Elder Dias
Elder Dias

O Biden brasileiro já existe e será (muito) competitivo

É preciso entender de vez que, na polarização das forças políticas, hoje só há um dos lados que é extremista. Os políticos moderados sabem disso

O outro título deste artigo seria “A dura missão de ser militante de centro no Brasil”. Na verdade, um desafio que se coloca exatamente pelo fato de o centro não ser um “lugar” apaixonante. Militar significa se doar a uma causa, numa versão livre e pessoal de interpretação. Indo ao Dicionário Michaelis – na falta de um Aurélio on-line – para ter uma visão mais imparcial, uma das definições para o verbo é “participar ativamente na luta e defesa de uma posição, causa, ideia”.

Militar pelo centro seria, então, ser um “radical de centro”, como ironizam alguns? Nem tanto, como veremos mais à frente neste texto. Poderíamos discutir o que é uma posição política de centro mundo afora, mas nos interessa aqui e agora essa posição no Brasil. E em nossa conjuntura vivenciamos, segundo avaliação geral e percepção não muito difícil para quem observa o cenário político, uma polarização entre forças antagônicas.

Aqui é preciso colocar com clareza os pingos nos is, para ser redundante – algo infelizmente necessário em um país onde é preciso ainda dizer que não existe tratamento precoce para Covid-19: antagonismo entre forças políticas, ou ter duas posições polarizadas, não significa necessariamente extremismo de ambas.

Presidente dos EUA, Joe Biden, em montagem sobre o Biden brasileiro | Foto: Reprodução

Já vamos para dois anos e meio de Jair Bolsonaro (sem partido, ainda) na Presidência. O saldo até agora, incluindo a prova de fogo que tem sido o enfrentamento de uma pandemia que já bate a casa de meio milhão de vítimas, demonstra o que é um governo extremista: fala exclusivamente para seu gueto, incita militares, desautoriza os próprios ministros, faz vistas grossas a abusos aos direitos humanos em todos os tipos, insulta jornalistas e veículos de imprensa sem nenhum pudor, não recebe lideranças e movimentos sociais que não sejam ligados a sua ideologia, cria uma rede de notícias falsas, nega evidências científicas e propagandeia curandeirismo, interfere em órgãos de Estado, toma medidas populistas sem observar as consequências para a economia, difama alguns dos maiores parceiros comerciais no mundo e fecha canais com outros.

Não são os esquerdistas que chamam Bolsonaro de político de extrema-direita. São os fatos. Depois da queda de Donald Trump, está com o brasileiro a pecha de líder histriônico de um movimento global que se diz “conservador”, com o guru Steve Bannon à frente, mas que de conservador não tem nada. Conservadora é a força política que se opõe aos progressistas: enquanto estes tentam mover o mundo, por meio de avanços em direitos e incremento de políticas sociais, os primeiros querem garantir que os valores da sociedade não se transformem – ou, pelo menos, que isso ocorra sem prejuízo à estabilidade institucional, de forma gradual e tranquila. Ou seja, o conservador conversa com o progressista, eles se desacertam, debatem, brigam politicamente e alguns vencem aqui, outros ali.

A política que Bolsonaro e seu grupo levam a cabo não poderia jamais ser considerada conservadora: é reacionária. Quer forçar o mundo a retroceder, voltar a costumes e práticas que não se enquadram mais na realidade em que vivemos. Para isso, brigam até com a ciência, como se vê na crise das vacinas e na exaltação da cloroquina. Na verdade, o reacionarismo é a antítese da revolução – um tipo de luta armada pela implementação do passado.

Ocorre, entretanto, que o discurso reacionário é popular e de fácil absorção. O Brasil tem milhões de “tiozões do churrascos” e de “tias do zap” que estavam carentes de um líder para suas pautas que podem ser concluídas com “naquele tempo é que era bom”. Bolsonaro chegou ao Planalto com essa agenda e assim conduz sua gestão, de forma tal que aqui e assim estamos nós. Enquanto isso, aqueles que se consideram o centro político – cuja maioria lhe tinha dado apoio, não por ser o nome ideal, mas para não correr o “risco” da volta do PT ao poder – ficaram em uma situação de “não lugar”: afinal, ajudaram a levar um nome ao poder com a pauta deles. Construíram o antipetismo e o antipetismo adotou seu moto próprio, construindo com um “mito” que se apropriou do discurso ergueu um dilema: por onde caminhará esse grupo que era direita e foi empurrado para o centro? Com que gente?

