Afonso Lopes
Afonso Lopes

Pode bater, mas tem de dosar

Na primeira etapa da eleição, eleitor compara propostas; na segunda, ele opta por um perfil

Roberto do Órion, em Anápolis, e Vanderlan Cardoso, em Goiânia: virar o jogo é difícil, mas longe de ser impossível

Roberto do Órion, em Anápolis, e Vanderlan Cardoso, em Goiânia: virar o jogo é difícil, mas longe de ser impossível

Costuma-se dizer que o segundo turno é uma nova eleição. A frase não está completamente certa nem totalmente errada. É uma disputa com características diferentes, mas começa exatamente do patamar em que terminou o primeiro turno. Portanto, sob esse aspecto, é uma continuidade, uma prorrogação. A mudança fica por conta do mano a mano. Enquanto na primeira etapa o eleitor tem vários candidatos e propostas para averiguar, no segundo turno é jogo direto, sem atrações extras que possam desviar a atenção.

Há ainda outros pontos que fazem parte do cenário geral de um segundo turno e que resultam do que se atingiu no primeiro. Historicamente, essas disputas no turno final quase sempre são marcadas por um ponto: a possibilidade ou não de viradas. Entre os especialistas e observadores, é quase unanimidade que uma diferença de até 5% entre os dois primeiros colocados na primeira etapa pode ser revertida até com alguma facilidade. Acima de 5% e até 10%, as dificuldades aumentam, mas ainda assim já se registraram viradas. Quando um candidato termina o primeiro turno com vantagem acima de 10%, é praticamente viola no saco: não há muita coisa a ser feita.

Em Anápolis e Goiânia, o quadro é esse intermediário, de vantagem do primeiro colocado maior que 5% e menor que 10%. Ou seja, tanto em um caso quanto no outro, é possível, sim, ocorrer uma virada, o chamado “X”. Mas é claro que além de difícil, João Gomes, do PT, em Anápolis, e Iris Rezende, do PMDB, em Goiânia, começam o segundo turno com favoritismo. Roberto do Órion, do PTB, e Vanderlan Cardoso, do PSB, vão ter que trabalhar dobrado.

Outra característica de segundo turno é que não há tanto espaço assim para campanhas “boazinhas” como na primeira faseo. É decisão de “campeonato”, e vale chutão, bicuda na canela, jogo de nervos para desequilibrar emocionalmente o adversário. É quase um vale tudo e mais um pouco. O único problema é a tênue linha que separa uma campanha politicamente agressiva de um candidato que se transforma aos olhos do eleitor como mera “madeira de dar em doido”.

Há um conceito que prega que o eleitor quer ver propostas e não “baixaria” em uma campanha eleitoral. Isso é verdade, mas o questionamento político mais agressivo não é “baixaria”, mas oferecer ao eleitorado um mecanismo mais simples de comparação, inclusive dos possíveis defeitos — não pessoais, obviamente, e sim de comportamento político — do adversário.

Todos os candidatos apresentam propostas mais ou menos iguais. Investimento em educação, saúde, transporte público, por exemplo, é pauta comum a todos. Apontar as falhas existentes nessas propostas seja no campo administrativo seja no que se refere ao caldo político é uma das tarefas básicas de campanha no segundo turno. É aí que se faz a diferença entre a confirmação de uma vitória ou a consagração de uma virada espetacular.

Os exemplos históricos de campanhas de segundo turno são inúmeros desde que esse modelo foi adotado no Brasil. A começar pela primeira disputa presidencial, entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva, em 1989. O alagoano que começou a campanha eleitoral como “caçador de marajás” se transformou no gênio do mal que massacrou um assustado Lula na etapa final. Em 1998, aqui em Goiás, Marconi Perillo venceu as eleições contra o então imbatível Iris Rezende usando o mote da panelinha — crítica política à familiocracia.

O próprio Iris Rezende, quando venceu sua primeira eleição para governador contra Otávio Lage, em 1983, foi duríssimo politicamente ao dizer que era a disputa entre o cassado e o “caçador” — referência à cassação de seu mandato como prefeito de Goiânia no início do regime militar, em 1965, quando Otávio era governador do Estado.

Esses episódios servem para demonstrar que a tal história de que quem bate na campanha é derrotado nas urnas não é exatamente o que acontece. O problema está sempre na dosagem da crítica e a precisão do aspecto criticado. Seria mais ou menos como enterrar um prego numa tábua. Se a martelada for muito forte, o prego entorna e não afunda. Se for na medida certa, babau.

Como será as campanhas dos quatro candidatos que disputam o segundo turno em Goiânia? Ninguém sabe. O que se conhece é o jogo aberto dos apoios. Esses apoios são importantes, inclusive do ponto de vista da imagem da campanha, do volume que se forma, mas não são absolutamente decisivos. Se fossem, nem precisaria de eleições para apontar o escolhido. Mas não deixa de ser importante, claro. Não haverá a transferência do eleitorado que votou nesses candidatos automaticamente, mas abre-se a possibilidade de se trabalhar isso do ponto de vista do marketing. Vanderlan Cardoso e Roberto do Órion levaram nítida vantagem nesse jogo.

Uma outra questão que geralmente marca o segundo turno é o aumento na abstenção. Muitos eleitores que escolheram candidatos que foram barrados na primeira fase, simplesmente perdem o interesse e deixam de votar. Aqui também entra o trabalho de marketing. Quem conseguir motivar esse eleitorado o suficiente para levá-lo até as urnas novamente ganha pontos que podem, no conjunto, se tornarem decisivos.

O jogo do segundo turno está aberto, e já está sendo jogado. E o empate não interessa a ninguém. l

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