Afonso Lopes
Afonso Lopes

O que há além da margem de erro

Em todas as eleições, os institutos de pesquisa se tornam alvos preferenciais por apresentarem informações que não se confirmam nas urnas. De quem é o erro?

Universo de eleitores das pesquisas pode não ser o mesmo da votação efetiva: distorção | Foto: Erick Pinheiro

Universo de eleitores das pesquisas pode não ser o mesmo da votação efetiva: distorção | Foto: Erick Pinheiro

Antes de entrar nesse assunto tão polêmico, os erros, uma rápida abordagem sobre o objetivo das pesquisas eleitorais. Elas não são a palavra final sobre um conjunto de informações. Fazem parte desse universo. Ou seja, são algo a mais na informação. E não, repito, a única e definitiva ação desse conjunto.

Em outras palavras, não se pode “ler” as pesquisas como se o mundo das informações não tivesse mais nada, apenas os porcentuais e suas tabelas. Elas são, portanto, um elemento informativo que acrescenta ao global da informação.

Complicado isso? Não, não é. O problema está exatamente na manipulação que se faz das pesquisas e dos seus números. Isso ocorre pelas mentes criativas dos marqueteiros e pela emoção dos simpatizantes deste ou daquele candidato. E, claro, também pela falta de traquejo com que alguns veículos de comunicação tratam esse tipo de informação, por má fé ou mesmo por absoluta falta de conhecimento sobre o assunto.

Assim, termina-se por ver e entender uma só pesquisa como projeção de resultado das urnas no futuro, próximo ou não, quando se trata prioritariamente de informação sobre determinado momento. Pesquisa não tem e nunca teve a pretensão de prever o futuro. Tem, sim, a intenção de revelar/informar sobre o presente.

É óbvio que, pelo potencial informativo que carregam, as pesquisas se tornaram uma importante e cara mercadoria, que muitas vezes é comercializada com único propósito monetário e não como ciência. E nesse submundo, como em qualquer outro ramo da atividade humana, os limites éticos são completamente desprezados tanto por quem vende como por quem compra.

Mas ao contrário do que se imagina e afirma nas ruas, praças e bate-papos em redes sociais, essa não é a regra geral que norteia as pesquisas eleitorais no Brasil. Se houvesse apenas um ou dois institutos, a manipulação mercadológica seria facilmente obtida, mas com tantos institutos, é bastante improvável que alguém ou algum setor do mercado consiga “comprar” todo mundo, desde os institutos até os veículos de comunicação. Mais do que isso: se as pesquisas são “compráveis”, por que nem todos os candidatos as compram? São idiotas, por acaso?

No final do primeiro turno, como em outros ciclos eleitorais do passado, poucas pesquisas se confirmaram nas urnas. Pelo menos, essa foi a sensação geral do público consumidor de informação. O problema é que as pesquisas, com exceção daquelas conhecidas como “boca-de-urna”, não são projeções. Não são aplicáveis enquanto informação futura de voto, mas apenas enquanto informação sobre intenção de votar neste ou naquele, desta ou daquela forma. Há uma diferença brutal nisso: voto e intenção de voto.

O método aplicado nas pesquisas brasileiras, como de resto no mundo todo, foi desenvolvido nos Estados Unidos pelo estatístico George Gallup. Na década de 1930, os grandes jornais americanos promoviam enquetes gigantescas entre seus milhares de leitores para informar sobre as tendências das intenções de voto. Os leitores recortavam um pequeno cupom e indicavam em quem tinham a intenção de votar. Os cupons preenchidos com essa informação eram enviados para os jornais que os computavam. Tudo somado, os números se transformavam em informação.

Pois na eleição de 1935, os leitores dos grandes jornais dos Estados Unidos majoritamente, e aos milhares, indicavam que Alfred Landon seria eleito presidente com um pé nas costas. Gallup formatou a sua pesquisa e com alguns poucos milhares de entrevistas garantiu que Franklin Roosevelt é quem venceria. É claro que ninguém levou a pesquisa de Gallup muito a sério. Afinal, como milhões de cupons/respostas dos leitores de todos os grandes jornais americanos não projetariam com muito maior precisão a tendência geral do eleitorado em comparação com algumas poucas entrevistas realizadas por Gallup em sua pesquisa? O resultado daquela eleição marcou definitivamente a validade da ciência estatística na medição da opinião pública. Roosevelt venceu.

