Afonso Lopes
Afonso Lopes

Sai o ódio, entra a esperança

Após anos pregando campanhas eleitorais cada vez mais virulentas, PMDB goiano pode estar prestes a mudar a estratégia

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Henrique Santillo: numa das crises do PMDB, seu grupo deixou o partido e se filiou em massa ao PT

Foram anos e anos de violentíssimas brigas internas e esmagadoras campanhas contra os adversários externos. O PMDB goiano foi forjado nesse tipo de conduta.

Desde os tempos da ditadura, quando ainda se chamava MDB. Naquela época, ainda com toda a precaução óbvia, o MDB era como um adolescente bravio e inconsequente, sempre estocando o perigo com vara curta. Na era democrática, manteve os seus vários tons internos sempre estridentes, arrasando adversários e, depois, numa autofagia como jamais se viu em outras agremiações partidárias.

Bons tempos, e conduta pra lá de apropriada para aqueles tempos. Hoje as coisas são diferentes no mundo fora do PMDB. A liberdade partidária, que infelizmente já descambou para uma libertinagem, serviu como válvula que fez a pressão interna perder a razão e o sentido prático. Dominar internamente o PMDB já não equivale a ter poder sobre a vida e a morte políticas de ninguém. É possível viver e crescer politicamente fora do partido.

Antes, não era assim, não. Sair do PMDB, seja por uma mera opção partidária mais harmônica com o próprio pensamento e campo de atuação política, seja por não suportar “gatas paridas” nas crises internas, era o mesmo que enfrentar a pena capital. Um raro e quase esquecido episódio dimensiona bem aqueles velhos tempos. Henrique Santillo e todo o seu então poderoso grupo deixou o PMDB logo no início da fase de redemocratização e se filiou em massa ao PT. Não ficou muito tempo, e retornou. Percebeu ele que, mesmo com mandato de senador, a vida fora do PMDB era como morar em Marte ou Plutão.

Os tempos passaram, a sociedade se pluralizou partidariamente e a realidade é completamente diferente. Os inúmeros partidos nivelaram os riscos e benefícios aos seus filiados, e a excrescência da coligação completou o serviço. Mas o PMDB goiano parece não ter se apercebido da nova realidade, e as exigências que dela surgiram. Especialmente após 1998, quando foi surpreendido na tomada do Palácio das Esme­ral­das pelo grupo então oposicionista, o partido endureceu suas práticas ainda mais ao invés de modificar-se internamente, e reorientar-se externamente.

Para se ter uma ideia melhor e mais prática de como o PMDB se manteve como nos velhos tempos, basta a lembrança de 2012, quando o diretório metropolitano do partido em Goiânia foi dizimado e seus dirigentes esmagados porque não concordavam com apoio incondicional à candidatura do petista Paulo Garcia à reeleição.

Agora mesmo, após a mais acachapante derrota estadual, setores do PMDB acenaram e ainda acenam com a possibilidade de abrir temporada de caça interna com o objetivo de expurgar filiados que não apoiaram a candidatura de Iris Rezende. Aliás, alguns desses filiados são históricos, e jamais estiveram zanzando em outras siglas, como alguns dos que se apresentam como os novos caçadores internos. Talvez seja uma questão freudiana, de tentar explicar e justificar o vexame nas urnas creditando os problemas e o insucesso aos dissidentes, e não à prática dominante dos vitoriosos internos.

Durante anos, o PMDB adotou como um mantra a palavra reoxigenação. Mas só como mantra. Jamais foi da palavra à prática. Ao contrário, permaneceu fechado hermeticamente nele mesmo, na mesma fé cega e messiânica, que não mais seduz internamente e nem assusta externamente. O partido terá agora que definir o que quer ser para voltar a crescer: se o mesmo do mesmo de sempre, ou se a esperança terá finalmente espaço para tentar viver no PMDB.

De um lado, o partido terá uma possibilidade de se manter como grande força político-eleitoral. Do outro, fatalmente se tornará uma agremiação fraca e sem perspectivas globais no Estado, sobrevivendo apenas em núcleos municipais aqui e acolá. Ou supera de vez os tempos de ira e ódios e se veste com a esperança da reconciliação interna, mesmo com suas naturais divergências, ou dificilmente conseguirá chegar a 2018 em condições melhores do que se encontra hoje.

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