Afonso Lopes
Afonso Lopes

Os trunfos de Marconi que salvaram o governo

Em janeiro de 2011, Marconi herdou uma administração errática, com desequilíbrio projetado em R$ 2 bilhões. Ao final de 2014, foi reeleito batendo seu próprio recorde de votação

Governador Marconi Perillo: o maestro da equipe que equacionou a gestão no terceiro mandato Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Governador Marconi Perillo: o maestro da equipe que equacionou a gestão no terceiro mandato Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Não era para ter sido o que foi. Em meados de 2007, ao romper com o então senador Marconi Perillo, principal responsável pela sua eleição no ano anterior, o governador Alcides Rodrigues tentou de todas as formas destruir a imagem do legado que recebeu e, de quebra, abrir um novo formato administrativo que levasse a população a se esquecer rapidamente dos avanços registrados nos dois mandatos anteriores, iniciados em 1999. Marconi fez o possível para não passar recibo, mas não teve como segurar.

Os planos arquitetados no Palácio das Esmeraldas a partir de 2007 visavam implodir a imagem pública erguida por Marconi, mas o governo não teve desempenho suficiente para isso. Ao final de 2010, equivocado, sem visão crítica e transformado em principal desafeto político de Marconi, o governo de Alcides completou a guinada rumo à oposição.

Eleitoralmente, o resultado dessa postura foi um desastre total como jamais de viu. O candidato com chancela oficial, o ex-prefeito de Senador Canedo, Vanderlan Cardo­so, simplesmente foi massacrado nas urnas, recebendo pouco mais de 16% dos votos válidos. Do outro lado, Marconi ressurgiu no comando do Estado ao vencer o peemedebista Iris Rezende no 2º turno.

Entre a eleição e a posse, conforme revelaram fontes do governo ao longo de 2011, a máquina administrativa foi destroçada. Fornecedores essenciais ficaram com faturas penduradas, as rodovias não receberam qualquer forma de proteção e se deterioram completamente e até as folhas de pagamento deixaram de ser pagas dentro do mês trabalhado, prática implantada por Marconi em seu primeiro mandato. Naquele início de 2011, o então secretário da Fazenda, Simão Sirineu, anunciou um déficit financeiro potencial de 2 bilhões de reais. Para completar o circo de horrores administrativos, o terceiro mandato de Marconi começou com quase 10 mil servidores públicos aprovados em concursos realizados no governo de Alcides e não empossados batendo às portas do Palácio das Esmeraldas.

Remonta-se grosseiramente o cenário administrativo de 2011 nesta Conexão com o propósito evidente e inegável de reavivar a memória. Até pela óbvia razão de que a atual situação é tão completamente diferente que acaba sendo um exercício de raciocínio avaliar a real dimensão da mudança que ocorreu ao longo dos últimos quatro anos. Do desânimo total daquela época à recuperação da autoestima coletiva. Talvez seja esse o maior legado que se obteve no terceiro mandato de Marconi Perillo no Estado, e que levou quase 60% dos eleitores a lhe confiar mais quatro anos no comando do Palácio das Esmeraldas.

Marconi não fez o que foi feito sozinho. Seu grande mérito foi ter montado uma equipe de auxiliares diretos que equacionaram as encrencas administrativas. Na Fazenda de cofres raspados, Simão, o “sirinão”, notabilizou-se por promover cortes profundos nos gastos ao mesmo tempo em que criou melhores condições para incrementar a arrecadação. No Planejamento, Giuseppe Vec­ci, apresentou uma série de sugestões para agilizar as ações do go­verno. Mas foi na Agetop onde surgiu o grande nome do governo edição 3. Jayme Rincón, que jamais havia vestido o figurino de gestor público, foi o trator tanto administrativo como político que Marconi tanto precisava para estabelecer um diferencial em relação aos seus dois primeiros mandatos.

O governador mantém uma pegada como se ainda estivesse em seu primeiro mandato, e não prestes a iniciar seu quarto período administrativo. É graças a essa virtude inigualável que ele conseguiu se estabelecer como nenhum outro no Olimpo político de Goiás. Ele respira política e administração 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano. Mas até ele sentiu um baque extraordinário em 2012, quando adversários montaram um palco nacional para guilhotiná-lo. E exatamente naqueles momentos mais difíceis, Rincón surgiu com uma veia política e assumiu um papel fundamental na recuperação do governo.

A cada pancada dos opositores, o presidente da Agetop devolvia com autêntico bombardeio. Em determinado momento, enquanto praticamente todo o governo se escondia, deixando exposto o governador à sanha política dos adversários, era ele quem corria às redações de rádios, jornais e TVs na defesa da administração e do próprio Marconi. Não há como fazer um balanço do mandato versão 3 sem concluir que a dupla Marconi-Rincón foi absolutamente perfeita. Mar­c­o­ni blindou o governo ao praticar uma política de distensão com Bra­sília, recebendo da presidente Dil­ma Roussef toda a contrapartida na exata medida do que lhe foi oferecido. Rincón blindou a ad­ministração com uma extensa re­lação de obras, incluindo a recuperação e melhoria das rodovias e prédios públicas, além de ter se tornado o guardião político e parachoque do governo nos inevitáveis ataques desferidos pela oposição.

É óbvio que um conjunto de governo como esse que se apresenta neste final de 2014, e levando em conta o caos que se observava em 2010, não é resultado de apenas uma dupla. Rincón foi, sem dúvida, o auxiliar que mais se destacou, mas o grande mérito de Marconi Perillo enquanto político e governador do Estado em três mandatos foi saber dosar bem e escolher melhor ainda seus auxiliares diretos. É certo que um governo composto por uma coalizão tão grande quanto à que venceu as duríssimas eleições de 2010, precisou abrigar inúmeras indicações que não renderam dentro da média, mas o núcleo central do governo funcionou co­mo uma orquestra, com Rincón, Vecci, Simão, Antônio Faleiros, Thiago Peixoto, Alexandre Baldy e alguns outros, tendo Marconi como maestro.

Marconi conseguiu inovar em 1999/2002 e 2003/2006. Em 2011/2014, devolveu a Goiás e aos goianos a autoestima. O balanço deste terceiro mandato é muito positivo, e isso foi o que se viu na avaliação majoritária dos eleitores nas urnas, embora o Estado de Goiás não seja uma Dinamarca. O que se anuncia para 2015/2018 é uma administração menor e mais ágil. Se funcionar mais uma vez, a fórmula Marconi de governar vai chegar muitíssimo forte em 2018. Aos opositores, resta uma reciclagem geral. Não há mais espaço para se fazer uma oposição como se Goiás ainda estivesse em meados do século passado.

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