Augusto Diniz
Augusto Diniz

Não está na hora de politizar uso da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19

Anti-inflamatório utilizado no tratamento de malária, lúpus e artrite reumatoide virou bandeira de disputas políticas e virtuais, sem consultar comunidade científica

Presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que virou o garoto propaganda da hidroxicloroquina no Brasil, insiste em falar sobre o medicamento, mesmo sem comprovação no tratamento da Covid-19, como cura | Foto: Reprodução/YouTube

Presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que virou o garoto-propaganda da hidroxicloroquina no Brasil, insiste em falar sobre o medicamento, mesmo sem comprovação no tratamento da Covid-19, como cura | Foto: Reprodução/YouTube

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) aparece na TV, no rádio e nas redes sociais praticamente como um representante de laboratório farmacêutico para convencer médicos a prescreverem a hidroxicloroquina, um anti-inflamatório usado no tratamento de malária, lúpus e artrite reumatoide, como se estivesse aqui a resposta para a cura da Covid-19.

Ao invés de atuar como um chefe de Estado e liderar a prevenção e o combate ao novo coronavírus com políticas públicas em apoio a governadores e prefeitos, Bolsonaro adotou a tática do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e apostou no milagre do remédio sem comprovação científica para salvar vidas na batalha contra o vírus Sars-Cov-2.

Nem a China, primeiro epicentro da doença, entendeu ser necessário utilizar a hidroxicloroquina casada com o antibiótico azitromicina. O antiviral Remdesivir tem sido muito mais testado e pesquisado do que o tão milagroso medicamento propagado aos sete ventos pelo presidente da República, mas menos divulgado. A quantidade de artigos científicos sobre o Remdesivir supera a falta de embasamento técnico na propaganda mundial pró-hidroxicloroquina.

Aliado na propaganda

Bolsonaro ganhou um aliado, até certo ponto, ao uso da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes internados com sintomas leves da Covid-19: o cardiologista Roberto Kalil Filho. O diretor-geral do Centro de Cardiologia do Hospital Sírio-Libanês pegou a Covid-19 e foi submetido a tratamento com hidroxicloroquina, mesmo sem comprovação científica da eficácia do medicamento. Recuperou-se, mas revelou que usou outros medicamentos, como azitromicina e corticoide.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, Kalil Filho disse o seguinte na manhã de quarta-feira, 8, horas antes do novo pronunciamento de Bolsonaro na defesa da hidroxicloroquina: “Se há uma chance de que o paciente melhore, se pode salvar vidas, tem que ser ministrada”. A informação publicada pela coluna da jornalista Mônica Bergamo foi confrontada na noite daquele dia na coluna Painel, do mesmo veículo, assinada por Camilla Mattoso, Mariana Carneiro e Guilherme Seto.

Novalgina?

E quem dizia algo diferente era um dos médicos que atendeu Kalil Filho, o pneumologista Carlos Carvalho: “Se amanhã os estudos mostrarem que a cloroquina é eficaz, vou receitar aos pacientes. Por enquanto nada disso foi apresentado”. O pneumologista que não recomendou o uso do medicamento ao cardiologista disse mais. “Você pode gerar uma situação em que a pessoa contaminada com coronavírus acha que tem que conseguir cloroquina e, se não conseguir, fica desesperada, quando ainda não é certo que esse é o método mais eficaz.”

Carvalho relatou que teve Covid-19 e usou vários medicamentos no tratamento, até Novalgina (metamizol), um analgésico. “Vou dizer que a Novalgina me curou?”, declarou o pneumologista à Folha. Quando afirmou isso, o médico que tratou Kalil Filho lembrou que o cardiologista tomou outros medicamentos além da hidroxicloroquina, e que foi contra a utilização do anti-inflamatório, mesmo sem se opor a adoção pelo paciente, que é médico. “Cientificamente, estou certo de que ainda não há estudos que comprovem a eficácia da cloroquina contra o coronavírus”, explicou o pneumologista.

Estudo francês

As falas de Trump na defesa incondicional da hidroxicloroquina nasceram de abordagem dada pelo canal FoxNews a um artigo francês que foi divulgado como comprovador da eficácia do medicamento para tratar pacientes com Covid-19. Virou praticamente a cura da nova doença causada pelo novo coronavírus ao sair da boca do presidente dos Estados Unidos. “O que você tem a perder? Tome isso”, disse Trump no sábado, 4.

