Afonso Lopes
Afonso Lopes

Quem dará a palavra final no PMDB?

As duas maiores correntes antagônicas dentro do partido medem forças abertamente desde 2010. Em 2018, a supremacia de Maguito ou de Iris ditará o rumo do partido nas eleições estaduais

É impressionante ob­ser­var o histórico de conflitos internos no PMDB goiano e sua vitalidade. Em tese, o partido deveria estar completamente esfacelado. Não está, e é muito pouco provável que estará no futuro. Pelo menos, no futuro próximo. Para 2018, o PMDB vai caminhar pelas mãos de Iris Rezende ou pelos rumos ditados por Maguito Vilela, os dois derradeiros grandes líderes peemedebistas do Estado. É mais uma batalha interna, mas desta vez não há como apontar favoritos. O jogo está embolado no meio campo.

O PMDB tem severas guerras internas desde a redemocratização do país, com as eleições diretas para governadores em 1982. E permanece como agremiação partidária com maior número de filiados em Goiás apesar de estar há 19 anos longe da principal estrutura de poder político no Estado.

Na histórica eleição de 1982, Henrique Santillo (1937-2002) era o candidato natural do partido. Ele caminhava em marcha batida para ser ungido sem qualquer problema nas convenções quando Iris Rezende entrou no cenário após exílio político forçado pela ditadura. Os anos de afastamento dele deixaram seu grupo bastante restrito e fraco, e portanto ele não tinha a menor chance de vencer a disputa com Santillo. Iris acabou sendo o candidato após uma grande costura com Santillo coordenada com maestria pelo então presidente regional Mauro Borges (1920-2013). Iris tinha um apelo emocional que se tornou decisivo naquele momento: sua candidatura seria uma espécie de prêmio de consolação após o exílio da atividade política. Pelo acordo, Santillo topou adiar o sonho de ser governador do Estado por quatro anos.

Em 1986, Mauro Borges já estava fora do PMDB após uma guerra duríssima contra o governo de Iris Rezende. Assim, ele se tornou naturalmente, e com enorme prestígio político e eleitoral, o líder natural da oposição, representada na época pelos herdeiros da Arena, partido de sustentabilidade política da ditadura. Candidato a governador, a campanha mirou somente no governo de Iris, tecendo críticas do ponto de vista político e denúncias administrativas. Em determinado momento, a oposição liderada por ele chegou a perceber gosto de vitória, principalmente por uma substancial preferência por Mauro Borges em Goiânia. A derrota no interior era inevitável, mas a capital poderia reverter o prejuízo. Não deu. Santillo venceu por uma dúzia de votos em Goiânia, e confirmou a enorme frente que se esperava dele no interior.

Em 1990, nova guerra. Iris, ministro no governo do presidente José Sarney, tentou ser o candidato do PMDB à Presidência da Re­pública. Santillo integrava o grupo próximo de Ulysses Guimarães, que também disputou a indicação. Como tinha direito a voto na convenção, ele não compareceu e permitiu assim que dois suplentes — além dele, também sua esposa, dona Sônia (1939-2017) votava — ligados a Iris confirmassem o voto. Iris ficou apenas na terceira posição, e os iristas encontram em Santillo uma motivação para abrir guerra na província pelo controle do PMDB.

Santillo tentou resistir, mas sem um candidato consistente em seu grupo, que tirou dos santillistas qualquer perspectiva de poder, não foi páreo para Iris Rezende e seu grupamento, formado e consolidado entre 1983 e 1986, período em que foi o inquilino do Palácio das Esmeraldas. Os santillistas migraram para outras legendas e ato seguinte criaram o PSDB no Estado, onde se encontra ainda hoje a maior parte do antigo grupo. E Iris articulou uma resposta político-eleitoral avassaladora contra os santillistas. Ele mapeou cuidadosamente cada reduto dos candidatos ligados a Santillo e lançou dois ou três candidatos concorrentes. O resultado é que na Assembleia Legislativa apenas um santillista foi vitorioso: Marconi Perillo. Todos os demais foram “tratorados” pela estratégia de Iris.

Sem a incômoda presença de Henrique Santillo e seu grupamento, as eleições de 1994 estavam marcadas para conhecer nova disputa interna, por incrível que possa parecer. O deputado federal Naphtali Alves, com farto apoio entre os prefeitos peemedebistas, venceria fácil qualquer convenção normal, mas o processo não foi normal. O vice-governador Maguito Vilela soube trabalhar melhor dentro da alta cúpula irista, inclusive com o próprio Iris, e acabou indicado candidato ao governo, tendo um contrariado, obviamente, Naphtali Alves como vice.

No final do mandato, e certo de que Maguito disputaria a reeleição, Naphtali reivindicou vaga de conselheiro do TCE. Pediu e levou, claro. Com isso, o caminho para a recandidatura de Maguito ficou franqueado. Pelo menos, era o que se imaginava diante da espetacular aprovação popular que seu governo exibia. Tudo em paz, até que Iris Rezende, levado pelos iristas — que de certa forma se sentiam preteridos no governo de Maguito -, o convenceram a deixar o Ministério da Justiça do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso e bancar sua candidatura em detrimento da reeleição de Maguito. Iris começou a campanha nadando em popularidade terminou a eleição afogado por uma imensa onda de votos de… Marconi Perillo, o santillista sobrevivente do massacre de 1990.

Em 2002, Iris buscou a reeleição de senador enquanto Maguito Vilela disputou contra Marconi, candidato à reeleição. Começou na frente. As pesquisas, um ano antes da eleições, indicavam uma margem superior a 15%. Essa diferença caiu rapidamente e em fevereiro já havia o registro de empate técnico. No final, Marconi foi reeleito já no primeiro turno, e levou junto Demós­tenes Torres e Lúcia Vânia para o Senado, derrotando Iris e seu companheiro Mauro Borges. Os iristas culparam Maguito pela inesperada derrota.

Enfim, o PMDB goiano jamais passou por períodos de tranquilidade interna. Sabe-se lá se é essa característica que mantém a vitalidade do partido no Estado. Hoje, os grupos de Iris Rezende e de Maguito Vilela tem território marcado. Iris perdeu o controle do diretório estadual, mas mantém o domínio do diretório metropolitano. Não é pouca coisa, e é isso que lhe oferece condições de disputar a indicação do candidato do PMDB ao governo do Estado no ano que vem. O problema é que não existe um só irista de carteirinha em condições de disputar a eleição. O preferido dele é também seu principal aliado, o senador Ronaldo Caiado, presidente regional do DEM. Os maguitistas apostam em Daniel Vilela, filho de Maguito. Inicialmente, Daniel deveria levar enorme vantagem por ser peemedebista. Caiado empata o jogo porque tem muito mais popularidade do que Daniel.

Embolado, o jogo sucessório no PMDB passa pelo golpe final na guerra entre iristas e maguitistas. Quem ganhar a disputa leva como troféu a palavra final sobre essa disputa. Se der Iris, Caiado será o candidato. Se der Maguito, Daniel vai disputar o governo. De quebra, os maguitistas ainda tem em mãos uma alternativa real: o próprio Maguito Vilela. É o único peemedebista que pode se contrapor à popularidade de Ronaldo Caiado. Jogo duríssimo.

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