Afonso Lopes
Afonso Lopes

Nenhum resultado será surpreendente

É muito difícil acontecer um momento eleitoral como está se vendo. O jogo é tão embolado e imprevisível que nenhum resultado pode ser descartado, embora algumas situações sejam menos prováveis

O deputado federal Waldir Soares (PR) lidera as pesquisas eleitorais com relativa tranquilidade em relação aos demais concorrentes. Sem Iris Rezende no processo, não há referência político-eleitoral, o que transforma o cenário completamente do ponto de vista analítico. Há fatos concretos, como essa liderança, mas não se vislumbra o que mais poderá ocorrer. O ex-prefeito Vanderlan Cardoso (PSB), de Senador Canedo, por exemplo, está na segunda posição, mas alguém garante que ele não conseguirá ultrapassar Waldir? Ou, ao contrário, há garantias de que a candidatura de Vanderlan não vai derreter pelo caminho, como ocorreu nas duas vezes que disputou o governo do Estado, em 2010 e 2014?

Esse quadro geral provoca o campo das possibilidades. Uma delas, obviamente, é a de manutenção de tudo como hoje está, e Waldir se tornar prefeito com Vanderlan somando mais uma derrota. Dentro desse ce­nário sem horizonte definido, é possível imaginar que Waldir e Vanderlan sequer vão conseguir classificação para um segundo e definitivo turno eleitoral? Possível, é lógico que é, mas aí está se encontrando uma situação menos provável. Em tese, pelo menos um dos dois vai para o segundo turno. Quem será, e contra quem, é terreno difícil de ser percorrido enquanto análise neste momento.

A terceira colocada nas pesquisas é a deputada estadual petista Adriana Accorsi. Se a apresentação dela pudesse parar aqui, certamente ficaria de bom tamanho. O problema é quando se coloca o PT. O partido sempre teve um fortíssimo desempenho em Goiânia desde meados da década de 1980. De todas as eleições de lá pra cá, candidatos petistas venceram três vezes, ficaram em segundo em praticamente todas as demais, com exceção de uma única vez que acabou na terceira posição. Desta vez, porém, Adriana vai penar um bocado por causa do desgaste que o PT sofreu em nível nacional, e também pelo péssimo desempenho do conjunto da imagem do governo de Paulo Garcia, que amarga altos índices de rejeição. Ou seja, ela provavelmente vai pagar por aquilo que pessoalmente não deve. Ela teria hoje por volta de 10% de intenções de voto. Um cenário bem provável é que permaneça mais ou menos onde está.

O PMDB tem como melhor nome o deputado estadual Bruno Peixoto, mas as chances de crescimento são pequenas, embora possíveis. O eleitor peemedebista vai para esta eleição se sentindo órfão de Iris Rezende, e isso favorece, como se viu na primeira pesquisa sem o velho líder, uma massiva migração para outras candidaturas.
Logo em seguida surge o grupo mais identificado com a base aliada estadual, Luiz Bittencourt, PTB, Giuseppe Vecci, PSDB, e Francisco Júnior, PSD. Há uma tentativa de se promover uma fusão geral para que desse trio fique somente um candidato. Teoricamente, basta conversar um pouco e acertar os ponteiros. Na prática, o caldo engrossa. Nenhum deles quer abrir mão da disputa.

Eles não se anulam, isso é verdade. Cada um deve crescer, ou não, dentro de nichos próprios e pessoais, além obviamente da estrutura partidária em que se encontram. De imediato, portanto, as maiores chances recaem sobre Bittencourt e Vecci. O deputado estadual Francisco Júnior tem ótimo discurso para ganhar quantas vezes disputar a eleição para a Assembleia Legislativa, mas talvez falte uma “pegada” mais forte para a Prefeitura.

O que falta no discurso de Francisco sobra em Bittencourt. Ele tem potencial para encarar qualquer dos candidatos colocados até agora nos debates e nos programas eleitorais do rádio e da TV. Ele sabe que entra na campanha como francoatirador, sem muito patrimônio eleitoral para perder. É exatamente o oposto de Waldir Soares e Vanderlan Cardoso, que não podem errar nenhuma vez por causa do risco de despencar de vez. Além disso, Bittencourt tem apresentado teses diferentes para a campanha deste ano, inclusive com propostas inéditas de abertura da administração para a fiscalização online dos internautas. Isso vai agradar ao ponto de ser um diferencial? Pode ser, como pode não ser. Candidaturas, todas elas, têm um time, e quando pegam, disparam. Se não, apagam.

Do ponto de vista do patrimônio eleitoral na corrida pela Prefeitura, o deputado federal Giuseppe Vecci é outro que não tem o que perder. Mas ele não vive situação idêntica a de Bittencourt por um aspecto fundamental: Vecci é deputado federal e não vai se aposentar ao final deste ano. Ao contrário, ele, que está em seu primeiro mandato, tomou gosto pela coisa. Nesse caso, Vecci tem, sim, possibilidade de perder patrimônio eleitoral para a reeleição. Um vexame este ano poderá comprometer perspectivas em 2018. Seu discurso é o mais técnico dentre todos os candidatos, mas precisa ser melhor traduzido para a massa eleitoral. É outro que vive aquela situação da navalha: se a candidatura der liga na campanha propriamente dita, pode disparar. Se não, acaba cedo.

Enfim, há uma montanha de in­cer­tezas e indefinições. Inclusive pelo fato de que historicamente o elei­torado goianiense tende a destacar três candidaturas principais — e não apenas duas, como ocorre nas e­leições estaduais. Esse quadro triplo é tão complicado que, em 2000, Pe­dro Wilson estava em quarto lu­gar nas pesquisas uma semana antes da eleição, chegou a terceiro na véspera e apareceu em absoluto primeiro no dia seguinte. Quer situação melhor para botar pilha numa campanha como essa que se avizinha? l

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