É óbvio que, tanto pelo ineditismo como pela surpresa geral, George Gallup teve que explicar a “mágica” durante os meses que se seguiram. E ele se utilizou de um exemplo simples para mostrar que há ciência, sim, numa pesquisa. Imagine uma caixa com 1.000 litros de água. Você não precisaria analisar cada molécula desses 1.000 litros para saber com precisão a sua composição química. Bastaria agitar toda a água e retirar da caixa apenas um copo. O que esse copo contiver será exatamente igual a toda a água que está dentro da caixa.

É óbvio que esse método não se aplica apenas com uma caixa de água. A poluição nos rios e lagos, por exemplo, é medida da mesma forma. Recolhe-se um pouco de água em vários pontos e é possível compor quimicamente todo o conjunto. Agora, imagine que alguns dias depois, a fonte poluidora do tal rio ou lago pesquisado seja anulada. Se for feita nova medição, vai se concluir que a água está menos poluída. E se novas pesquisas forem feitas ao longo do tempo, chegará o momento em que se vai concluir que a água está totalmente limpa, sem qualquer semelhança com a primeira pesquisa realizada lá atrás.

Aplica-se isso, exatamente dessa forma, nas pesquisas eleitorais. É esse o método que se usa até hoje nas pesquisas quantitativas. E elas, via de regra, quase sempre acertam no olho da mosca, como aquela primeira pesquisa feita por Gallup na década de 1930. O que ocorre é que não se pode pegar a informação de uma pesquisa e atirá-la como informação futura. Isso seria o mesmo que pegar a pesquisa inicial do rio ou lago poluído e dizer que futuramente ele estará tão poluído quanto agora. Ora, poderá estar mais ou menos poluído, dependendo do que se fizer.

Mas, afinal, tudo isso não invalida a dúvida: por que os institutos de pesquisa “erraram” tanto no primeiro turno, além até das margens de erro admitidas? Vamos lá, em que momento as tais pesquisas informaram que as intenções de votar seriam idênticas ao voto consolidado? Em nenhum momento. O fato de alguém responder que tem a intenção de votar neste ou naquele candidato no momento em que é entrevistado por um pesquisador não significa, longe disso!, viola no saco, favas contadas.

Da intenção de votar até a consolidação do voto há inúmeros fatores que podem provocar alterações. Grosso modo, grossíssimo modo, se o eleitor amanhecer com uma… dor de dente ele pode nem se dispor a ir votar. Enfim, são milhares de situações pessoais que interferem diretamente nessa relação entre intenção e consolidação. Um filho que amanhece com febre no dia da eleição pode causar uma preocupação tão grande nos pais que o ato de votar, de transformar suas intenções em voto, perde completamente o sentido.

Além desses fatores pessoais, que obviamente não compõem um quadro majoritário do eleitorado, mas que se tornam de certa forma representativos, há um aspecto que mexe substancialmente com o conjunto todo, e que está diretamente interligado: a pesquisa aponta intenções de voto do universo dos eleitores num determinado momento, inclusive às vésperas das eleições, enquanto a apuração dos votos resulta do universo votante. Só para se ter uma melhor ideia do que isso representa, no primeiro turno, em Goiás, as pesquisas se aplicavam sobre um universo de 4 milhões e 200 mil eleitores, mas somente 3 milhões e 600 mil votaram para governador. E para Senador, foram menos ainda os eleitores que realmente votaram. Em resumo, de cada 100 eleitores que compõem o universo pesquisado, cerca de 30 não votam — anulam os votos, votam em branco ou nem comparecem. Esse conjunto é tratado como alienação eleitoral.

Mas, então, pesquisa não vale nada enquanto, no mínimo, uma informação? Vale, sim. É só reparar que nenhum instituto de pesquisa “errou” a ordem dos votados: Marconi na frente, com boa vantagem, Iris em segundo, Vanderlan em terceiro, Gomide em quarto e assim por diante. E os institutos “acertaram” também para o Senado, na ordem exata: Caiado, Vilmar e Marina Santana. Ah, pode-se alegar, mas os institutos “erraram” os porcentuais de cada candidato. Não exatamente. Se for levar em conta uma alienação eleitoral de 30%, é óbvio que os porcentuais pesquisados podem ser diferentes dos votos obtidos individualmente.

Portanto, e definitivamente, as pesquisas eleitorais são apenas informação e, como toda informação, podem envelhecer rapidamente ou não. Muito além das margens de erro e das discussões.

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