Afonso Lopes
Afonso Lopes

Por que Iris não consegue consertar a “casa”?

Resposta está no gigantismo da Comurg. Sem corrigir as distorções na empresa de limpeza urbana, contas da Prefeitura não vão fechar

Lixo acumulado em vários bairros de Goiania atesta a crise administrativa na Prefeitura | Foto: Arquivo / Jornal Opção

Prefeito da capital no final das décadas de 1980 e meados de 1990, Nion Al­bernaz estabilizou as fi­nanças da Prefeitura de Goiânia. De tal modo que a cidade viveu um “boom” de obras estruturantes e altamente impactantes na melhoria da qualidade de vida dos goianienses. A cidade era limpinha, praticamente sem bu­racos e se deleitava com canteiros de flores, e não de folhagens como se viu depois disso até se tornarem uma raridade, além de manter uma boa rede de creches conveniadas, programas sociais inclusivos, como o Tra­balhando com as Mãos e o Banco do Povo, além de ter mar­cado pela municipalização da saúde. De quebra, foi nessa época que os servidores municipais começaram, pela primeira vez na história, a ter data certa pa­ra receber salários, e sempre no último dia do mês trabalhado.

O que se vê, e não é uma qua­dra nova na administração de Goiânia, é uma situação tão diferente que se torna difícil acreditar tratar-se da mesma cidade um pouco mais crescida. Nion deixou a Prefeitura pela última vez em 2000. Não tem tanto tempo assim que possa significar uma alteração tão grande pelo ritmo normal da economia brasileira.

Nesse mesmo período, o Estado de Goiás, por exemplo, experimentou uma realidade exatamente oposta à trajetória financeira da capital. Até o final da década de 1990, os soldados da Polícia Militar recebiam um complemento mensal nos salários para se atingir o mínimo legal, que hoje é de 954 reais. Já os policiais civis deixavam de atender muitos pedidos de socorro da população porque as viaturas, além de mal conservadas, quase sempre eram encostadas por falta de gasolina.

Isso sem falar na situação da saúde, que viu se transformar em manchete o desespero de um médico do Hugo, que abandonou seu plantão para registrar ocorrência em um distrito policial para denunciar que o aparelho de raios X estava quebrado havia mais de seis meses. Isso em um hospital de urgência. De quebra, os salários dos servidores muitas vezes se acumulavam sem quitação, e todos os finais de ano eram marcados por adiamentos na liberação do 13º salário. Enquanto todas essas situações foram corrigidas no Estado, a Prefeitura mergulhou em crises até chegar ao ponto em que se encontra hoje.

Isso é uma prova inconteste de que as finanças da Prefeitura não se deterioraram em consequência da situação econômica nacional, mas por problemas administrativos internos. E o que houve desde o fim da era Nion Albernaz em relação ao que se tem atualmente em Goiânia? De um lado, a falência na prestação de serviços essenciais e rotineiros, como o recolhimento de lixo doméstico, hospitalar e industrial, do outro, o retorno de um gigantismo que estava sob controle, a Comurg.

Nion Albernaz gastou dois mandatos para conseguir reverter uma situação muito ruim da empresa, que perdeu o status de mamute devorador de recursos e ganhou prestígio como empresa moderna e necessária, vocação natural da Comurg dentro da ótica administrativa de Goiânia.

Para isso, o professor apostou alto na terceirização de serviços que sempre custam muito mais caro quando administrados diretamente pelos governos, como a totalidade da varrição e o recolhimento, transporte e depósito final dos rejeitos urbanos. Ao invés de se ocupar dessas tarefas, a Comurg passou a exercer plenamente a sua tarefa de urbanização de Goiânia, o que limitou o seu peso dentro da execução orçamentária da Prefeitura.

Depois que Nion deixou o comando do Palácio do Cerrado Venerando de Freitas Borges, a empresa foi aos poucos voltando a ser como era antes. Em 2004, quando Iris Rezende venceu a eleição, a pá de cal veio repentinamente: a Prefeitura, através da Co­murg, adquiriu uma frota inteira de caminhões de recolhimento de lixo e passou a administrar o serviço diretamente. A promessa era de uma economia anual de 5 milhões de reais. Isso realmente aconteceu no primeiro momento, já que a compra da frota de caminhões foi feita através de empréstimos, mas a empresa teve que se agigantar novamente. Como esses veículos têm uma vida útil bastante dura e curta, a frota teve que ser renovada antes mesmo de o empréstimo anterior ter sido inteiramente quitado. Daí em diante a situação só piorou.

O prefeito Iris Rezende, eleito em 2016 para novo mandato, passou 2017 inteiro tentando tapar o buraco que encontrou nos cofres da Prefeitura. Não conseguiu. A cidade enfrenta sérios problemas para manter mal e mal a pavimentação, enfrenta problemas ainda mais sérios no recolhimento de lixo, e a saúde perdeu-se completamente com Cais sendo fechados e fornecimento de insumos básicos constantemente em falta.

Iris já identificou o problema, que é exatamente esse gigantismo na Comurg, que voltou a devorar recursos com fome de ontem. O plano dele para começar realmente a consertar as finanças da Prefeitura é devolver à companhia sua tarefa mais nobre, que é a urbanização da cidade. O problema é que nunca é tão simples fazer algo assim. Nion precisou de dois mandatos para fazer com que a Comurg deixasse de ser problema para ser um orgulho. l

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PAULO CESAR VIEIRA DE ALENCAR

É só parar de usar a comurg pra realizar obras que não são da alçada dela. Se hoje ela passa por essa situação foi devido ter sido usada para reforma de mutirama, zoológico, construção de viaduto da araguaia, ter que atender shows realizados na cidade e não receber nada pelos serviços prestados e várias outras situações.

Luciano Almeida

Não é coincidência: os problemas que afligiam o Estado nos governos do PMDB migraram para a Prefeitura de Goiânia, a reboque da posse do PMDB no Executivo municipal. O PMDB abomina o planejamento, prioriza o improviso demagógico-eleitoreiro e só tem compromisso com os projetos pessoais da panelinha do “chefe”. O eleitor goianiense sofre os efeitos da péssima escolha nas eleições passadas e paga caro pela viajem ao passado. Fica a lição.