Elder Dias
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Perguntas da corrida eleitoral cujas respostas virão nos próximos meses

Os principais nomes são quase os mesmos que protagonizaram as eleições de 2018; a diferença está na posição que agora ocupam

Jair Bolsonaro agora tem partido: é o PL. Renovando seu próprio slogan antipolítica, ele agora já pode inclusive gritar: “Meu partido é (d)o Centrão!”. Com o fim da novela, depois de inúmeros capítulos – que culminaram com o ato que o colocou lado a lado com uma das figuras mais emblemáticas do tão tradicional quanto famigerado sistema do toma-lá-dá-cá –, o presidente agora pode partir, de fato, para a construção de sua estrutura que mira uma reeleição cada vez mais ameaçada.

A solenidade, ocorrida na terça-feira, 30, marcou também o fim do primeiro momento da corrida eleitoral ao Planalto: agora estão definidos os principais nomes da disputa pelo Palácio do Planalto em 2022 e por quais siglas eles concorrerão.

A adesão formal de Bolsonaro ao Centrão veio dias depois da resolução tucana por João Doria. Após uma semana de vexame na votação por aplicativo, antecedida de meses de alfinetadas entre os postulantes e muito desânimo da militância, a maioria dos delegados do PSDB escolheu o governador de São Paulo como pré-candidato, em detrimento de seu colega gaúcho Eduardo Leite – com quem a guerra das prévias foi acirrada – e do ex-senador pelo Amazonas e ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio, o 3º colocado, que participou para marcar posição, quase como um anticandidato.

Na semana anterior, tinha sido a vez de holofotes para o sonho de muita gente que deseja um nome competitivo para a chamada “terceira via”: o ex-juiz e ex-ministro da Justiça Sergio Moro se colocou no páreo, ainda que não explicitamente, ao se filiar ao pequeno Podemos, o mais lavajatista dos partidos. Usando o combo “media training + fonoaudióloga”, ele ainda se recusa a dizer abertamente que é pré-candidato a presidente, no que ratifica sua personalidade dissimulada, às vezes aparentemente até de forma involuntária. Mas nem precisaria abrir de vez o jogo: já há uma multidão de militantes influentes para fazer esse trabalho, boa parte na grande mídia, mas também no empresariado urbano e rural, no mercado financeiro e nas Forças Armadas – o general Santos Cruz, ex-ministro de Jair Bolsonaro, também se filiou à sigla.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também não diz que será candidato, e é outro que pode abrir mão disso por ora. Mesmo que não queira, não terá nada que possa fazer contra a própria postulação. Os números das pesquisas de intenção de votos, que o mostram em liderança avantajada sobre todos os adversários e, em alguns levantamentos, até com vitória garantida ainda em primeiro turno, se a eleição fosse agora, são pressão suficiente. Escolado por seis pré-campanhas, a última feita em parte dentro da cadeia, o petista sabe muito bem o momento de abrir mais o flanco.

Já Ciro Gomes (PDT) vive exatamente o contrário: garante a todos que será candidato, mas mesmo que queira e esteja se esforçando até o limite de sua retórica e de seus recursos – vide a contratação a peso de ouro do mago do marketing político João Santana –, vê o Planalto cada vez mais distante em seu horizonte, dados a conjuntura e os concorrentes. Corre sério risco de ser a Marina Silva da vez. A um ano das eleições de 2018, a principal referência da Rede Sustentabilidade estava com 8% na pesquisa Ibope e era a principal alternativa a Lula (35%) e a Bolsonaro (13%). Em pesquisa do Ipespe (o antigo Ibope), divulgada sábado, Ciro andou dois pontos para trás em relação ao último levantamento e tem 9%.

Há ainda outros pré-candidatos, menos cotados nas intenções de voto e já colocados na mesa, que, mesmo que abram mão de uma candidatura, podem ser – eles e seus partidos – importantes na formação das alianças: o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM); o presidente do Senado, o mineiro Rodrigo Pacheco, ex-DEM e agora no PSD; e a senadora Simone Tebet (MDB-MS), destaque da CPI da Covid.

Mandetta até pouco tempo, teria de “fazer a gata parir” com José Luiz Datena (PSL), já que seus partidos se fundirão para formar a União Brasil. Mas o apresentador de TV desistiu (mais uma vez) de ser candidato à Presidência e na semana passada disse que deve apoiar João Doria – até segunda ordem, que pode aparecer já na próxima semana, como também uma nova filiação partidária, tal é sua falta de rumo.

Rodrigo Pacheco é o vice sonhado por grande parte de seus eventuais concorrentes. Isso se deve bastante a seu perfil, de sentido moderado e conciliador – pela origem mineira, há um apelo (exagerado) para se ver nele um novo Juscelino Kubitschek. Mas ele também é cobiçado para uma aliança majoritária por estar em um partido de grande porte e cujo presidente, Gilberto Kassab, é tido como um dos mais hábeis políticos no que diz respeito a sentir o “cheiro” de vitória e correr para o lugar certo. Pode até não ser candidato, mas vai influir bastante no cenário do próximo ano.

Já a sul-mato-grossense Simone Tebet tem três trunfos: o primeiro é a estrutura nacional de seu partido; outro, o destaque que conseguiu (merecidamente, diga-se) em seu trabalho como arguidora dos depoentes na CPI do Senado que investigou a condução da pandemia no Brasil; mas um terceiro ponto é também muito a qualquer uma das chapas: numa posição de vice, ela traria a paridade de gênero, o que provavelmente tornaria mais simpático o homem concorrente à Presidência.

Corrida eleitoral, fase 2
Começa agora, portanto, a fase 2 das eleições presidenciais, na qual o cenário será de muita conversa entre pré-candidatos e lideranças partidárias, visando a composições e ao afunilamento dessa lista – no que vão contar pesadamente os interesses, sempre muito fortes, nas disputadas estaduais.

Primeiramente, será preciso ter muito tato e diplomacia para construir alianças que sejam ao mesmo tempo programáticas e pragmáticas. Após conseguir alinhavar esses acordos com gente às vezes de espectro ideológico não tão próximo, será a hora de ter habilidade para convencer a própria base a comprar a ideia. Essa foi um desgaste a que, por exemplo, Jair Bolsonaro já teve de se submeter previamente, para costurar a própria filiação e a de seus filhos ao PL. Breve comentário: se o “noivado” de um presidente de base radical apegada ao moralismo com políticos que só veem os próprios interesses já se deu à base de xingamentos mútuos, o que esperar do “casamento”?

E vem mais por aí: o quase ex-tucano Geraldo Alckmin, com um pé no PSD e outro no PSB, vai mesmo se unir ao antigo arquirrival Lula? Ciro Gomes manterá a artilharia pesada contra o PT, contra Bolsonaro e, agora, contra Sergio Moro? E como será o desempenho do ex-juiz da Lava Jato na construção de alianças, sendo ele desafeto de praticamente toda a classe política, das militâncias da centro-esquerda aos comunistas radicais e da maior parte da direita dita conservadora? E João Doria, com o mérito da vacina e com o mesmo desprezo ideológico de ambos os lados, o que conseguirá erguer em meio aos destroços do PSDB?

Perguntas a serem respondidas nos próximos meses, em meio a todas as surpresas que nos reserva a política, especialmente em períodos eleitorais.

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