Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

Sergio, o ex-Lava Jato: de Super-Moro a marionete de cacique de partido

Iníquo como juiz, inepto como ministro e inábil como político, ao se expor e apresentou-se como esqueleto no armário

Até segunda ordem, Sergio Moro terá de se contentar em ser parlamentar por São Paulo | Foto: Flickr

A política é a arte de desnudar-se. Quem se joga nesse mundo sabe que passa a não ter mais direito à privacidade. Portanto, se um sujeito quer que as pessoas em geral continuem a ter dele a mesma imagem que cultivou durante toda a vida, que vá para longe de uma eleição, ou de um posto público em qualquer poder.

Quando, pelo contrário, artistas, atletas e outras personalidades correm para as urnas, usufruem da fama como um trunfo para alcançar grandes votações e assim pegar um atalho para o planeta política, fazendo um movimento arriscado que, antes de tudo, deveria ser antes calculado com muito discernimento. Afinal, o que foram até então diante de fãs, admiradores e opinião pública em geral, a partir do momento em que passam a ocupar um cargo eletivo, estará irremediavelmente transformado, para o bem ou para o mal. Ser eleito é o que na aviação se chama “ponto de não retorno” – linha invisível a partir da qual o piloto, durante uma decolagem, não tem mais como abortar o procedimento.

Ultimamente, além de celebridades do mundo artístico e/ou televisivo, essa norma tem valido, como podemos observar, também para servidores públicos que, por alguma razão – e aqui entra o poder da mídia, seja a convencional, sejam as redes sociais – ganharam notoriedade: profissionais de saúde, policiais, delegados e gente da esfera jurídica.

O mundo está cada vez mais conectado, os fatos desde a última década não repercutem apenas por meio dos telejornais e demais veículos tradicionais e, pelo contrário, às vezes ganham muito mais audiência e penetração entre eventuais eleitores por meio de canais do YouTube e perfis no Twitter e no Instagram. É um processo viral, a maioria de ciclo curto, mas, que, às vezes, torna personalidade permanente quem antes teve (ou deveria ter tido) apenas 15 minutos de fama, segundo o velho princípio de Andy Warhol, mestre da pop-art.

Desde o advento da Operação Lava Jato, em 2014, nenhuma figura pública fora do meio político chegou perto de uma ascendência de tal porte sobre a população como Sergio Fernando Moro. O encarregado de julgar os processos acabou por se tornar, diante da opinião pública sedenta de justiça contra os poderosos, uma espécie de Batman de toga contra os vilões da corrupção.

Em frente ao Congresso Nacional, boneco gigante de Sergio Moro como super-herói em manifestação pró-Bolsonaro em 2019 | Foto: Reprodução

Durante as manifestações contra o governo de Dilma Rousseff (PT) – que, curiosamente, foi afastada do cargo sem nenhuma acusação ou mesmo denúncia contra sua idoneidade –, Moro se tornou literalmente um ícone: estruturas infláveis com a cara do magistrado foram erguidas nas capitais durante as concentrações de antipetistas. No carnaval de 2016, Moro se juntou à tradição de Olinda: entre os bonecos gigantes típicos da folia na cidade histórica pernambucana, lá estava o do juiz da Lava Jato. Em Brasília e outras grandes cidades, várias vezes se ergueu um Super-Moro no meio da multidão com a camisa da CBF.

O juiz pouco falava, mas quando dava alguma declaração, deixava escapar que captava aquele sentimento popular com certo deslumbramento. Foi o que se notou, até com certo espanto, ao fim do dia 13 de março de 2016, depois das maiores manifestações contra o governo Dilma, quando ele emitiu uma nota oficial:

