Afonso Lopes
Afonso Lopes

Sem moleza para ninguém

Para alcançar o principal trono político em Goiás, nas eleições de outubro, o “escolhido” vai ter que escalar o Olimpo e escapar dos seus perigos

Caiado, presidente do DEM, forte nacionalmente; Daniel Vilela, de um MDB grande aqui e no País; José Eliton, representante do grupo político mais forte

Há favoritos para o governo de Goiás? Favorito talvez não tenha, mas favoritismo tem, sim. E não para um dos candidatos, mas para três. Ficam fora dessa lista somente os candidatos do PT, apesar do bom nome interno da professora Kátia Maria, que é ligada à corrente liderada pelo deputado federal Rubens Otoni, que ao longo dos anos se firmou como liderança mais influente do PT em todo o interior do Estado, e do candidato do Psol, professor Wesley Garcia. E eles estão nessa situação não por inviabilidade pessoal ou por falta de aptidão, mas por ausência de capacidade partidária de estruturação. PT vai bem em grandes cidades, como Goiânia e Anápolis, mas não tem forças nas demais. Pelo menos, não tem força para entrar diretamente na luta por um governo. Já o Psol é mais barulhento e militante do que poderoso do ponto de vista eleitoral. Isso é bom pelo fato de ser baseado na estrutura ideológica, mas não coloca nenhum de seus candidatos em situação confortável, ainda mais na briga pelo topo, o Palácio das Esmeraldas.

Há favoritismo para o senador Ronaldo Caiado, presidente regional do DEM, um dos grandalhões entre os partidos nacionais, mas bem menor em termos regionais, deputado federal Daniel Vilela, presidente do MDB, que é grande na esfera federal e detém o título de partido campeão em número de filiados no Estado, e o governador José Eliton, do PSDB, por todas as razões que se sabe, como o fato de estar em processo de reeleição com a caneta mais poderosa do poder político estadual e de ser o representante do grupo político mais forte de Goiás, a chamada base aliada estadual.

Há uma tendência bastante equivocada de se confundir favoritismo com caminhada tranquila numa campanha eleitoral. É mesmo uma confusão boba. Ter um determinado grau de favoritismo significa apenas uma possibilidade real e inicial de melhores condições ambientais de se trabalhar eleitoralmente. Nada além disso. É diferente, portanto, da classificação máxima, o favorito. Esse, sim, tem chances absolutamente claras de se manter no alto e confirmar a vitória. E mesmo assim, não há qualquer garantia de sucesso na empreitada sempre traiçoeira de se vencer uma eleição para governador. Os goianos, e particularmente os emedebistas, sabem muito bem o que é ter candidato favorito derrotado. Nas últimas cinco eleições, em duas delas os candidatos do MDB se exibiam como favoritos absolutos, inquestionáveis – Iris Rezende, em 1998, que iniciou a campanha com quase 70% de intenções de voto, e Maguito Vilela, em 2006, que largou com mais de 50% e quase 60% de intenções de voto. Ambos foram abatidos nas urnas, como se sabe.

Há diferentes graus de favoritismo, evidentemente. A olhos vistos, neste momento, o senador Ronaldo Caiado está com ligeira vantagem sobre os dois concorrentes diretos. Seu ponto mais positivo eleitoralmente é a sua extraordinária capacidade de se espraiar emocionalmente no pensamento geral do eleitor. Como se sabe, a decisão do voto passa muito mais, em número e grau, pela emoção do que necessariamente pela razão. O problema está essencialmente nessa afirmativa, de que a decisão do voto “passe” pela emoção e não pela razão, o que significa que poderá passar – e se refletir imediatamente nas pesquisas eleitorais quantitativas – e não “ficar” definitivamente. O maior perigo que ronda Caiado atualmente é seu discurso monocórdio, de ser contra tudo, mas não ser a favor de quase nada. Além disso, poderá faltar a ele durante a campanha no rádio e na TV, que continua sendo o grande canhão eleitoral no País, tempo suficiente para ir além do voto emocional e casá-lo com o voto racional. Se conseguir fazer isso, ele migrará para cima, saindo da faixa do favoritismo para a de favorito.

O principal trunfo de José Eliton, que o coloca imediatamente com favoritismo na disputa, é a extraordinária máquina partidária que tentará empurrá-lo para a vitória. E se ainda não se tornou um favorito, claro parece que ele ainda não conseguiu tal condição. A impressão que se tem olhando para conjunto geral de sua candidatura é que não se espera pouco dele. O resultado da recente pesquisa Grupom/Diário da Manhã apresentou uma informação valiosíssima: a de que metade do eleitorado acredita em sua capacidade administrativa. E é esse o ponto que ele tem pronto e acabado para melhorar seus índices além de uma curva que seria natural de crescimento. O governo que ele acaba de iniciar ainda não foi captado pela população, e por consequência também não foi avaliado. Se ele conseguir fazer chegar ao eleitor que é bom o suficiente para merecer atenção para aquilo que vier a propor na campanha, poderá facilmente chegar à condição de favorito. Ele é o governador, o que o faz candidato singular em relação aos adversários. Tem que se aproveitar dessa condição.

Kátia Maria é um bom nome do PT, mas partido não tem força no interior

Por fim, Daniel Vilela tem seus dramas, e eles não são poucos. Mas isso, longe de o inviabilizar, talvez o fortaleça. É o mais jovem e bem apessoado dos três candidatos principais. Seu discurso não é confuso, e numa rápida análise é o mais claro e fácil dentre todos. Trabalha na mensagem de oposição, sem a ênfase que empurra seu “colega” de trincheira opositora ao tom monocórdio. Ele tem feito algumas construções que tentam criar uma imagem intelectualizada demais, o que não bate com o seu perfil, ou a forma como a população o vê. No caso dele, jamais a afirmativa “menos é mais” foi tão apropriada numa candidatura ao governo. Falta encontrar esse tom, que concilie imagem e que gere confiança. Se conseguir, torna-se favorito.

Tudo isso, olhado pela lente angular do favoritismo dos três concorrentes, pode parecer uma canja de galinha. É ilusório acreditar nisso. Pode até ser canja, mas os garçons são os adversários, e nunca se pode imaginar o que é acrescentado entre a cozinha e a mesa. Superar esses obstáculos todos, e outros mais que surgem ao longo da campanha, é tarefa complicadíssima, mas o prêmio para o vencedor vale a pena: o domínio do Olimpo. Não se chega a ele antes dos concorrentes sem enormes sacrifícios, facilitados ou não por bons conselheiros.

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