O futebol, tantas vezes presente na história pessoal e política de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) – corintiano fanático, para quem interessar possa e até hoje não saiba –, novamente foi a base para ele se comunicar em meio a uma aparentemente despretensiosa edição da Conversa com o Presidente, o programa semanal em que ele interage com o âncora Marcos Uchôa, profissional dos mais qualificados dos mais áureos tempos da TV Globo.

Na terça-feira, 31, ele deu, tão sem querer querendo quanto o garoto Chaves em seus melhores momentos, uma alfinetada desnecessária em Neymar. O contexto: na véspera, havia sido anunciada a premiação da Bola de Ouro, uma espécie de Oscar do futebol mundial, que surgiu na imprensa francesa, mas hoje é realizada pela Fifa. O prêmio maior, o de melhor jogador de futebol do ano, ficou pela oitava vez com Lionel Messi, que no fim de 2022 havia liderado, inclusive tecnicamente, a seleção da Argentina à conquista de sua terceira Copa do Mundo. Nada mais merecido.

A citação a Messi partiu de Uchôa e, a partir daí, o lado boleiro do presidente não poderia deixar de comentar e, em seguida, comparar. “Não é possível que o Messi não sirva de exemplo para outros jogadores brasileiros. Um cara de 36 anos de idade, foi campeão do mundo, ganhou ano passado e ganhou esse ano de novo jogando nos Estados Unidos a Bola de Ouro. O Messi deveria ser inspiração para essa molecada que aparece na televisão, que a gente acha que vai ser craque e daqui a pouco desaparece. Daqui a pouco desaparece porque talvez a vaidade, não tem estrutura psicológica para crescer. Aparece a meninada pintada de ouro e daqui a pouco desaparece. Aí aparece um menino de 17 anos e daqui a pouco ele está vendido. A gente não consegue mais criar”, disse, para arrematar com a primeira alfinetada a Neymar: “Há quantos anos o Brasil não tem um ídolo de verdade?”

Como era um programa ao vivo, situação em que sempre há muito de espontaneidade, não se poderia cravar que haveria ali alguma indireta, de fato, a Neymar, que, para muita gente, é o “ídolo de verdade” que sobrou em campo com a camisa canarinho. Goste-se ou não de sua personalidade, não dá para negar que Neymar é um craque dos gramados, a seu modo. O “Menino Ney” é temperamental, marrento, continua imaturo (daí a alcunha) e tem uma “queda” por simular faltas. É verdade. Mas joga muita bola e é, sem dúvida, o maior jogador brasileiro dos últimos 15 anos, ou seja, desde o começo do declínio de Ronaldinho Gaúcho.

E Lula continuou sua fala: “Fico pensando na seleção brasileira de 1970 e 2002. A última grande seleção que tivemos foi a de 2006, ano em que nós perdemos a Copa do Mundo por acidente. Vão fazer 22 anos que a gente não ganha nada”, disse Lula a Uchôa, também reconhecido por sua vasta experiência cobrindo esportes, inclusive a própria seleção e por muitos anos. “Do jeito que a gente está, do jeito que a gente vê esses jogadores da seleção brasileira, se não tomarmos consciência que precisamos melhorar, ser mais sérios e responsáveis, vamos passar mais tempo sem ganhar um título. (…) Quem quiser ganhar Bola de Ouro tem de ser profissional, tem de se dedicar. Não combina com farra, não combina com noitada”, acrescentou, com a frase final que virou um dos assuntos mais comentados da semana.

Aparentemente, Lula não estava se programando para dizer o que acabou dizendo, mas o improviso – até mesmo para mandar recados – sempre foi sua marca. Goste-se ou não de sua personalidade, ninguém dirá que o petista não seja um craque da política – afinal, ninguém é eleito três vezes presidente da República de um país tão complexo como o Brasil. É uma personalidade pública sobre a qual seria tranquilamente factível elaborar uma trilogia: Lula 1, a Ascensão: do Sindicalismo à Presidência; Lula 2, a Queda – da Presidência à Prisão; e Lula 3, o Retorno – da Prisão à Presidência.

Então, toma-se que, apenas com a fala durante o programa não havia certeza se a fala presidencial era direcionada a um alvo específico – no caso, o camisa 10 da seleção.

A dúvida foi dirimida quando o resumo da mensagem foi reproduzida no perfil oficial de Lula no X/Twitter.