“Neste dia 13, o Povo brasileiro foi às ruas. Entre os diversos motivos, para protestar contra a corrupção que se entranhou em parte de nossas instituições e do mercado. Fiquei tocado pelo apoio às investigações da assim denominada Operação Lavajato. Apesar das referências ao meu nome, tributo a bondade do Povo brasileiro ao êxito até o momento de um trabalho institucional robusto que envolve a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e todas as instâncias do Poder Judiciário. Importante que as autoridades eleitas e os partidos ouçam a voz das ruas e igualmente se comprometam com o combate à corrupção, reforçando nossas instituições e cortando, sem exceção, na própria carne, pois atualmente trata-se de iniciativa quase que exclusiva das instâncias de controle. Não há futuro com a corrupção sistêmica que destrói nossa democracia, nosso bem estar econômico e nossa dignidade como País. – 13/03/2016, Sergio Fernando Moro”

Parecia um político da oposição ou um líder classista. Se fosse até mesmo uma autoridade eclesiástica, não haveria motivo para tanto espanto. A questão é que era um juiz cedendo à vaidade de opinar sobre o conceito da população a respeito da operação cujos réus ele julgava ou julgaria. Mas o furacão Lava Jato era uma coisa tão avassaladora que essas “filigranas” foram deixadas de lado. Anos mais tarde todos saberiam que era apenas despreparo para lidar com esse tipo de situação.

Carta branca?
O mesmo Sergio Moro que condenou Lula à prisão em 2017 – principiando sua inelegibilidade em um processo bastante controverso – foi o que prontamente aceitou a cadeira de ministro da Justiça do vencedor das eleições, Jair Bolsonaro, logo após o término do segundo turno. Para tanto, o super-homem se despia definitivamente da toga e cedia à tentação de fazer “algo mais” contra a corrupção. Afinal, teria carta branca para limpar o Brasil, conforme lhe assegurara o presidente eleito.

A carta branca ficou só na conversa. Moro tinha a caneta, mas nunca teve, de fato, a decisão final. Em episódios cruciais para se posicionar contra medidas autoritárias e até ilegais no Estado democrático de Direito – como o episódio da greve-motim dos policiais militares do Ceará, que deixou a população à deriva –, ele se calou. Inacreditavelmente, os amotinados acabaram recebendo o aval de autoridades do governo federal, entre elas o diretor da Força Nacional de Segurança Pública, coronel Aginaldo de Oliveira, subordinado exatamente a Moro.

Além do distanciamento do presidente, até sair do governo, em maio de 2020, o ex-juiz já estava desgastado também com a massa que apoiava a dobradinha como os arautos da “nova política” – ignorando ela, obviamente, os 30 anos de mandatos de Bolsonaro. Quando finalmente deixou a Esplanada dos Ministérios, o ex-juiz e então ex-ministro não tinha nada de substancial a apresentar.

Depois de um tempo de pausa, por quarentena obrigatória, o caminho de Moro foi a advocacia. E novamente cometendo uma “pisada na bola” ética, à semelhança do que fez ao entrar para o governo de cujo presidente, pelo menos culposamente, havia favorecido a eleição: aceitou convite da Alvarez & Marsal, uma consultoria de gestão que tem em sua cartela de clientes empresas que foram alvo da Operação Lava Jato, como o grupo Odebrecht, para a qual atua na recuperação judicial depois da quebra da empresa provocada pelas decisões de… Sergio Moro. Por um ano de serviço, o neoadvogado recebeu R$ 3,5 millhões.

Saiu da empresa para entrar para a política, coisa que, em 2016, havia declarado em entrevista que “jamais” faria. Foi para o Podemos como a grande esperança da chamada terceira via. Apresentado de forma grandiosa em um evento idem, viu seus índices minguarem devido à própria inconsistência: como político, provou-se que Moro era um bom aluno de Harvard. Sem carisma e sem estrutura, tentou, como última cartada, se filiar ao União Brasil, um “time grande” entre os partidos. Lá, lugar de muito cacique, já foi colocado em seu devido lugar. Sentado longe da janela, terá de se contentar em ser um índio a mais em meio a tantos processados por corrupção.

Um juiz iníquo, um ministro inepto, um político inábil. De presidenciável preferido da direita, com direito a boneco gigante de Super-Moro, ele virou marionete de uma turma que anos atrás teria muitos potenciais réus. A vida não é fácil para quem se expõe sendo, ele mesmo, o esqueleto no armário.

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