Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

Muita farra, pouco trabalho: afinal, qual é a do Jair?

Desde o início do governo, Bolsonaro nunca se preocupou em ampliar sua base. Isso leva a duas hipóteses a respeito de seu destino em 2022

Três momentos da rotina de Bolsonaro nas últimas semanas: passeando de jet ski, pilotando carro de derrapagem no Beto Carrero e internado por obstrução intestinal | Foto: Reprodução

Dê uma olhada na agenda do Jair. Basta digitar agenda presidente no Google e será a primeira sugestão a aparecer. Em novembro, foi para Dubai e outras localidades autocráticas das Arábias onde ainda é bem recebido. Voltou para Brasília e, desde então, na maioria das vezes em que saiu de lá para algum compromisso oficial, basicamente frequentou cerimônias militares, especialmente formaturas – aliás, como vem fazendo ao longo de todo o mandato. De incomum no meio disso, sobrevoou de helicóptero o desastre social e ambiental causado pelas chuvas na Bahia. Mas rapidinho estava de volta ao aconchego do Alvorada.

Assinou burocracias já anteriormente acertadas – algumas realmente importantes, como o subsídio do gás de cozinha para famílias pobres –, fez as tradicionais lives de quinta-feira, deu entrevistas exclusivas para a imprensa amiga, deixou de responder informações de outros veículos e recebeu alguns políticos, ministros, pastores e assessores, sobretudo o subchefe para Assuntos Jurídicos da Secretaria-Geral da Presidência, Pedro Cesar Sousa (este, a única presença rotineira na agenda e cujo compromisso diário, embora que de somente meia hora, livrou o mandatário de não ter feito nada oficialmente durante a estadia de fim de ano no litoral catarinense).

Disse a seus fãs do cercadinho que iria “pegar uma folga” a partir de 22 de dezembro, mas resolveu aumentar a esticada, indo para o Guarujá já no dia 17. De segunda a quinta daquela semana, fez despachos por teleconferência no total de meia hora por dia (com o Pedro Cesar, acima) enquanto passeava de jet ski e parava para lanchinhos em bares e quiosques. Voltou dia 24 para uma hora de reunião com Ronaldo Caiado (DEM), governador de Goiás, passou o Natal em Brasília e rumou para outro litoral, agora catarinense, onde teve mais jet ski, mais aglomerações, mais comilança nas ruas e uma visita ao Beto Carrero World com direito a pilotar carro de derrapagem com decoração de desenho infantil.

Assim passou o réveillon e, no primeiro dia útil, em vez de Brasília, destino do Jair foi o hospital cinco estrelas em São Paulo. Estava novamente entupido. Após dois dias de atenção total à saúde presidencial nos noticiários e vinda do médico particular tirado do gozo de seu descanso nas Bahamas, ficou 100% após descobrirem a causa: um camarão que engoliu sem mastigar. Refeito do susto, deu entrevista na porta do hospital dizendo serem maldosos os que chamaram suas últimas semanas de “férias”, pegou o avião da FAB e à noite foi ver uma pelada de famosos no interior de Goiás.

Depois do relato, vem a ressaca. Para o País, o fim de ano foi de terror, com centenas de milhares de brasileiros da Bahia e de outros Estados desabrigados por causa das chuvas. Quase três dezenas morreram levados pelas águas ou debaixo de escombros. A Covid-19 em sua nova variante se juntou à dengue e ao surto de gripe para lotar os pronto-socorros de Norte a Sul. As aulas das crianças vão começar e a vacinação infantil foi atrasada até o limite pela decisão ideológica do próprio governo de confrontar o sinal verde pró-imunização de sua agência sanitária.

É por isso tudo que é cada vez mais difícil chamar o Jair com a devida etiqueta e o devido protocolo jornalísticos. Desrespeitados como povo, desrespeitamos a autoridade. Mas vamos tentar.

Para o presidente Jair Bolsonaro (PL), o resultado de tudo isso é mais melancólico que trágico: ele consolidou uma fama de político ocioso, defeito que, mesmo depois de 30 anos sem produtividade no Legislativo, até então não havia aderido a sua personalidade, a não ser por parte de alguns setores da esquerda.

A polêmica das “férias”
A hashtag mais usada nas últimas semanas pelos brasileiros no Twitter foi #BolsonaroVagabundo. O raciocínio é lógico: se não estava no local de trabalho – Palácio do Planalto, Praça dos Três Poderes, Brasília, CEP 70150-900 –, mas também não estava de férias nem de folga, como o presidente justifica os passeios de jet ski em viatura das Forças Armadas e o “dia de Disney” com a família num parque de diversões?

