Afonso Lopes
Afonso Lopes

Pesquisas atuais fazem muito barulho, mas têm pouco sentido

Franklin Roosevelt seria o perdedor da eleição norte-americana, em 1936, conforme a pesquisa com cupons, mas o estatístico George Gallup fez pesquisa com caráter científico e acertou que o eleito seria Franklin

Sempre que algum veículo de comunicação publica o re­sultado de pesquisas elei­torais o assunto fervilha. A interpretação comum, no en­tanto, tende a misturar um pou­co de razão com enorme dosagem de emoção. Assim, parcelas da po­pu­lação não somente acreditam nas pesquisas que apontam seus pre­feridos na liderança ou muito bem colocados, como tendem a pro­jetar tais resultados como se fos­sem uma prévia do resultado da pró­pria urna. Já os simpatizantes de candidatos que surgem com pou­ca densidade nas pesquisas de­fen­dem teses conspiratórias e até mer­cantilistas. Afinal de contas, exis­te um lado certo nesse pseudocon­flito? Nem certo e nem errado. Am­bos os lados se comportam mais emocionalmente e menos ra­cio­nalmente.

Mas antes de entrar mais detalhadamente na real importância das pesquisas eleitorais, vale a pena relembrar como elas surgiram e se desenvolveram. É necessário aqui um corte no tempo e uma curta via­gem aos Estados Unidos, berço no­tável das atuais pesquisas.

Entre as décadas de 1910 e 1930, jornais e revistas americanas, principalmente a “The Literary Di­gest”, mas também o jornalão referência “New York Times”, publicavam cupons-resposta perguntando em quem seus leitores estavam pen­sando em votar nas eleições pre­sidenciais. Aconteceram muitos acertos nesses levantamentos que não tem grande diferença, a não ser pelo universo abordado, das en­quetes. Não há nada científico.

Na eleição presidencial de 1936, a imprensa com seus cu­pons-resposta apontaram uma tranquila vitória de Alf Landon so­bre Franklin Roosevelt. A principal en­quete-pesquisa era da “Digest”, que contabilizou cerca de 2 mi­lhões e 500 mil respostas de seus lei­tores e também de americanos ca­dastrados nas listas telefônicas. Um até então desconhecido estatístico, George Gallup, ousou discordar. Baseado numa pesquisa com caráter científico, ele assegurou que o eleito seria Roosevelt, e com folga. A imprensa quis saber quan­tos cupons-resposta Gallup tinha para falar tamanho disparate. Ele explicou que não tinha nen­hum cupom. Seu método era mon­tado a partir de amostras estratificadas da população. Ele admitiu ter realizado “apenas” 3 mil entrevistas em todo o território americano. Claro que Gallup foi desacreditado pela imprensa. Abertas as urnas, Roosevelt foi o vitorioso, e com grande folga.

De volta ao contemporâneo, o método criado e desenvolvido por George Gallup é utilizado até hoje por praticamente todos os institutos de pesquisa de opinião pública no mundo todo. Serpes, Grupom e Ve­rita, os maiores institutos sediados em Goiás, seguem esse método – com alguma variação conforme exigem os tempos atuais. Uma des­sas mudanças é a abordagem do entrevistado. Gallup realizava es­se trabalho nas residências. Hoje, com as cidades verticalizadas e a in­segurança geral, as entrevistas são realizadas geralmente em locais pú­blico de grande fluxo. E são abordagens mais rápidas também, como exige a vida nas grandes cidades.

Essas mudanças mexeram levemente na época ideal para a realização das pesquisas, embora não interfiram no resultado final do trabalho. Quanto mais distante da eleição, maior poderá ser a variação de resultados. É por essa razão que na maioria das vezes o resultado das urnas difere das primeiras pesquisas eleitorais realizadas. Isso não é uma regra, mas uma probalidade. Por outro lado, quanto mais próximo estiver a eleição, maior a possibilidade de os números apresentarem consistência. É por essa razão que as pesquisas que mais se aproximam do resultado oficial das urnas é a chamada boca de urna.

Isso não quer dizer que as pesquisas atuais não contêm nenhuma informação relevante. Tem, sim, mas não como fator de previsão de resultado da eleição. Elas revelam várias facetas que, bem interpretadas racionalmente, entregam uma carga informativa bastante interessante, ainda que fortemente influenciada pelo grau de conhecimento público em torno de determinados candidatos. Esse fator, a diferença de popularidade entre os candidatos, é quase completamente eliminado durante a campanha eleitoral propriamente dita, que tem envolvimento total – para o bem ou para o mal – da população. É somente nessa época que as pesquisas começam a refletir tendências reais, e aumentar assim a carga informativa que há em cada relatório da amostragem.

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