Afonso Lopes
Afonso Lopes

O eterno drama do ex-gigante

Crise é uma palavra que parece estar incorporada definitivamente no PMDB de Goiás. Desde a redemocratização do país, na década de 1980, o partido vê alas internas em guerras políticas

A trinca de prefeitos Adib Elias, de Catalão, Ernesto Roller, de Formosa, e Paulo do Vale, de Rio Verde, começam a desequilibrar o jogo a favor de Ronaldo Caiado | Foto: Y. Maeda (Adib), Marcos Kennedy (Ernesto) e Divulgação

Não chega, obviamente, a ser uma bagunça generalizada, mas a verdade é que o PMDB de Goiás nunca foi exatamente harmônico. Desde a redemocratização do país, na década de 1980, o partido é sacudido por disputas homéricas entre suas lideranças. Durante todo esse tempo, o grupo irista sempre conseguiu levar a melhor sobre os “adversários”. Desde meados de 2014, porém, o grupo maguitista tem conseguido dominar o diretório estadual, embora sem fôlego para estabelecer uma hegemonia estável.

O deputado federal Daniel Vilela, filho do ex-governador Maguito Vilela, ganhou o comando estadual, no que parecia ser o início do declínio final de Iris Rezende e seu grupo. Esse jogo está estabilizado, com o prefeito de Goiânia dominando completamente o diretório metropolitano. O que o grupo maguitista não esperava é um levante de parte da bancada estadual na Assembleia Legislativa com inspiração nos principais prefeitos do PMDB no interior, como Adib Elias, em Catalão, Paulo do Vale, em Rio Verde, e Ernesto Roller, em Formosa.

Esse trio tem enorme poder interno, embora não exatamente em nível estadual individualmente. A força deles está na atuação conjunta. É difícil antecipar tendências internas no PMDB exatamente pela instabilidade interna na correlação de forças, mas o trio poderoso certamente vai ser bastante impositivo no processo de escolha do candidato do PMDB ao governo do Estado, em 2018. Se não por vários outros motivos, também pelo fato de que comandam uma parcela representativa do eleitorado governado pelo PMDB no interior.

Em tese, isso enfraquece a posição de Daniel Vilela e, por consequência, de todo o grupo maguitista. Os três prefeitos não têm qualquer preconceito contra o fato de que o partido poderá, em 2018, ser caudatário na chapa que vai disputar o governo do Estado. Em outras palavras, eles podem, sim, apontar o nome do senador Ronaldo Caiado, presidente regional do DEM. Neste momento, inclusive, essa seria a tendência. Mas é claro que Daniel e os maguitistas ainda não queimaram todo o arsenal, e devem permanecer na luta. Os iristas assistem a tudo de camarote, mas também vão ter participação decisiva no processo de escolha em 2018.

Esse dilema peemedebista, eternizado internamente, não interferiu na enorme capacidade eleitoral do partido até 1994. E de 82 a 94 foi um período bastante conturbado, com inúmeras crises. A primeira delas ocorreu exatamente no retorno das eleições diretas para governador, logo após o início da abertura democrática que encerrou o período ditatorial iniciado em 1964. O partido tinha três pretendentes ao governo, e a preferência majoritária era do então senador Henrique Santillo. Mauro Borges, como presidente, também liderava uma corrente numerosa. Já Iris, que retornava ao gozo pleno dos direitos políticos cassados na ditadura, acabou sendo o escolhido dentro de um grande acordo que garantiria a candidatura de Santillo quatro anos depois.

No governo, Mauro Borges e Iris quebraram o pau feio. Mauro queria, evidentemente, maior espaço para seu grupo, mas os iristas estavam com fome de ontem e não permitiram. Mauro deixou o PMDB como dissidente do Palácio das Esmeraldas, e se tornou o principal líder da oposição. O grupo irista foi reforçado no primeiro momento pelo ex-governador Irapuan Costa Júnior e sua ala do PDS, o partido que sucedeu a Arena. Essa chegada do ex-adversário teria sido o estopim de intensas disputas entre Santillo e Iris, mas não durou muito tempo. Irapuan percebeu que não teria espaço necessário junto aos iristas, e se aproximou de Santillo.

Nova guerra precedeu a eleição de 1990. Iris, que era ministro no governo de José Sarney, chegou a disputar a convenção nacional do PMDB que escolheu Ulysses Guimarães como candidato a presidente da República. Santillo, que integrava outra ala do PMDB, não votou a favor de Iris na convenção, mas também não votou contra ele já que permitiu que um suplente irista de carteirinha votasse na convenção. O cenário, então, estava criado, e Iris acabou vencendo Santillo.

Em 94, já sem ser incomodado pelos santillistas internamente, Iris enfrentou a segunda estrela dentro do seu grupamento, Nion Albernaz. Ex-prefeito de Goiânia, ele havia encerrado o mandato dois anos antes com grande popularidade, e era o candidato natural do PMDB à sucessão de Iris. Entre eles, velhos companheiros, tudo foi mantido acima da linha d’água, mas os iristas ferveram o caldeirão até o veto ao nome de Nion ser cozido em banho-maria. Não deu outra. Vetado, Nion deixou o PMDB e desembarcou no PSDB.

A indicação peemedebista ficou entre o deputado federal Naphtali Alves e o vice de Iris, Maguito Vilela. De perfil mais independente, e contando com força partidária no interior, Naphtali se bancava sem necessitar das bênçãos do núcleo central do irismo. Já Maguito conquistou exatamente esse núcleo. Foi ele o indicado, com Naphtali na vice.

Já com a reeleição instituída, em 98 Maguito deveria ser candidato naturalmente e sem maiores dificuldades inclusive para vencer com grande folga as eleições. Os iristas não aceitaram porque viam no Palácio das Esmeraldas o surgimento de um grupo maguitista. Iris, que mais uma vez era ministro — agora no governo de FHC —, abandonou Brasília e atropelou internamente a candidatura à reeleição de Maguito. No final, como se sabe, o oposicionista Marconi Perillo, principal, mas não único, herdeiro do santillismo, derrotou o grande mito Iris Rezende.

É assim, de disputa em disputa, que o PMDB se comporta no Estado. E está sendo assim mais uma vez, embora com a novidade da terceira via interna — essa liderada pelos prefeitos. Com Iris Rezende previamente fora da disputa pela candidatura ao governo, o caminho de Daniel Vilela parecia absolutamente tranquilo. Parecia. Pelo que se vê, o PMDB vai quebrar o pau internamente mais uma vez. É a sina do partido.

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