Afonso Lopes
Afonso Lopes

Nunca antes na história deste País…

Presidência da República, presidentes do Senado e da Câmara e até o ex-presidente Lula: a democracia suporta?

O povo brasileiro pode se cansar da democracia diante de tantos escândalos de sua elite dominante? | Foto: Fernando Leite

O povo brasileiro pode se cansar da democracia diante de tantos escândalos de sua elite dominante? | Foto: Fernando Leite

O PT e seus aliados não inventaram a corrupção no Brasil. Longe disso. A roubalheira nacional vem de muito tempo. Mas nunca antes na história as investigações sobre um episódio reuniu e envolveu tantos bambambãs do mundo secreto das grandes empreiteiras e a fina elite do governo federal. Isso, sim, é um fato inédito. Já se investigou presidentes do Senado e presidentes da Câmara dos Deputados, mas jamais a ambos ao mesmo tempo e pelo mesmo motivo. Se acrescentar também a própria Presidência da República e um ex-presidente, o ineditismo se torna evidente.

Isso é bom para o Brasil? Não. É péssimo. Bom seria se não houvesse nenhum motivo para se investigar qualquer ato de desonestidade entre os integrantes da mais alta cúpula do governo brasileiro. Melhor ainda se o país todo estivesse surpreso, como se estivesse tendo de um pesadelo terrível. Mas, não. Ninguém está escandalizado ou surpreso. É como se todo mundo sempre soubesse.

Talvez por isso todas as tentativas até agora de desacreditar o juiz Sérgio Moro, da justiça federal do Paraná, o sujeito que puxou o fio que está desnudando o maior roubo da história do país, não funcionaram. Os brasileiros sabem que, se não tudo, muito do que se está falando abertamente a respeito da complexa operação Lava Jato é verdade.

É uma grande pena que a população ainda não conseguiu ligar o fato à uma consequência direta que afeta o seu bolso no dia a dia, a cada ida ao posto de combustível. O Brasil tem uma gasolina tão ordinária que ninguém lá fora a compra. E o que é pior: é cara. E isso, o preço que se paga por um produto estatizado – apenas a Petrobrás pode refinar petróleo no país — é resultado direto do dinheiro surrupiado.

Haverá consequências positivas dessa encrenca toda? Certamente. Mais cedo ou mais tarde haverá mudanças de comportamento das classes dominantes. E classes dominantes aqui não se referem apenas ao PT, seus aliados e as grandes empreiteiras. São todos os partidos e todas os grandes conglomerados empresariais. Ora, mas empresas de outros setores também fraudam o dinheiro de todos os cidadãos? Claro que sim. Embora não tenha repercutido como o petrolão, uma outra operação anticorrupção que está em andamento revela que o alto mundo empresarial brasileiro tem uma atividade secreta mafiosa. A referência aqui é do imposto sonegado e da propina paga a altos servidores do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), para aliviar mi-lhões de reais em multas, fato apurado na operação Zelotes.

Bom mesmo seria se a população brasileira percebesse que não existe Sassá Mutema — personagem interpretado por Lima Duarte na novela global “Salvador da Pátria” — seja ele um cidadão qualquer, uma empresa ou partido político. Se alguém ainda vai conseguir salvar o futuro do Brasil é a sua população. Nem juiz Moro, nem Joaquim Barbosa, nem ninguém. O que vai mudar o país é o povo.

E se a única solução é o povo brasileiro, já há quem avalie se a própria democracia não está sendo ferida de morte diante de tantos escândalos, e que envolvem todos os partidos, do PT ao PSDB, do DEM a algum nanico perdido no mar multipartidário brasileiro que consegue algum naco do poder. Nossa democracia, lembram os alarmistas, é ainda muito frágil.

Há razão para esse temor? Há, sim. Embora pareça uma ameaça surreal, ela existe. Talvez não com a mesma gravidade como muitos supõem e avaliam. Provavelmente, essa ameaça é bem mais sutil. Mas de onde partiria o ataque à democracia? Dos quartéis, como na década de 1960. Pode ser, mas não é algo tão provável assim. O mundo globalizado muito bastante nos últimos 50 anos. Ditaduras militares, de direita ou esquerda, tanto faz, não são bem-vindas. Mas de onde partiria uma ação contundente contra o ordenamento democrático, da direita civil ou da esquerda governista? Em tese, um golpe contra a democracia colocaria essas duas correntes em confronto nas ruas.

Qual a possibilidade de uma coisa dessas acontecer? Risco há, claro, mas não existem sinais de que ele seja eminente. É somente uma vaga possibilidade. Portanto, não é uma investigação policial que envolve os mais altos escalões da república que traz ameaça ao Estado democrático. O que realmente poderia ameaçar a liberdade democrática é a impunidade. Ou essa sensação de impunidade diminui até ser extinta, ou, aí, sim, talvez a população se canse da democracia.

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