Afonso Lopes
Afonso Lopes

O Estado precisa da TBC?

Novo comando com João Bosco Bittencourt, que enfatiza o jornalismos hard news, pode dar mais público à emissora estatal goiana

Jornalismo passa a ter preponderância na TV estatal sob o novo comando da Agência Brasil Central

Em matéria de debate sobre o papel da TV pública, o Brasil está a anos-luz de distância do restante do planeta. Para se ter uma melhor ideia, enquanto o tema é normalmente discutido no dia a dia das populações dos países que mantêm esse sistema de comunicação, apenas um seminário internacional sobre o tema foi realizado até hoje. O evento contou com representantes de todos os países mais importantes da América, incluindo Estados Unidos e Canadá, além de grande parte das nações latino-americanas e europeias. Esse seminário foi promovido pela Astral, associação brasileira que reúne as TVs legislativas do país, em 2011.
Não existe modelo único de TV pública. Cada país tem particularidades que se fazem presentes na formatação implantada, e também no seu funcionamento. Nos Estados Uni­dos, país com maior número de TVs pú­blicas do mundo, a população é quem banca todas as despesas de forma voluntária. Considerada a me­lhor TV pública do mundo, a BBC, da Inglaterra, se vangloria de não de­pender de repasses do Poder Exe­cutivo central. Mas sobrevive graças a taxas que são impostas a todos os moradores que tenham um aparelho televisor. Ou seja, é uma ligação indireta com o agente arrecadador, o governo.

No Brasil, país sem nenhuma tradição em relação à contribuição voluntária, as TVs públicas geralmente estão ligadas aos poderes Exe­cutivos, Legislativos e ao Judiciário, como é o caso da TV Justiça. Essas emissoras tem papel fundamental ao oferecer maior transparência às ações dos poderes, mas também são essenciais como mantenedoras das culturais regionais, especialmente em países como o Brasil, em que cada Estado abriga populações completamente diferentes em quase todos os sentidos, com exceção da língua comum a todos.

Questiona-se, a partir de pesquisas, se as audiências das TVs públicas não são muito pequenas. No seminário internacional de Florianópolis, esse tema foi desmitificado completamente por um fato inquestionável, que retorna a questão à origem: não é a audiência das emissoras públicas que é pequena, a concentração da audiência em três ou quatro geradoras, através do modelo de redes nacionais adotado na década de 1960, é que é excessiva. E as redes nacionais provocam outro grave problema ao nacionalizar as programações, permitindo somente algumas poucas “janelas” de programas locais.

TBC

Mas por que considerar a TV Brasil Central (TBC) uma emissora fundamental e necessária da forma como está? Por inúmeras razões, mas talvez a melhor delas seja o fato de que economicamente, praticamente todas as emissoras, fora as grandes redes nacionais, sobrevivem de verbas públicas ou de comercialização de horários da programação para segmentos religiosos. A TBC em mãos particulares seria apenas mais uma a explorar esse filão ao máximo de modo a gerar lucro aos investidores.

Por outro lado, ao longo de várias décadas, o sistema ABC (Agência Brasil Central), acumulou um passivo trabalhista judicializado até a medula. Acabar com ela, jogando-a nas mãos de grupos empresariais ou segmentos religiosos, ou mesmo terceirizando o setor, é o mesmo que assumir esse passivo diretamente. Essa solução já foi bastante estudada ao longo das décadas de 1980 e 1990, e jamais foi adotada por ser péssima alternativa.

Em boa hora, o governo separou o setor de Comunicação, com a criação do Gecom, da ABC. São realmente papéis incompatíveis, e um deles sempre irá predominar sobre o outro. Isso vai permitir que a TBC recupere seu papel fundamental, que é de levar informação à população sobre fatos que acontecem no Estado. No governo de Henrique Santillo, entre 1987 e 1990, a ideia foi exatamente essa, e teve na presidência o jornalista Jayro Rodrigues. O foco foi o jornalismo e programas regionais. A resposta, em todos os sentidos — da audiência ao faturamento — foi positiva.

A escolha conjunta feita pelo governador Marconi Perillo e o vice-governador José Eliton, de enviar o jornalista João Bosco Bittencourt para o comando da Agência Brasil Central relembra, cada um com seu estilo, obviamente, exatamente a fase de ouro vivido na emissora goiana no governo de Henrique Santillo. No tocante à TBC, Bittencourt tem arrojo, liderança e uma disposição de workaholic para implementar rapidamente uma programação que aos poucos desperte cada vez mais a atenção. A sua ideia, de incrementar o jornalismo sem adotar o modelo mais caro de all news, e, sim, o hard news, é algo a ser observado ao longo do tempo. Se não houver nenhuma mudança brusca, é bem provável que a TBC encontre mais público no dia a dia, e reafirme definitivamente a sua vocação de TV pública, a de manter viva a cultura e identidade dos goianos, sem se render às redes nacionais. O caminho é esse.

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