Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

O medo da extrema-direita fez o socialismo vencer. Por enquanto, só em Portugal

Observando os fatos, as eleições lusitanas parecem ter muito a ensinar para os próximos passos da direita e da esquerda brasileiras

Ex-presidente Lula, em visita ao socialista António Costa, primeiro-ministro de Portugal | Foto: Ricardo Stuckert

O sistema político em Portugal tem pouco a ver com o brasileiro. Lá há um regime parlamentarista, onde quem governa é o primeiro-ministro, nomeado pelo presidente da República – atualmente, Marcelo Rebelo de Sousa, cuja função, ao contrário do que ocorre no presidencialismo adotado no Brasil, se concentra basicamente no papel de chefe de Estado; quando necessário, também é sua tarefa dissolver o gabinete que comanda a Assembleia da República (o Congresso Nacional lusitano) e convocar eleições quando se chega a alguma eventual ingovernabilidade.

Como em qualquer lugar do mundo – inclusive no Brasil, apesar do absurdo número de partidos –, Portugal tem duas forças hegemônicas, o que por aqui, de uns tempos para cá, passou a ser chamado de polarização: são elas o Partido Social Democrata (PSD), de centro-direita, e o Partido Socialista (PS), de centro-esquerda. Este está no governo desde 2015, com António Costa à frente, e até 2021 contava com o apoio de duas siglas de esquerda, o Partido Comunista Português (PCP) e o Bloco de Esquerda (BE). A configuração dava ao PS a maioria das 230 cadeiras do Parlamento.

Só que a votação do orçamento para 2022 rachou a composição situacionista. Os socialistas perderam o apoio dos comunistas e Marcelo Rebelo de Sousa se viu obrigado a convocar eleições. O governo dos socialistas estava, portanto, sob alto risco de descontinuidade até o fim do ano passado.

Uma eleição sendo antecipada no meio da pandemia não era exatamente o desejo dos portugueses – muito menos do primeiro-ministro António Costa. A divisão de seu bloco era tida como uma brecha, quase uma iminência, para a oposição conquistar o poder.

Não seria nenhuma novidade o PSD voltar ao poder. Criado em 1976, o partido comandou o governo de 1979 a 1995, de 2002 a 2005 e de 2011 a 2015, no total, mais de 23 anos gerindo o destino de Portugal. Uma novidade “vizinha” a seu espectro político, porém, mudou a trajetória da eleição.

A questão é que surgiu, no caminho para a centro-direita portuguesa retomar a Assembleia da República, um partido de extrema-direita, o Chega. Liderado por André Ventura, um conhecido jurista e comentarista esportivo de Lisboa, os radicais vêm ganhando mais musculatura eleitoral, a ponto de terem subido de 3 para 12 seu número de cadeiras.

O detalhe é que, para formar a maioria, o PSD muito provavelmente precisaria de ceder a pautas radicais do Chega, contrário, por exemplo, à imigração, à unidade europeia (o “europeísmo”) e a diversas políticas públicas já pacificadas no país. A ascensão desse grupo extremista ao porte, embora agrade a cada vez mais cidadãos é sim uma novidade – e um temor para a maioria da população que viveu o período autoritário mais longo entre os países do continente com o quase meio século do fascismo salazarista.

Quando as urnas se abriram, então, veio a surpresa: o PS, sozinho, havia conquistado 117 das 230 cadeiras, formando uma inesperada maioria absoluta. Como os socialistas cresceram, apesar do suposto enfraquecimento que motivou a queda do gabinete? Ora, a maioria dos portugueses sentiu que o momento de dar suporte a um comando já conhecido, ainda que com reparações, para evitar o extremismo.

Transpondo essa situação para o Brasil – apesar das diferenças entre os regimes, como já foi dito no início –, há um sentimento de necessidade de correção de rota para a maioria absoluta da população. Em meio a uma crise sanitária e financeira, quase dois terços dos brasileiros rejeitam o governo de Jair Bolsonaro.

Nesse cenário, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acaba sendo visto como uma opção segura para boa parte dos eleitores. Saudosos da bonança evocada por seu período de governo, na primeira década do século, essa parcela está colocando a ideologia de lado para firmar os mais de 40% de intenções de voto que o petista tem em todas as pesquisas. Lula também faz sua parte: ele, que nunca foi da extrema-esquerda – a não ser para a ala radicalizada por Bolsonaro –, procura formar em torno de si desde já as condições de governo, aumentando o espectro de sua aliança para o centro, cativando o ex-tucano Geraldo Alckmin para ser seu vice, buscando o apoio de partidos como o PSD (não o de Portugal, mas o de Gilberto Kassab) e sabedor de que boa parte do Centrão vai correr para seu lado se mantiver o pleno favoritismo.

Enquanto isso, a Nação patina na economia e no controle da pandemia, em grande parte, por conta das escolhas de Bolsonaro, mais interessado em atender a seu eleitorado cada vez mais radicalizado do que montar alguma governabilidade ou, mesmo, agregar aliados para buscar a reeleição. Seria a deixa perfeita para alguém de direita ou centro-direita se construir como opção. E é o que tentam, até agora sem muitos sinais positivos, Sergio Moro (Podemos) e João Doria (PSDB).

O grande problema para esse campo é que Bolsonaro detém de 20% a 25% do eleitorado, um contingente que é composto em grande parte por gente que o vê como o “messias” que carrega como sobrenome. O conjunto da obra se mostra como uma barreira, até o momento intransponível, para o crescimento de outra opção.

Como candidato viável na centro-esquerda, o mesmo campo de Lula e do PT, só há Ciro Gomes (PDT), um político que já foi ministro do petista e hoje se coloca como um adversário nada disposto ao diálogo para caminharem juntos, movido pelo rancor da última eleição, quando os eleitores mais progressistas preferiram levar Fernando Haddad (PT) ao segundo turno.

O PDT é comandado por Carlos Lupi, que, como todo cacique partidário, é pragmático. A eleição portuguesa mostra que ficar fora de um governo conquistado por alguém do mesmo campo político pode não ser um bom negócio dentro das teias do poder – ainda mais com o vencedor levando consigo todos os partidos desse campo. A conjuntura coloca a dúvida aos pedetistas, já preocupados com a própria eleição para o Congresso: eles vão querer nadar contra a corrente chamada Lula e apoiar Ciro numa empreitada de sucesso improvável? A urna chega só em outubro, mas muita coisa vai ser respondida nos próximos meses:

Uma resposta para “O medo da extrema-direita fez o socialismo vencer. Por enquanto, só em Portugal”

  1. Avatar Caio Maior disse:

    Analise esclarecedora. Excelente leitura.

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