Afonso Lopes
Afonso Lopes

O objetivo é o povo

Encontro entre o governador Marconi Perillo e o prefeito Iris Rezende, de Goiânia, pode marcar o início de esforço conjunto e independente em prol da população

Governador Marconi Perillo recebeu o prefeito Iris Rezende e deu o recado: “Vamos melhorar a vida dos goianienses” | Foto: Wagnas Cabral

Desde os desencontros políticos entre santillistas e iristas na década de 1980, jamais Marco­ni Perillo, santillista, e Iris Rezende, líder de seu grupamento, mantiveram um encontro político-administrativo da forma como se viu na sex­ta-feira, 20, no Palácio Pedro Ludovico. Iris foi desprovido de pedras e certo de que não estava indo em direção a uma arapuca. Marconi deu ao mo­men­to a pompa e importância que de­veria dar: convocou todo o secretariado, mais seu vice-governador e os presidentes do Detran e da Sa­neago para receberem o prefeito da capital.

Não, não foi um encontro comum. Em nenhum outro momento da história de ambos se percebeu tanto desprendimento e disponibilidade política entre Marconi e Iris. Jamais. O que tinha ocorrido esporadicamente até então eram encontros quase casuais, sem maiores pretensões e com enorme carga de desconfiança mútua. Na sexta-feira, Iris estava acompanhado de seu melhor — e talvez único — grande diplomata e quadro de seu grupo, Paulo Ortegal, chefe de gabinete. Mais ninguém. E nem precisava. Esses dois juntos, Iris na liderança e Paulo como escudeiro leal e histórico, somam praticamente a totalidade da Prefei­tura, com todo o respeito aos demais auxiliares.

Marconi se fez acompanhar de todo o comando do Estado, dando uma demonstração clara de sua disponibilidade. O recado dele foi claro: sirva-se desta equipe, Iris, e vamos melhorar a vida do maior número possível de goianienses.

Há quem acredite que a maior crise econômica da história do Brasil é uma espécie de pano de fundo para a mudança de atitude político-administrativa de Iris e Marconi. Faz sentido realmente uma tese como essa. Mas não é apenas um abraço de administradores às voltas com problemas de caixa. Não foi, portanto, uma rendição conjunta diante dos problemas, mas a união para superar as dificuldades. É proveitoso e necessário que o Estado ajude naquilo que puder ajudar a Prefeitura, mas era também imperioso, e condição sine qua non, que a Prefeitura demonstrasse querer esse auxílio.

Qual dos dois, Iris ou Marconi, tem mais a ganhar no campo administrativo? Ambos, em condições muito parecidas. E politicamente, quem lucra mais? Ninguém. Nenhum dos dois se rendeu. A soma tem como principal objetivo a convivência construtiva entre os dois maiores líderes políticos de Goiás. E nesse caso tanto Iris quanto Marconi demonstram uma maturidade política que só faz bem. Nem Iris e nem Marconi está abdicando de suas convicções, mas fazendo delas um complemento racional com objetivo administrativo. Isso, em outras palavras, é fazer política com o cérebro e não com o fígado. A população só tem a ganhar com atitudes assim, principalmente quando essa ação parte das suas maiores lideranças. Representa a superação total dos tempos remotos em que as diferenças de convicções políticas levavam à incapacidade de convergência administrativa.

Mas é óbvio também que setores inferiores de ambos os lados olhem com desconfiança, e talvez até reprovem na intimidade do silêncio, gestos conciliatórios entre os grandes rivais políticos. O curioso é que no Poder Legislativo esse tipo de relacionamento pacífico é bastante comum. Por que então não deve ser também entre governos? O que deve pairar apenas acima das questões meramente políticas de cada grupo senão, e unicamente, o interesse da coletividade?

Haverá desdobramentos eleitorais desse encontro de sexta-feira entre Iris Rezende e Marconi Perillo? É muito difícil ao menos imaginar o que vai acontecer, como as coisas vão ser construídas. E também é igualmente complicado imaginar que ambos vão dividir o mesmo palanque algum dia. Isso pode até acontecer, mas não por ter sido iniciado nesse encontro. Uma coisa não tem nada a ver com outra. A política soma nas dificuldades. Se em algum ponto do futuro se tornar interessante a ambos se posicionarem do mesmo lado, isso irá acontecer naturalmente como adição política, e não como superação emocional entre contrários.

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