Elder Dias
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MBL e Vem Pra Rua: os líderes da matilha não são nada sem os lobos que viraram gado

A “flopada” das manifestações do dia 12 provou que só a indignação genuína e originária contra Bolsonaro pode mover as massas

A direita arrependida tentou encher as ruas contra Jair Bolsonaro (sem partido, ainda), mas não deu. Para dizer um termo da moda, “flopou” a mobilização liderada pelos movimentos que se popularizaram a partir dos protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT) e cujo coro antipetista fez efeito na votação que levou a extrema-direita ao poder em 2018.

No domingo, 12, os grandes artífices da jogada que acharam ser de mestre foram o Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem Pra Rua. Queriam se tornar o canal-resposta às consideráveis massas que assistiram, in loco, aos discursos golpistas do presidente.

Da esquerda para a direita, manifestação da oposição esquerdista, de bolsonaristas e puxada pelo MBL em frente ao Masp, na Avenida Paulista | Foto: Reprodução

Lá embaixo do palanque, essa multidão vibrava com olhos brilhando. Esperava que, no Dia da Independência, o “mito” ao dizer ao microfone que não mais reconheceria qualquer ato do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, iniciasse por ali a destituição do Judiciário.

A democracia, porém, aguentou o tranco. Mas, ainda que dois dias depois essa expectativa reacionária tivesse de engolir a contragosto uma assinatura de Bolsonaro embaixo de uma Declaração à Nação escrita pelo ex, Michel Temer (MDB) – e ainda que isso significasse que todo aquele rompante autoritário do dia 7 era apenas bravata –, esse povo continuava com os olhos cintilantes por seu “mito”.

Paixão não tem lógica, não se explica. Apenas se sente e se vive. E, é preciso admitir, o caso de bolsonaristas radicalizados é algo que certamente não encontra parâmetro na racionalidade – todo mundo tem um amigo ou uma amiga que até 2018 parecia alguém com bom senso e que hoje se tornou o que pejorativamente é chamado de “bolsominion”.

Da mesma forma, deve haver, no quadro de relações da grande maioria das pessoas, alguém aquele petista convicto, alguém que gritou “Lula livre!” e agora já está em campanha para 2022 com a bandeira vermelha na mão e a camiseta com o velhinho barbudo (pode ser Marx ou o ex-presidente) no corpo. Mas o foco aqui é entender por que não deu gente – ou pelo menos o que se esperava de “gente” – nas manifestações dos nem-lula-nem-bolsonaro.

Diante do que foi exposto nos dois parágrafos anteriores, pode-se afirmar: dificilmente alguém vai encontrar um “MBLover” ou um centro-direitista fanático. É algo não muito difícil de fazer compreender: não dá para ser um apaixonado pelo centro, ainda mais quando as opções das pontas – não dá para falar de “extremos” quando só uma das opções é realmente extremista – são muito mais atrativas.

Mas nem sempre foi assim. O MBL e outros movimentos similares ganharam fama exatamente por iniciar a guerra cultural da qual o bolsonarismo depois se apropriaria. Não se pode esquecer as origens dos movimentos de rua à direita: eles surfaram na onda das manifestações de 2013 – cuja nascente foi a esquerda do PSOL/PSTU, mas que desaguaram no antipetismo –, se apoiaram no lavajatismo, fizeram caravana a pé para Brasília para tirar Dilma Rousseff, promoveram o ódio aos políticos, às instituições e ao sistema como um todo e terminaram 2018 tirando foto com o presidente eleito Jair Bolsonaro.

Ao fim, portanto, deram palanque para um candidato que fosse “contra tudo isso que está aí”. Durante todo esse processo, com o discurso de serem “liberais na economia e conservadores nos costumes”, na prática tiveram comportamento de extrema-direita: perseguiram intelectuais, atacaram professores, exigiram censura a museus e artistas e utilizaram como prática usual a propagação de fake news.

