Afonso Lopes
Afonso Lopes

O grande desafio de Ronaldo Caiado

Se dependesse apenas da popularidade medida pelas pesquisas atuais, o senador Ronaldo Caiado já teria garantido a sua candidatura ao governo do Estado. O problema dele é a falta de estrutura partidária

Senador democrata lidera as pesquisas, mas tem fraquíssima estrutura partidária | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Embora pesquisa não tenha poderes para vencer eleições, é claro e inegável que aparecer na dianteira é sempre muito positivo. Os números credenciam os humores tanto da parcela do eleitorado engajada previamente a favor como nos círculos do poder partidário. Mas as tabelas dos institutos de pesquisa também sinalizam para os adversários, principalmente daqueles que aparecem na frente. E é exatamente esse o quadro que se tem em relação à candidatura do senador Ronaldo Caiado, presidente regional do DEM, partido situado entre os grandalhões da política nacional, mas totalmente desidratado no Estado.

De um lado, a base aliada, apesar de algumas notas dissonantes de algumas lideranças isoladas, está coesa em torno do nome do vice-governador José Eliton (PSDB). Ele é quem estará no comando do Palácio das Esme­raldas durante processo sucessório, o que potencializa a sua candidatura à reeleição. A esmagadora maioria da base aliada estadual sabe que Eliton tem ampla possibilidade de disputar a eleição com plenas condições de vencer. Não apenas por tudo o que conseguiu absorver ao acompanhar Marconi Perillo nos últimos sete anos, mas também pela força representativa do maior, mais forte e numeroso eixo político estadual.

Na outra trincheira está o presidente regional do PMDB, deputado federal Daniel Vilela, filho do ex-governador e ex-prefeito de Aparecida de Goiânia, segundo maior colégio eleitoral do Estado, Maguito Vilela. Dentro das dinastias que se tem na estrutura dos partidos no Brasil, Daniel vai se impondo com farta utilização das armas que dispõe internamente. O PMDB é o partido com maior número de filiados em Goiás, e isso coloca os peemedebistas como principal força antagônica do status quo do poder atual, liderado por Marconi Perillo.

Em condições normais, José Eliton e Daniel Vilela tem exatamente aquilo que faz uma falta danada para Ronaldo Caiado: estrutura partidária. Em compensação, pelo menos neste momento, Caiado tem a popularidade, de acordo com os institutos de pesquisa, que os dois adversários vão ter que trabalhar para conseguir. E aí se chega a uma encruzilhada de análise futura: quem realmente será candidato a governador?

José Eliton só não estará na disputa se não quiser. Além do apoio e confiança do governador Marconi Perillo, ele conta com maciço apoio na base aliada e, por último, estará com a caneta mais poderosa do Estado nas mãos, o que gera evidente perspectiva de poder.

Daniel Vilela tem passado apertado na disputa contra a estratégia de Ronaldo Caiado de conseguir maioria no PMDB em apoio ao seu nome. Observando-se à distância, embora com filtro nos bastidores — que vão muito além de declarações oficiais pela imprensa —, flagra-se um constante vai e vem interno. Algumas vezes tudo leva a crer que o democrata está prestes a derrotar Daniel. Logo em seguida, é Daniel quem demonstra que está muito longe de entregar ao rival de trincheira o direito à valsa com a noiva, a tal da candidatura. E esse sobe e desce nas cotações tem obtido uma velocidade impressionante.

Do início ao fim da semana passada, por exemplo, mudou todo o panorama dessa disputa. Caiado saiu na frente com várias declarações de apoio do grupo dos prefeitos, o trio Ernesto Roller, de Formosa, Adib Elias, de Catalão, e Paulo do Vale, de Rio Verde. Na quinta-feira, Daniel promoveu um encontro com a presença de 18 prefeitos do interior, que não integram a órbita do grupo dos três prefeitos, com o prefeito Iris Rezende. Mais do que isso, o prefeito de Goiânia sinalizou, segundo alguns participantes, que vai apoiar o candidato do PMDB ao governo do Estado, qualquer que seja ele. Isso representou a virada da semana pró-Daniel.

Esse jogo, porém, está ainda muito longe do final, e é impossível apostar racionalmente em possível vencedor.

Embora tenha sistematicamente negado até aqui que poderá se lançar candidato sem apoio do PMDB, é possível que o respaldo de uma parcela do partido o incentive a entrar na disputa assim mesmo, e contando somente com apoio de partidos nanicos. É jogada de altíssimo risco. Esses partidos todos que declaram apoio a ele, incluindo o DEM, se somados não apresentam um resultado animador em termos de presença no interior. São partidos pequenos e sem grande representatividade.

Essa é a grande dificuldade e maior desafio do senador Ronaldo Caiado para entrar na disputa com chances de vitória, como indicam as pesquisas atualmente. A falta de estrutura partidária tem sido uma pedra nos dois sapatos de muitos candidatos populares ao longo da história. A tendência é que o crescimento, por menor ou maior que seja, dos adversários, desidratem os números atuais. Essa desidratação pode ser minimizada exatamente pela composição da base de apoio. Sem ela, nada é fácil. Ao contrário, para vencer sozinho é necessário antes derrotar praticamente o impossível. Em todo o caso, eleição é eleição, e tudo pode acontecer, como já se disse tantas e tantas vezes. Ninguém vence ou perde eleição na vésperas. Apenas melhora ou piora o conjunto de chances de ganhar. l

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