. No 1º e no 2º turnos, foi diplomado, empossado e… só. Aquele Iris Rezende da campanha desapareceu ali, entre a vitória – mais uma, em sua longa lista de sucesso eleitoral – e o início do governo.  Forçado ou não, induzido a isso ou não, cansado ou não, a verdade é que o Iris que ganhou a eleição não é esse que ora governa. Aliás, quem governa não é ele. Vários governantes. Uns que mandam muito, outros que mandam menos, mas Iris não manda nada. E dessa turma toda de mandarins de um governo de trono abdicado, ele era o único que realmente sabia o que fazer e como fazer. O resto era só adereço, e os adereços tomaram da estrutura.

Iris algumas vezes ainda apresenta algum lampejo de outrora, mas desanima tão rápido a efêmera luz de um fósforo. A melhor forma de constatar tudo isso é acompanhar os detalhes e o encaminhamento de suas entrevistas mais longas para os diversos veículos de comunicação do Estado. Em outros tempos, nas mesmas circunstâncias, Iris faria um rápido balanço positivo, mesmo que calcado no exagero desmotivado, para então descrever com euforia e otimismo contagiantes o que estava sendo plantado para colheita em breve. Era muitíssimo difícil, mesmo para oposicionistas empedernidos, não se deixar empolgar por tamanho vigor. E hoje? Os mesmos temas que antes desencadeavam, mesmo diante das dificuldades, otimismo, recaem sobre lapsos de memória saudosista. Iris fala mais sobre os feitos notáveis que contabilizou ao longo de sua vida do que sobre o que se deve esperar dele agora. Administrativamente, ele não parece mais viver nos tempos atuais, mas nas saudades de sua época de ouro na política de Goiás. Aquele Iris acabou, ficou para trás engolido pelo tempo, e não há um atual para substituí-lo.

E se Iris não governa, governam por ele. E governam da pior maneira que se pode governar, com objetivo máximo e foco total somente nas urnas que estarão à disposição do eleitorado estadual dentro de mais alguns meses. É um governo que se encerra em si mesmo enquanto administração, e não consegue ir além da próxima e imediata eleição. Servem-se do poder para tentarem se banquetear com a mesa farta de votos.

Ao encerrar o primeiro ano deste governo, provavelmente o único grande desejo coletivo do goianiense para 2018 seja: volte, Iris, assuma o controle, comande a recuperação. Essa é a única e última esperança de Goiânia.

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