Afonso Lopes
Afonso Lopes

Será que isso vai funcionar?

O candidato do PTB à Prefeitura de Goiânia diz que não vai contratar marqueteiro e fará programas na TV sem atores/apresentadores

Os showmícios eram a grande atração em campanhas de outras épocas. Agora, com regras eleitorais mais  rígidas, o discurso dos candidatos será decisivo. Em Goiânia, os principais concorrentes são Iris Rezende (PMDB), Waldir Soares (PR), Adriana Accorsi (PT), Giuseppe Vecci (PSDB), Luiz Bittencourt (PTB) e Francisco Júnior (PSD)

Os showmícios eram a grande atração em campanhas de outras épocas. Agora, com regras eleitorais mais rígidas, o discurso dos candidatos será decisivo. Em Goiânia, os principais concorrentes são Iris Rezende (PMDB), Waldir Soares (PR), Adriana Accorsi (PT), Giuseppe Vecci (PSDB), Luiz Bittencourt (PTB) e Francisco Júnior (PSD)

Ao disputar a Prefeitura de Goiânia pela primeira vez, em 1992, o então suplente de deputado estadual Luiz Bittencourt surpreendeu por criar um slogan poderoso na época: gastar a sola do sapato. E onde aparecia, fosse na porta do Palácio das Esmeraldas, fosse nos palanques nos bairros ou em reuniões nas associações de moradores, o último ato dele era sempre tirar o sapato do pé e mostrá-lo com o braço levantado. Virou marca registrada dele.

Em 1996, quanto voltou a disputar o cargo de prefeito e teve pela frente ninguém menos que o professor Nion Albernaz, ainda hoje a maior referência administrativa da história de Goiânia, era a época de grandes showmícios. Não bastava fazer shows com cantores novatos ou sem grande popularidade. As praças só ficavam realmente lotadas diante de grandes nomes. Havia certa disputa entre todos os candidatos para saber quem contratava os melhores showmícios. Com poucos recursos, a campanha de Nion realizou apenas um grande show, no encerramento da campanha no primeiro turno.

Apesar de ser candidato do governo estadual, que vivia uma crise de caixa na época, os shows de Bittencourt não eram pequenos, mas também não eram poderosos o suficiente para criar o efeito arrasa-quarteirão. Foi aí que surgiu uma ideia que marcou aquela campanha: vaquejadas/comício. Com uma estrutura simples, bem mais barata que os grandes espetáculos musicais, a periferia de Goiânia adorou a ideia, e as vaquejadas de Bittencourt lotavam as arenas improvisadas, onde ele aproveitava para dar o seu recado político. Até então, os comícios de Nion, mesmo sem grandes cantores, eram bem maiores em número de pessoas do que os de Bittencourt com suas estrelas musicais, mas começou a perder fácil diante das multidões que acompanhavam as vaquejadas/comício introduzidas na etapa final da campara no primeiro turno.

Pela terceira vez, Bittencourt pretende tentar se eleger prefeito da capital. Ele tem a garantia do presidente do PTB, deputado federal Jovair Arantes, de que só não vai disputar a eleição deste ano se não quiser. E ele quer. Bittencourt é o candidato do partido à Prefeitura, mas negociou a liberdade de escolha para topar a disputa. Jovair concordou. E qual é essa liberdade de campanha? Pelo jeito, é a não campanha.
Bittencourt garante que não vai contratar marqueteiro para criar as suas peças publicitárias nem produções cinematográficas em seu programa eleitoral. Também promete não utilizar “santinhos”, badeirolas com cabos eleitorais, foguetório, carros de som e carreatas.Ou seja, quase tudo o que as grandes campanhas bem estruturadas precisam e usam nas eleições.
Faz algum sentido disputar uma eleição duríssima, como a de Goiânia, sem usar o arsenal publicitário que é permitido pela legislação cada vez mais restritiva? Sentido, faz, mas não se sabe qual será o resultado. É inédito isso. Pelo menos, no Brasil. Os europeus não fazem campanhas eleitorais como as brasileiras há alguns anos. As discussões eleitorais são menos espalhafatosas e mais estruturadas nos debates entre os candidatos. As declarações do petebista parecem indicar nessa direção.

A estratégia é mesmo ousada, e pode até funcionar bem. Historicamente, o eleitorado goianiense tende a se dividir em quatro grupos distintos: os neutros, e os que apoiam um entre três candidatos. Ou seja, há uma enorme concentração de votos em torno de três candidaturas, com o grupo neutro pendendo decisivamente na indicação de um vencedor nos últimos momentos da campanha.

Essa “polarização” em torno de três candidaturas este ano está levemente traçada, com os dois principais destaques até aqui, Iris Rezende e Waldir Soares, e Vanderlan Cardoso mais atrás. Em todas as eleições desde 1985, quando retornaram as eleições diretas para prefeitos de capital e de cidades consideradas como de segurança nacional — em Goiás, apenas Anápolis se enquadra nessa condição por sediar a base aérea – o PT sempre se apresentou de forma bastante competitiva. Este ano, a desgastada imagem do governo municipal, além do desastre administrativo em Brasília e a queda do prestígio popular da legenda, dificilmente o nome do PT se apresentará com a mesma força de antes.

Isso significa que Iris, Waldir e Vanderlan devem compor o tal triunvirato de onde sairá o próximo prefeito de Goiânia? Inicialmente, sim, mas não obrigatoriamente. Os partidos estão se debruçando em pesquisas qualitativas para saber se há realmente espaço para dois candidatos com características populares tão parecidas, como Iris e Waldir, ou se somente um deles vai “sobreviver”. Até agora, ninguém tem certeza de nada.
Por outro lado, Vanderlan permanece como uma grande incógnita. Seu recall ainda existe, mas está no fim após disputar as eleições para governador em 2010 e 2014. Além disso, não se sabe qual será a receptividade final do eleitor para o fato de sua única experiência política ter sido como prefeito da vizinha Senador Canedo. Ele melhorou bastante seu discurso, mas ainda é bem melhor e natural ao dar entrevista do que ao discursar em programas de TV.

Giuseppe Vecci, o técnico do PSDB, vai pra campanha com toda a carga positiva acumulada pelo governo estadual, e também os naturais desgastes, e a tremenda força partidária da aliança estadual. É a mais azeitada máquina eleitoral que existe no Estado, embora em Goiânia não consiga eleger prefeito desde 1996. De qualquer forma, Vecci reinaugura um fato: o de não constranger o PSDB enquanto candidato. Em eleições passadas, o tucanato viveu situações complicadas na tarefa de apoiar algumas candidaturas sem consistência técnica. Vecci tem conteúdo, e isso agrada o perfil do PSDB.
Já Bittencourt terá que se virar para não passar a campanha toda como pregador no deserto. Nos debates, sem a menor dúvida, não se espera dele nada menos que não seja um estupendo desempenho, seja no desenho técnico do discurso, seja no confronto direto das propostas com os demais concorrentes. Nos programas eleitorais, igualmente. Ele tem a melhor postura de voz dentre os candidatos que aí estão, e talvez por isso esteja se dando ao luxo de abrir mão de marqueteiro e firulas tecnológicas de comunicação no palanque eletrônico. Se isso vai funcionar ou não é algo para se constatar depois, mas é inovador. E dentro desse caráter, acaba se mostrando como um fator de diferenciação.

Uma boa estratégia para quem precisa escapar da mesmice.

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