Desde as primeiras incursões de Bolsonaro em declarações e atos antidemocráticos, o discurso dos ocupantes do centro passou a se voltar contra os “extremismos”: era preciso encontrar um nome para garantir que o Brasil decolasse novamente, sem pender para qualquer dos lados considerados radicais. Ora, se um lado radical é Bolsonaro (e é), o outro, por óbvio é o PT. Então chegamos à necessária comparação abaixo.

Política de conciliação
O Brasil passou por mais de 13 anos de governos do PT: depois de uma grande desconfiança inicial, o bicho-papão convocou um banqueiro para presidir o Banco Central, abriu as portas para todas as lideranças, dialogou com as Forças Armadas e a elas deu um orçamento robusto, agradou ao mercado, entendeu as demandas do setor empresarial, conviveu civilizadamente com as críticas da imprensa, abriu diálogo com o mundo inteiro, colocou o País como player no jogo internacional, implantou um grande projeto de transferência de renda

Com Lula na Presidência, a esquerda considerada mais radical teve de se adequar à política de conciliação que o partido adotou. E não houve nenhuma convulsão social: pelo contrário, foram tempos de bonança e prosperidade no País.

Voltando à conjuntura atual, o partido Novo lançou na semana passada o nome de João Amoêdo como seu nome para 2022. Como alguém ali no meio para dizer não aos “extremismos”. É seu nome para o centro, ainda que tenhamos todos de fazer um evidente contorcionismo com uma régua para encaixar o Novo no meio dela.

Um dos que buscam o nome para o ponto central dessa régua é o ex-deputado federal e presidente do PSD em Goiás, Vilmar Rocha. Esse, sim, notadamente um político de centro, principalmente levando em conta o centro como local da moderação. Um liberal na melhor das acepções do adjetivo e militante mesmo sem ocupar cargo eletivo no momento.

A missão que Vilmar se impõe é a de encontrar um nome que seja capaz de unificar o País: que tenha experiência, moderação, ficha limpa, preocupação com as pessoas, aberto à forma de administrar, capacidade de promover uma união nacional e de recuperar a imagem internacional do Brasil. Em suma, Vilmar procura um nome perfeito, como Diógenes com a lâmpada à mão em meio aos gregos de seu tempo.

Mas ele mesmo sabe que não dá para achar tudo isso em um político só. Mais ainda: precisa ser um político que tenha votos. Por isso, o próprio Vilmar sabe que não encontrará todos esses atributos em um nome apenas. Abrindo mão de duas ou três características, quem sabe?

Há uma boa notícia para Vilmar e tantos outros políticos de bom senso: esse nome já existe. Inclusive, já foi presidente por dois mandatos e atualmente lidera com folga as pesquisas de intenção de votos na corrida presidencial.

Lula nunca foi radical, nem mesmo antes da política. Parte da esquerda, inclusive, considera que seu governo foi uma sequência dos anos neoliberais de Fernando Henrique Cardoso com uma pitada de socialdemocracia. Sua principal qualidade é saber sentar à mesa para negociar com todos.

Depois de quatro anos de Trump e uma pandemia, a maioria dos cidadãos dos Estados Unidos se mobilizaram para tirá-lo do poder. Porque não queriam continuar trilhando esse caminho do reacionarismo. Trump teve mais votos do que em sua primeira eleição mas o verbo “mobilizar” não se colocou por uma escolha aleatória de significado: as pessoas foram votar e Joe Biden, um sujeito pouco carismático, teve 16 milhões de votos a mais do que Hillary Clinton. E virou o jogo em Estados-chave que deram a vitória a Trump quatro anos antes.

Lula é o Biden brasileiro. O centro, que na verdade – talvez Ciro Gomes à parte (pelo menos o antigo Ciro) – pende totalmente à direita, está sendo espremido pelos dois lados que têm voto. Um deles é extremista, o outro, não. Se não há tempo para o centro fabricar um nome viável para a disputa eleitoral, há bastante para entender que não há moderado mais bem acabado do que Lula. E é o único democrata do duelo que haverá. Em termos políticos, o centro sabe que é hora de perder os anéis nas urnas para salvar os dedos da democracia.

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