Afonso Lopes
Afonso Lopes

A renúncia que bagunçou o coreto eleitoral

 Ninguém sabe se é só uma retirada estratégica ou definitiva, mas os problemas de Iris Rezende não acabaram

Iris Rezende vai ter de trabalhar como nunca para unir internamente o PMDB, que está bastante dividido

Iris Rezende vai ter de trabalhar como nunca para unir internamente o PMDB, que está bastante dividido

 

Júnior Friboi desistiu, mas saiu atirando forte em Iris Antônio Gomide, do PT, é o alvo preferencial agora

Júnior Friboi desistiu, mas saiu atirando forte em Iris
Antônio Gomide, do PT, é o alvo preferencial agora

É como se repentinamente uma perna da mesa se quebrasse. O que se encontra em cima perde a estabilidade, pelo menos momentaneamente. E foi mais ou menos isso o que aconteceu na última quinta-feira, 22: a mesa da sucessão eleitoral perdeu um dos seus apoios e bagunçou tudo por cima. Júnior Friboi, que até então dizia que enfrentaria seu adversário interno, Iris Rezende, até numa convenção peemedebista, resolveu dar a sua última cartada no processo ao anunciar sua retirada da disputa. Mas sem essa de beijinho no ombro. Friboi saiu atirando pesado.

Nesse aspecto, como peça acusatória, a carta de Friboi não é tão diferente assim da carta-renúncia apresentada por Iris Rezende no final do mês passado. O velho líder do PMDB acusou Friboi de abusar do poderio do dinheiro na conquista de apoios internos. Ou seja, Iris bateu exatamente onde dói. Friboi também foi nessa linha, acusando Iris de obstruir todos aqueles que tentam se candidatar ao governo do Estado pelo partido, e deu nome aos bois: Henrique Meirelles, Vanderlan Cardoso, e Maguito Vilela em sua possibilidade de reeleição, em 1998. Iris sempre desmentiu esses vetos, o que demonstra que a coisa o incomoda. Além disso, em outras palavras, Friboi chamou Iris de mentiroso, por dizer a ele que não seria candidato ao governo, e também quando retirou sua candidatura, mas continuou a trabalhar por ela.

A carta de Friboi foi apresentada num momento pra lá de estratégico: no exato momento em que Iris armava palanque na porta de seu escritório para saudar um grupo, incentivado por iristas, de apoio à sua candidatura. Até Ana Paula, filha de Iris, malhou Friboi com ferro em brasa, ao afirmar que o pai deveria mostrar que se faz política com amor e não com dinheiro.

O curioso nessas renúncias de Iris e de Friboi é que a segunda repercutiu muito mais do que a primeira. Quando Iris anunciou sua retirada, o mercado eleitoral reagiu sem maiores trancos. Com Friboi a reação foi bem mais espetaculosa. Isso ocorreu como consequência natural do contexto em que cada uma dessas duas pré-candidaturas está — ou estava — inserida. Iris atingiu dramaticamente seu grupo, mas Friboi extrapolou o PMDB e acertou em cheio vários partidos nanicos aliados, além da parcela majoritária do próprio partido.

O que todo mundo quer saber a partir de agora é o que virá depois. Friboi queimou seu último trunfo, e não deu sinais convincentes de que realmente pulou fora definitivamente. Iris está isolado em seu próprio grupo, hoje francamente minoritário internamente, e não tem boas perspectivas para reconquistar os peemedebistas que se mandaram para os lados de Friboi. Os aliados nanicos também caíram fora, e até anunciaram a formação de um tal grupo independente, seja lá o que isso realmente quer dizer além do fato de que retornam à prateleira do mercado eleitoral. Ou seja, Iris ganhou com a desistência (ou não, ressalte-se sempre) de Friboi, mas não levou. Pra levar alguma coisa palpável, terá que trabalhar politicamente como jamais precisou fazer.

Se internamente é quase impossível e os nanicos voltaram para a vitrine, não resta opção a Iris se não atacar a candidatura de Antônio Gomide, do PT, de modo a conquistar o partido para sua coligação. Os petistas goianos sempre se disseram prontos para assinar o termo de união com o PMDB desde que o candidato ao governo fosse Iris Rezende. Com Friboi, não. O problema é que além do quadro peemedebista não estar completa e definitivamente definido, pois está aberta a possibilidade de retorno triunfal de Friboi como um César na tomada de Roma, o PT e Gomide já avançaram demasiadamente.

Especialmente Go­mide, que abriu mão de três anos de mandato na segunda mais importante prefeitura de Goiás — Aparecida de Goiânia tem mais eleitores do que Anápolis, mas não tem a mesma dimensão política.

Iris terá que convencer geral no PMDB, dobrar as resistências de inúmeros setores petistas e convencer Gomide de que abrir mão da cabeça de chapa será uma ótima alternativa para ele. É evidente que vai ter que trabalhar dia e noite, sem descansar nos feriados, dias santos, sábados e domingos, e ainda assim não há qualquer garantia de que conseguirá alguma coisa.

Do outro lado, Gomide também pode correr do risco do machado irista e se aventurar como tertius de um entendimento no PMDB. Com Friboi, sempre se suspeitou que os iristas, o próprio Iris incluído, iriam migrar para a campanha do PT. Sem Friboi, a situação se inverteu na exata proporção, com a maior parte dos friboizistas pensando seriamente na intermediação de Gomide na solução da crise de divisão interna do PMDB. Ou seja, o caminho para um tertius.

Só que a situação de Gomide também não é coisa pra cair do céu. A única chave para ele e seu grupo chegarem a Iris Rezende e ao PMDB goianiense está nas mãos do grupo petista de Goiânia, rival até a medula de Gomide e seu grupamento. O PT nunca abre dissidências aberta e externamente, mas as disputas internas entre os grupos são absolutamente ferozes. Foi assim antes com Darci Accorsi e Pedro Wilson. É assim hoje com Paulo Garcia e Antônio Gomide. Pra se ter melhor ideia da extensão dessa encrenca interna, até agora Gomide esteve uma só vez com Paulo Garcia na Prefeitura de Goiânia. E só fez isso num programa de visitas que incluiu também Iris Rezende e o prefeito Maguito Vilela, de Aparecida de Goiânia. Mais sintomático, impossível.

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