“O Messi deveria servir de exemplo aos jogadores brasileiros. O cara com 36 anos, campeão do mundo, com Bola de Ouro e tudo. O Messi precisa ser inspiração de dedicação para essa molecada. Quem quiser ganhar Bola de Ouro tem que se dedicar, tem que ser profissional. Não combina com farra, não combina com noitada”. A polêmica estava não só registrada como também instalada.

Mas por que o presidente se daria o trabalho de criticar deliberada e oficialmente um jogador? Ora, Neymar fez campanha aberta pela reeleição de Jair Bolsonaro nas eleições de 2022. Gravou vídeo para agradecer ao agora ex-presidente por ter visitado o Instituto Neymar Jr. em Praia Grande, no litoral paulista. Depois, por outras vezes, o craque reforçou seu apoio e o pedido de voto ao “mito” em suas redes sociais. Foi, dessa forma, “adotado” como um aliado pelos bolsonaristas.

Como o nível de picuinhas e de fake news que correm nas veias nas interações pelas diversas plataformas nunca deve ser subestimado, o episódio do podcast ganhou repercussão e até mesmo uma suposta resposta de Neymar. A frase “se noitada não faz jogador, cachaça não faz presidente” – que, levada a uma análise mais profunda, nem sentido lógico-causal possui – circulou como se tivesse sido publicada nos diversos perfis do jogador. Não era verdade, como se esperava que não fosse, mas serviu para atiçar a plateia da extrema direita que não perde chance de atribuir ao petista o vício do alcoolismo – que, diga-se, nunca foi comprovado.

Mas, se Neymar tivesse de fato respondido, seria apenas o segundo a errar. E errar menos do que o primeiro, o próprio Lula. Com mais de um ano de sua apertada eleição e dez meses depois de assumir seu terceiro mandato, já passou da hora de o presidente dar o primeiro passo rumo à distensão do “Fla-Flu” político, para seguir nas metáforas futebolísticas.

Lula, como um dos grandes estandartes da redemocratização, tem um peso simbólico gigante nestes tempos difíceis

Obviamente, ninguém vê como viável o fim repentino da polarização que tomou conta do País pelo menos desde a reeleição de Dilma Rousseff (PT) e que só foi se agravando com os fatos seguintes: os inquéritos e as prisões da Lava Jato; o impeachment da presidente; as gravações contra Michel Temer; a prisão de Lula; a eleição de Bolsonaro; a soltura e elegibilidade do petista determinadas pela Justiça; a vitória de Lula sobre o então presidente; e a tentativa malfadada de golpe de Estado desde os acampamentos nos quartéis até a quebradeira do 8 de Janeiro.

O ar político no Brasil continua irrespirável. E a oposição, que agora tem como protagonista sua ala mais reacionária, não faz nenhuma questão de deixar de tirar o fôlego. Na verdade, nem dá para criticá-la tanto: oposicionistas existem mesmo para o governo não ter sossego, para fazer manifestações, travar votações com as quais não concorde, pedir impeachment etc. Foi isso que o PT fez todo o tempo em que esteve fora do Planalto – e, ressalte-se, muitas vezes com competência.

O que não parece legal que ocorra é que o presidente opte por jogar gasolina nesse fogo. Os ânimos acirrados ajudam a manter as bases militantes acesas, mas fica parecendo com aquele jogador que, na véspera do clássico mais importante, lança uma declaração desrespeitosa contra o arquirrival.  No caso, não é só uma provocação desnecessária; é também uma atitude que desgasta ainda mais o tecido democrático.

Lula, como um dos grandes estandartes da redemocratização, tem um peso simbólico gigante nestes tempos difíceis. Longe de exigir perfeição, era esperada outra conduta com o poder sob sua batuta. O exemplo de sua crítica indireta a Neymar, dentro do contexto e de sua estatura política, é só um entre outras ocorrências contraproducentes que acometem as salas do Planalto e da Esplanada dos Ministérios.

Mudando a chave de futebol para cinema, a reeleição de Lula está na terça parte de sua trilogia. E é o próprio presidente quem está direcionando o enredo neste momento. Se for um bom diretor, o Brasil todo tende a ver um bom espetáculo, ainda que nem todos creiam em final feliz. Mas, se optar por colocar “cacos” no roteiro, pode queimar o filme.