Não é nada espantoso que essa fatura agora venha a ser cobrada, menos pelos atingidos – como o PT, o PSOL e a esquerda em geral – do que pelo olhar crítico da população como um todo. É o que observou o analista de redes sociais Pedro Barciela.

Analisando a repercussão da movimentação em torno dos atos do dia 12 de setembro nas redes, ele percebeu que, dos envolvidos com o tema, 35% de usuários repudiam o MBL por “livre e espontânea memória”. “Não existe ‘O PT boicotou’ no Twitter. Existe sim uma repulsa contra MBL e VPR [Vem Pra Rua]”, escreveu.

Os influenciadores que tentavam mobilizar as pessoas para o ato foram divididos em imprensa lavajatista, MBL e ciristas. Segundo o apurado por Barciela, nenhum dos três conseguiu se fazer a conexão, de fato, fora de sua bolha. “De novo, não era o ‘PT’ ou a ‘esquerda’ que impedia. Para analisar o que aconteceu nas redes, é essencial superar o argumento de ‘boicote’. Os clusters [agrupamentos] antibolsonaristas, sempre que provocados, respondiam com repulsa ao MBL, Vem Pra Rua e outros movimentos. Poucas vezes essa repulsa esteve atrelada à PT e/ou Lula. Esteve sim ligada à pautas como perseguição contra professores, criminalização de movimentos sociais e linchamentos virtuais.”

E Pedro Barciela resume: “Em nenhum momento houve impeditivos para que os que convocaram as manifestações dialogassem. Se você toca a campainha e o morador opta por te ignorar, culpar a campainha não faz muito sentido”, sintetizou.

Lobos sem matilha
Juntando lé com cré, o MBL tentou vestir uma pele de cordeiro, mas as pessoas, no geral, se lembravam do lobo que foram. Se a centro-direita, puxada pelo PSDB, fomentou grupos como o MBL, o Vem Pra Rua, o Revoltados Online e o Nas Ruas, no anseio de destronar o PT, esses grupos ganharam milhões de seguidores com um discurso extremista. Resultado: com a ajuda da narrativa desses movimentos, o que era o eleitorado de Aécio Neves (PSDB) em 2014 rejeitou o também tucano Geraldo Alckmin em 2018 e se apaixonou por Jair Bolsonaro.

Já nos primeiros meses de governo Bolsonaro, MBL e cia. se viram distantes do foco do poder. Pautas caras aos grupos, como o avanço das privatizações e das reformas e o fortalecimento da Polícia Federal e da Lava Jato, foram rejeitadas ou arruinadas nos meses seguintes, com o enfraquecimento e a incompetência de Paulo Guedes, no Ministério da Economia, e a fritura e escanteamento de Sérgio Moro, no Ministério da Justiça.

Os lobos cabeças do movimento passaram a oposição, mas a alcateia já tinha virado gado. Kim Kataguiri, Renan Santos, Artur “Mamãe Falei” do Val e outros, ao puxarem o movimento do dia 12 e de cima dos caminhões assistirem a um fracasso retumbante, descobriram que ficaram no limbo: hoje têm a ojeriza justificável da esquerda, pelo passado que os condena, e o desprezo compreensível da extrema-direita, que os vê como traidores da causa.

Por fim, a famigerada flopada do dia 12 provou que não há ruas anti-Bolsonaro sem paixão. E a indignação nata com tudo o que ocorre hoje no Brasil – dos arroubos autoritários ao desprezo à ciência, dos desastres ambientais ao caos na economia, da falta de rumo político aos escândalos da pandemia – está com quem nunca passou perto de apoiar o presidente que está aí.

Uma resposta para “MBL e Vem Pra Rua: os líderes da matilha não são nada sem os lobos que viraram gado”

  1. Avatar Pequi disse:

    O MBL e quetais já morreram. Só falta tombarem ao solo. E parabéns ao autor do texto, por conseguir sintetizar a herda que esses movimentos fizeram com o país.

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