Afonso Lopes
Afonso Lopes

Metade dos eleitores do Tocantins não indica candidato a governador e assusta o país

Os eleitores que votaram escolheram um senador tradicional e um político que está no poder. Sugere um não à renovação?

Fotos: Arquivo

O brasileiro é obrigado a votar. As principais democracias do mundo não seguem a regra. Se é obrigado a exercer aquilo que seria um direito basilar do regime, perde ao menos parte do caráter democrático (mas claro que há nuances: o Brasil é uma democracia; Cuba é uma ditadura). O voto obrigatório só faz algum sentido em regimes não inteiramente democráticos. Paradoxalmente, o Brasil é uma democracia — e sólida. Em nenhuma grande democracia do planeta civilizado existe uma lei que exija o comparecimento do eleitor perante uma urna, qualquer que seja o tipo dela, digital ou no sistema antigo, com papel e caneta. Neste sentido, somos a vanguarda do atraso.

Apesar da regra absurda para o padrão democrático, os tocantinenses, na semana passada, ficaram divididos ao meio: metade apontou sua preferência por um dos candidatos a governador. Apenas a metade. Os demais se recusaram a participar do processo eleitoral. Cerca de 30% nem foram às urnas, enquanto outros 20% até se dispuseram a votar, mas preferiram teclar branco ou inventar um número qualquer para anular o voto.

Cientistas políticos de todos os matizes e escolas debruçaram-se sobre esse índice tão elevado para os padrões brasileiros — em alguns países europeus ninguém se espantaria: afinal, o que está acontecendo com o eleitor brasileiro? É pura e densa desilusão com os políticos? Com a democracia? Com o processo eleitoral? Surgiram, obviamente, teses que podem agradar qualquer tendência que se possa imaginar, até um repúdio do tocantinense com uma eleição tão maluca e extemporânea — a quatro meses da eleição regular. O dado é específico e há o fato de que a política no Estado anda conturbada nos últimos anos. Marcelo Miranda foi afastado do governo pela segunda vez — o que gerou um clima de instabilidade política no Estado.

É muito difícil saber realmente o que levou metade dos tocantinenses a não participar da eleição, ou participar proforma, recusando-se a indicar um candidato. Mas a realidade é que a alienação eleitoral (alguém dirá que se trata de consciência eleitoral) atingiu níveis nunca antes observados no Brasil ao longo de décadas. Há quem aponte para questões práticas de decepção dos brasileiros — e aí o exemplo tocantinense da semana passada acaba sendo analisado como realidade nacional — com a democracia, que está profundamente alicerçada numa cleptocracia e numa elite funcional desvairadamente faminta por parcelas cada vez maiores de impostos, que se transformam em altos salários e dezenas de penduricalhos que muitas vezes triplicam o que já é inicialmente exagerado. Pode-se dizer que privatizaram o Estado.

De qualquer forma, a verdade é que ninguém sabe com certeza o que aconteceu — ou está acontecendo. Pode ser, inclusive, a soma de todas as causas, ou mesmo a antevéspera de uma mudança de rumos nessa democracia à la samba do crioulo doido — com licença poética ao termo politicamente incorreto em razão da sutileza genial e histórica de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta. Seja lá a razão que for, se a alienação eleitoral tocantinense se espalhar e for uma tendência nacional nas eleições deste ano, vai bagunçar o coreto da praça da matriz e também de filiais.

Selva de incertezas
Muito embora o resultado da eleição tenha ficado mais ou menos como apontaram os principais institutos de pesquisa, com vantagem do líder e meio-campo truncado na disputa pela segunda vaga, a alienação eleitoral muito alta representa um componente que ainda não se viu em eleições anteriores. Até aqui, o trabalho dos candidatos — e seus quase impagáveis marqueteiros — era de convencer o eleitor a votar nele e não no adversário. Se metade desses eleitores não se sentir com disposição suficiente para escolher alguém, o resultado da eleição pode enveredar pelo caminho das surpresas numa selva de incertezas.

Mas qual o perfil de candidatura que tende a ganhar num ambiente como este, de altíssima alienação eleitoral? Não há como apontar uma só direção para esvaziar o potencial dessa dúvida. Inicial­mente, nenhum candidato é beneficiado. Por fim, e numa ponta extremada do rol de possibilidades que beira o infinito das indefinições prévias e previsíveis, qualquer um pode ser beneficiado. Até um “macaco Tião”, o histórico chipanzé — que teria ficado em terceiro lugar nas eleições para prefeito do Rio de Janeiro caso sua candidatura fosse registrável na Justiça Eleitoral, no protesto eleitoral coletivo ocorrido em 1988. Enfim, não basta para os candidatos convencerem os eleitores a votar neles. Desta vez, pode ser que tenham ainda a árdua missão de convencê-los a votar.

Há outro detalhe a ser examinado. Os eleitores escolheram, para a disputa do segundo turno, um senador e um governador que, até há pouco, era presidente da Assembleia Legislativa. Noutras palavras, os eleitores optaram por hipotecar apoio a um político tradicional, o senador Vicentinho Alves (PR, sim o PR de Valdemar Costa Neto) — ex-prefeito de Porto Nacional — e a um po­lítico que está no poder, o governador Mauro Carlesse (do nanopartido PHS). Portanto, os que votaram o­ptaram pela não-renovação. Seria um recado de que o desejo de mu­dança é menor do que imagina a vã filosofia dos cientistas políticos? l

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