Afonso Lopes
Afonso Lopes

O enigma devora a oposição

A chegada do DEM, de Ronaldo Caiado, ao leque de aliados do PMDB transformou a coligação com o PT em um drama sem solução

Ronaldo Caiado está entre uma aliança que envolve seu DEM, o PMDB de Iris e o PT de Adriana Accorsi

Ronaldo Caiado está entre uma aliança que envolve seu DEM, o PMDB de Iris e o PT de Adriana Accorsi

O senador Ronaldo Caia­do passou quase a vida toda se digladiando com o PMDB de Goiás. Aliás, sua entrada no PFL, antiga denominação do atual DEM, se deu porque uma parcela do partido se tornou aliada dos peemedebistas. O diretório nacional do partido não aceitou e entregou o partido a Ronaldo. O grupo pró-PMDB deixou o partido e se juntou de vez a Iris Rezende, como foi o caso do ex-deputado Wolney Siqueira. No então PFL ficaram alguns de seus fundadores, quase todos integrantes do grupo político liderado pelo ex-governador Otávio Lage (falecido em xx), como Jales Fontoura, o deputado estadual e presidente da Assem­bleia Legislativa, Hélio de Souza, e o ex-deputado e atual secretário do governo estadual Vilmar Rocha.

Durante anos, a convivência no PFL/DEM se não foi absolutamente tranquila, também não passou por momentos muito tensos. Em comum, todos ali lutavam contra o arquirrival PMDB. Hoje, nada disso existe mais.

O DEM sofreu várias debandadas. A primeira delas aconteceu exatamente no primeiro confronto de Ronaldo Caiado com o governador Marconi Perillo. Uma boa parte do grupo Lage rompeu com Caiado e seguiu com Marconi. Desde então, e de tempos em tempos, o DEM perde algumas de suas lideranças. De tal forma que hoje, em Goiás, o partido tem dois senadores e um só deputado estadual. Caso surja, como parece estar acordado entre os líderes em Brasília, uma nova janela partidária, vai restar somente Caiado. Hélio de Souza e o senador Wilder Morais já estão com as malas afiveladas para voar para outros partidos.

Tudo isso seria problema apenas do DEM em Goiás se não tivesse ocorrido uma aproximação entre Caiado e Iris Rezende nas eleições estaduais do ano passado. Ambos estavam isolados e a união entre eles acabou por romper, de certa forma, o cerco político em que se encontravam. Caiado não tinha condições de retornar à base aliada estadual liderada pelo governador Marconi Perillo para disputar o Senado, e Iris havia perdido o apoio do PT estadual, que bancou a candidatura do ex-prefeito anapolino Antônio Gomide.

A animação da candidatura de Caiado ao Senado, confirmada nas urnas embora com diferença de votos muito menor do que se imaginava a princípio, foi como um néctar revigorante para o desanimado PMDB de Iris. Não deu, mais uma vez, para Iris, mas Caiado, nesse sentido, sobrou dentro da campanha, e terminou em alta junto ao irismo.

Mas agora a história é outra, e bem mais complicada. Iris sempre foi aliado incondicional do prefeito petista Paulo Garcia, e é apontado como o grande avalista de sua eleição em 2012. Ao mesmo tempo, Paulo sempre correspondeu em tom igual à aliança com o PMDB de Iris, inclusive mantendo em seu secretariado inúmeros iristas. Ambos já disseram que PT e PMDB deveriam continuar juntos nas eleições do ano que vem.

Apesar das dificuldades naturais de uma coligação como essa, especialmente em razão do desgaste de imagem do prefeito Paulo Garcia durante os dois primeiros anos de mandato, uma eventual candidatura de Iris novamente facilitaria bastante a manutenção dessa aliança. Mas não resolve uma questão: e Caiado, onde entraria nessa história?

Está aí uma bela encrenca. O senador Ronaldo Caiado é um dos inimigos mais empedernidos do PT em todos os níveis. E a recíproca dos petistas em relação a ele é total. Seria possível a Iris promover um “milagre” político-eleitoral e colocar petistas e Caiado num mesmo palanque?

Em tese, é possível, sim. Caiado, Iris e o PT goiano têm em comum o fato de fazerem oposição a Marconi Perillo e à base aliada como um todo em tempo integral. Há, inclusive, lideranças importantes do PT que defendem a presença de Caiado num palanque que tenha petistas. Como é o caso do deputado estadual Luis Cesar Bueno. Embora oposicionista duro e inflexível, o deputado sempre foi um conciliador. Ele está mais para diplomata do que para atirador de elite. Mas bastou ele dizer que aceitaria que Caiado integrasse o leque de apoios para a disputa no ano que vem para a também petista e colega de bancada, deputada estadual Adriana Accorsi, se irritar, e rechaçar a ideia.

Há também no PMDB gente que preferiria se manter distante de Ronaldo Caiado. Mas nesse caso o motivo seria outro, e não ideológico. O grupo liderado pelo prefeito Maguito Vilela, de Aparecida de Goiânia, tenta evitar que o líder do DEM se mantenha na cozinha do PMDB para não ter que disputar com ele uma vaga na grande mesa das eleições de 2018. O grupo aposta alto no deputado federal Daniel Vilela, filho de Maguito, e sabe que Caiado também pretende disputar o governo do Estado com apoio de Iris Rezende.

Apesar dessa salada de ingredientes que não se misturam, em se tratando de Iris Rezende, um dos maiores políticos da história de Goiás, talvez seja possível a ele promover esse “milagre”. O duro será manter a paz interna depois, em plena campanha. Petistas e Caiado não costumam levar desaforos para serem digeridos em casa, e por isso o comportamento entre eles no mesmo palanque pode se transformar numa pauleira só.

Enfim, esse é um grande enigma que precisa ser desvendado por Iris Rezende na montagem da estratégia a ser utilizada nas eleições de Goiânia no ano que vem. Abrir mão de Ronaldo Caiado agora pode ser ruim porque ele perderia o grande trunfo para enfrentar os maguitistas em 2018. Ao mesmo tempo, se jogar na campanha tendo o PT, que o sucedeu, como adversário a ser batido pode não ser algo muito interessante. Ao contrário, pode ser péssimo. E sem a definição de Iris, a oposição se devora em per­guntas sem resposta.

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