Só que um grupo de cientistas franceses do Hospital Saint Louis resolveu seguir igualmente os passos descritos no artigo em 11 pacientes e não chegou ao mesmo resultado. “Não encontramos evidências de uma forte atividade antiviral ou benefício clínico da combinação de hidroxicloroquina e azitromicina no tratamento dos pacientes hospitalizados com sintomas graves da Covid-19”, disseram os pesquisadores Jean Michel Molina, Constance Delaugerre, Jerome Le Goff, Breno Mela-Lima, Diane Ponscarme, Lauriane Goldwirt e Nathalie de Castro. Eles refutaram, no dia 30 de março em publicação na revista Médecine et Maladies Infectieuses (Medicina e Doenças Infecciosas), o estudo que vendia uma cura de “100% dos casos da doença” divulgado pela FoxNews nos Estados Unidos.

O estudo que embasa as declarações de Trump, ou parece dar sustentação, foi publicado no dia 20 de março no International Journal of Antimicrobial Agents (Revista Internacional de Agentes Antimicrobianos). Assinado por 18 pesquisadores, diz que, depois de seis dias de uso da hidroxicloroquina com azitromicina, 100% dos pacientes estavam curados.

Dúvidas

No dia 3 de abril, a International Society of Antimicrobial Chemo­the­rapy (Sociedade Internacional de Quimioterapia Antimicrobiana) informou que “acredita que o artigo não atende ao padrão esperado da Sociedade, principalmente relacionado à falta de melhores explicações sobre os critérios de inclusão e a triagem de pacientes para garantir a segurança do paciente”. Logo depois, o Google apagou o artigo de sua plataforma de documentos com teor científico e emitiu um alerta de conteúdo perigoso para quem insistia em clicar no link.

O jornal The New York Times publicou na segunda-feira, 6, uma matéria com a informação de que Trump tem interesse financeiro na farmacêutica Sanofi, que fabrica o medicamento Planequil, a hidroxicloroquina da indústria francesa. “Se a hidroxicloroquina se tornar um tratamento aceito, várias empresas farmacêuticas terão lucro, incluindo acionistas e executivos seniores com conexões com o presidente”, diz o texto “Trump’s Aggressive Advo­cacy of Malaria Drug for Treating Coronavirus Divides Medical Community” (A defesa agressiva de Trump da droga contra a malária no tratamento do coronavírus divide a comunidade médica).

No Brasil

Mesmo sendo contrário ao uso da hidroxicloroquina para toda a população sem restrições, por considera danosos os efeitos colaterais, que podem chegar a uma arritmia cardíaca – o que pode causar a morte do paciente –, o Ministério da Saúde autorizou no final de março a utilização do medicamento em casos graves da Covid-19. E informou aos Estados que faria a distribuição de 3,4 milhões de unidades da cloroquina.

“Por ser uma doença nova, ainda não há evidências científicas suficientes que comprovem a eficácia do medicamento para casos de coronavírus. No entanto, há estudos promissores que demonstram o benefício do uso em pacientes graves”, informou a pasta no dia 25 de março. Vale lembrar que promissor não significa comprovado. E que no ambiente hospitalar, a equipe médica tem a autorização de definir se deve optar por um tratamento experimental com o anti-inflamatório casado com outros remédios caso entenda necessário quando o quadro clínico da doença se agravar.

Das pesquisas ao achismo

Como a discussão científica e médica chegou à população, que se manifesta nas redes sociais para ser cobaia de um tratamento sem comprovação científica ou verificação testada de sua eficácia contra a Covid-19, é fácil de compreender. Basta ouvir e ler o que os presidentes dos Estados Unidos e do Brasil têm dito, de forma muito irresponsável, sobre um medicamento para outras três doenças como se fosse a solução para exterminar o novo coronavírus do mundo.

Deixemos aos médicos e cientistas a busca por soluções viáveis e tratamentos respaldados por testes e comprovações, contraprovas e validações internacionais, antes de dar uma opinião que não vale de nada em um assunto que muita gente não entende, mas quer ter o direito de achar que sabe e dar seu pitaco sobre algo que não domina.

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