Afonso Lopes
Afonso Lopes

Só a união não basta

Cantada em versos e prosa, a sempre complicada união total das oposições é fundamental, mas historicamente jamais garantiu quebra do status quo do poder nas eleições de Goiás

Há hoje um consenso em torno da ne­cessidade de convergência das candidaturas oposicionistas do deputado Daniel Vilela, presidente regional do PMDB, partido com maior capilaridade no Estado e com maior número de filiados, e do senador Ronaldo Caiado, presidente regional do DEM, partido com razoável dimensão nacional, mas restritíssimo do ponto de vista de mandatos no Estado. Daí em diante, não há qualquer ponto que una os que defendem a candidatura de Daniel, com apoio de Caiado, e os defensores da candidatura de Caiado, com apoio de Daniel. Cada um puxa a sardinha para perto da brasa, e faz o possível para colocar o peixe do rival entrincheirado na mesma oposição no freezer. Há mais de um ano, a oposição se debate na procura por um método descomplicado e eficiente que seja aceito por todos para alinhavar a tal união dessas candidaturas. Os oposicionistas dizem que a única possibilidade de realmente competir de igual para igual com a base aliada estadual nas eleições do ano que vem é com candidatura única.

Será essa realmente a derradeira e exclusiva premissa para colocar um candidato oposicionista à porta do Palácio das Esmeraldas? Historicamente, não. Os rompimentos do status quo do poder estadual goiano, desde a redemocratização no país, no início da década de 1980, que ocorreram em 1982, com a vitória de Iris Rezende, e em 1998, com a surpreendente e empolgante eleição de Marconi Perillo, foram resultado de uma dupla coincidência. Na única vez, em todo esse período, que o cenário montado para as eleições estadual poderia ter consolidado a tal dupla coincidência de fatos não vingou. Foi em 2010, quando Marconi retornou de Brasília, onde exercia mandato de senador, e construiu uma de suas mais complicadas e difíceis vitórias dentre as inúmeras que tem colecionado. A oposição a ele rachou.

Mas quais são essas duas condicionantes que abrem caminho para a possibilidade de quebra do status quo do poder. Sim, uma delas é a tal união total das candidaturas oposicionistas. É o que há registrado como história das eleições e seus bastidores em Goiás desde 1982.

Naquele ano, o PMDB era ainda um partido absolutamente hegemônico, num período em que havia, em Goiás, apenas quatro partidos: PMDB, PDS (governo), PT e PDT (de Leonel Brizola). Houve um momento, naquele ano, que o PMDB escapou por um triz de racha interno. O partido, que era na realidade um enorme guarda-chuva multipartidário, resultado direto do bipartidarismo imposto pelo regime militar de 1964, trabalhava majoritariamente pela candidatura, sonhada e aguardada desde meados da década anterior, do então senador Henrique Santillo.

Com a abertura democrática, Iris Rezende estava de volta após afastamento imposto pelo regime, e sua candidatura vinha embalada, embora minoritária, por seu próprio grupo político. Nesse clima, certamente haveria racha se não houvesse um líder carismático no comando do partido, o ex-governador Mauro Borges Teixeira. Foi ele que negociou a sucessão de candidaturas, com Iris se lançando imediatamente, mas com o compromisso de apoiar Santillo quatro anos depois. Foi Mauro quem conseguiu convencer Santillo a abrir mão de sua candidatura — que atropelaria completamente Iris Rezende numa eventual disputa interna. Assim, a tal união aconteceu. Iris venceu e quebrou o ciclo que vinha desde o regime militar.

Em 1998, a oposição era um pe­queno exército. Aliás, exército é força de expressão semântica por causa da guerra eleitoral. Pro­va­vel­mente, não passaria de batalhão ca­so o critério da denominação fosse levemente mais rigoroso. Eram quatro partidos somente: PSDB, PP, DEM (ainda PFL) e PTB. Esses partidos somavam pouco mais de 20 prefeituras em todo o Estado, mas contava com a principal delas, Goiânia, na época sob o comando do professor Nion Albernaz. E se em 1982 havia Mauro Borges, em 1998 a oposição tinha Nion como grande articulador, que resultou em união em torno de um único nome: Marconi Perillo. É claro que o processo não foi tão simples assim. O primeiro candidato do grupo, deputado Roberto Bales­tra, do PP, acabou jogando a toalha porque percebeu que não conseguiria realmente unir todos ao seu projeto. Ao deixar a candidatura, involuntariamente, Balestra criou as condições necessárias para a união: a sobrevivência do grupo diante do gigante PMDB. O problema é que ninguém tinha coragem de jogar tudo para o alto e enfrentar a fera, até então imbatível, Iris Rezende, que aparecia com mais de 70% nas pesquisas eleitorais. Foi aí que Marconi Perillo, deputado federal e com reeleição considerada absolutamente tranquila, topou a empreitada perigosíssima. Era o único que acreditava que conseguiria derrotar Iris Re­zende. E conseguiu, como se sa­be, quebrando novamente status quo do poder político estadual.

Portanto, a união das candidaturas de oposição foi um dos principais componentes para a vitória nessas duas disputas. Mas não foi só isso. Em 1982 e em 1998, o governo se dividiu. Em 1982, o Palácio das Esmeraldas, ocupado por Ary Valadão, apoiou Brasil Caiado contra Otávio Lage. Em 1998, Iris atropelou a candidatura à reeleição de Maguito Vilela, que foi cuidar, juntamente com seu grupo, de sua própria eleição para o Senado.

Eis, então, as duas condicionantes históricas fundamentais para a quebra do status quo do poder estadual: a união das oposições e a quebra da unidade do governo. Uma depende da outra, revela a história. Em 1986, após a violenta guerra interna no PMDB, Mauro Borges desembarcou na oposição, criou a união em torno dele, mas não foi páreo forte suficiente para derrotar Santillo. Essa é a lição que ficou: não adianta só unir as candidaturas oposicionistas. O governo também precisa rachar, e facilitar as coisas. l

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