Afinal, qual é a do Jair?

Pensando do ponto de vista político-eleitoral, não faz nenhum sentido o comportamento. Por mais que não seja dado a visitas técnicas de inspeção e apoio – como exemplo, durante a pandemia, Bolsonaro não esteve em nenhuma unidade de referência em Covid-19 ou centro de pesquisas de saúde –, é incrível sua resistência a fazer o que outros profissionais do mesmo ofício veem tarefas básicas de uma pessoa eleita junto à população.

Comparação? Enquanto Bolsonaro curtia praia, pescaria e camarão em São Francisco do Sul (SC), Caiado, como governador de Goiás passava a virada do ano na região mais carente de seu Estado, o Nordeste goiano, visitando cidades atingidas pelas chuvas e distribuindo cestas básicas. Só retornou de lá após cinco dias.

É demagogia? Aos olhos de quem vê a política com análise mais fria ou acadêmica, sim, é um artifício utilizado por quem deseja um contato mais próximo com os eleitores de modo a extrair disso lucro eleitoral. Bolsonaro faz esse contato com seu público – aqueles que o recebem todo dia pela manhã e à noite no “cercadinho”, em suas saídas e retornos –, ama ser chamado de “mito”, mas não parece querer nada além disso.

Diante da tragédia na Bahia, um presidente da República ciente de sua responsabilidade não pensaria duas vezes em se deslocar, porque isso é uma tarefa não escrita do fluxograma de um chefe de Estado: ainda que não vá pegar numa pá em escombros nem carregar um ferido uma maca, sua presença é simbólica e demonstra a solidariedade de toda a Nação com o sofrimento de uma parcela dela. Claro que há também um cálculo eleitoral nesse raciocínio: se o presidente não for, sua imagem se desgasta. Se pensada eleitoralmente, então, a intenção é ir não para ganhar votos, mas para pelo menos não perdê-los.

A guerra contra as vacinas e, particularmente contra a vacinação infantil, está obviamente perdida. Graças ao esforço coletivo em pesquisas pelo mundo inteiro, vacinas rapidamente foram obtidas, testadas e aprovadas. Os dados escancaram sua eficácia e sua segurança, após bilhões de doses aplicadas. Por isso, o discurso “antivax” que Bolsonaro comete é uma colisão frontal contra a ciência que nenhum outro governante de um país democrático ousou empreender.

Na quinta-feira, 6, um dia depois de seu próprio governo aderir compulsoriamente (era o prazo final dado pela Suprema Corte) à vacinação para crianças, Bolsonaro duvidou das intenções da Anvisa com a aprovação da imunização e falou em “pessoas taradas por vacina”. É uma declaração eleitoralmente suicida em um país culturalmente simpático a campanhas de vacinação, como demonstram os índices alcançados na pandemia a despeito do esforço negativo do presidente, das estruturas de governo comandadas por ele e de toda a extrema-direita.

Uma coisa não dá para negar: desde o início do governo, Bolsonaro nunca se preocupou em ampliar sua base. Em outras palavras, isso significa que resolveu governar apenas para os seus e não para o todo da população. Isso leva a apenas duas hipóteses a respeito de seu destino em 2022: ou ele tem uma fé cega na própria bolha e crê que as pesquisas que mostram sua desvantagem e altíssima rejeição são mentirosas; ou já decidiu que não vai ser candidato e se sente absolutamente livre para bancar o sincericida e o fanfarrão até o fim de seus dias de mandato, talvez com uma esperança de permanecer depois disso por meio de militares, milicianos e fanáticos que aceitarão que o Brasil vire uma Venezuela.

O Jair quer se divertir no parque. Mas o Brasil não é brinquedo, não.

Uma resposta para “Muita farra, pouco trabalho: afinal, qual é a do Jair?”

  1. Avatar Caio Maior disse:

    Análise oportuna e esclarecedora. Difícil é compreender o apoio de parcela expressiva da sociedade a um cidadão que combate…. vacinas! Qual o propósito dele? E até onde irá nessa corrida contra a vida? Se os seus seguidores derem ouvidos às sandices “antivacina” provavelmente outras milhares de vidas serão perdidas. O pior: desperdiçadas, numa absurda irresponsabilidade. E aparentemente ninguém pode impedir o nosso Jim Jones. Só Deus na causa!

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