Afonso Lopes
Afonso Lopes

O trio que pode complicar eleição para Iris

Contra discursos afiados e técnicos, Iris Rezende terá que encontrar alguma maneira de se mostrar moderno como administrador

Giuseppe Vecci, Luiz Bittencourt e Vanderlan Cardoso: candidatos que têm discurso moderno e articulado

Giuseppe Vecci, Luiz Bittencourt e Vanderlan Cardoso: candidatos que têm discurso moderno e articulado

Em quase todas as eleições que participou em sua longa trajetória política, Iris Rezende sempre começou na frente. Em 1998, quando foi derrotado pela primeira vez, as pesquisas indicavam que 70% dos eleitores de Goiás estavam dispostos a votar nele para governador. Foi assim também em 2002, quando disputou e perdeu a reeleição para o Senado. Ele começou na frente, foi ultrapassado por Lúcia Vânia e Demóstenes Torres.

Em Goiânia, este ano, levantamentos internos dos partidos indicam que Iris é mais uma vez favorito, embora sua vantagem para o segundo colocado, deputado federal Waldir Soares, não seja muito grande. Ainda assim, ele será o “cara a ser batido”.

Waldir e Iris surfam em ondas do eleitorado bastante semelhantes, com certa vantagem para o veterano peemedebista. Waldir, hoje no PR, vai muito bem nas periferias, mas encontra forte resistência dos eleitores com maior nível de escolaridade. É natural que isso aconteça. O discurso que fez o candidato republicano popular, ao ponto de fazer dele o deputado mais votado em Goiás nas eleições de 2014, tem fortíssima conotação policial. É claro que numa eleição para o legislativo isso conta muito, principalmente numa época em que a segurança pública no país está totalmente desmantelada.

Para prefeito de cidade, notadamente em uma capital como Goiânia, a figura de um delegado comandando o Palácio do Cerrado Venerando de Freitas Borges soa absolutamente estranho. Waldir terá então que promover uma importante e vigorosa migração de imagem, perdendo a conotação do político-delegado linha dura e se apresentando como administrador, que conhece o funcionamento de postos de saúde, política de trânsito, transportes coletivos e situação escolar. É uma tarefa e tanto que o deputado Waldir tem pela frente. Uma migração de imagem como essa não é simples e rotineira, mas é obviamente possível. Talvez, para ele, o maior problema seja a campanha extremamente curta, como será este ano. Waldir terá que acertar muito e errar quase nada para se firmar realmente na disputa.

O popular delegado-deputado Waldir não é a única encrenca que a campanha deste ano apresenta para Iris Rezende. Um trio, hoje pouco competitivo diante dos dois líderes, também é extremamente perigoso eleitoralmente: Giuseppe Vecci, do PSDB, Luiz Bittencourt, do PTB, e Vanderlan Cardoso, do PSB, não necessariamente nessa ordem.
Os três têm mensagens consistentes, e podem impactar bastante o eleitorado que deve apostar em perfis mais estruturados do ponto de vista administrativo este ano. Iris, ao contrário, dificilmente vai utilizar ideias mais assimiláveis aos novos tempos informatizados. É possível que o velho discurso do mutirão não empolgue mais ninguém.

Já entre os três oposicionistas, as mensagens que estão sendo apresentadas aos poucos por cada um deles são bastante consistentes. Vanderlan deve apostar alto na sua experiência como prefeito de Senador Canedo. Ele diz que o segredo de suas boas administrações na cidade foi planejamento a curto, médio e longo prazos. É o que ele tentará passar para o eleitor goianiense. E um detalhe: seu modo de se comunicar está muito melhor e mais natural. Essa era uma de suas maiores deficiências. Havia conteúdo, mas pouca qualidade na capacidade de se comunicar. Vecci, um dos pensadores do modelo gestor implantado e aprovado no Estado pelo governador Marconi Perillo, também vai desfilar uma série de medidas que devem criar ambiente de atualização no modelo administrativo de Goiânia. Ele ainda não conseguiu deslanchar na forma como passa essas informações para os eleitores de maneira geral, mas não é algo insuperável. Um de seus carros-chefe será a descentralização administrativa. Hoje, a cidade é decidida a partir da Prefeitura. Vecci defende a criação de subprefeituras espalhadas pelas regiões da cidade de modo a levar as decisões para a vizinhança de onde estão os problemas.

Completando o trio, Bittencourt tem sido bastante ousado em suas propostas iniciais. Ele foi o único até agora que se disse favorável à utilização da internet como veículo de interação entre a administração e os cidadãos, com possibilidade até de interferência na execução orçamentária. Para ele, o modelo atual concentra demais as decisões. Outro ponto que deverá ser bastante usado é a indicação de um secretariado técnico, independentemente de conchavos e negociações políticas. Isso vai soar como música aos ouvidos dos eleitores. Além dessas iniciativas, que são inovadoras que compõem um cenário de modernidade, Bittencourt tem facilidade para expor o que pensa, e sabe dosar uma certa agressividade. Tudo somado, Iris deve começar, sim, mais uma vez como favorito, mas vai ter que se esforçar para acompanhar os adversários e não ser derrotado mais uma vez. l

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