Afonso Lopes
Afonso Lopes

Jogo “japonês”?

Quadro sucessório goianiense ainda não ganhou contornos definitivos. Por enquanto, o que há é uma forte possibilidade de vários partidos lançarem candidaturas próprias

Iris Rezende: referencial na disputa, mas vai ter problema por ter sido cabo eleitoral de Paulo Garcia | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Iris Rezende: referencial na disputa, mas vai ter problema por ter sido cabo eleitoral de Paulo Garcia | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Dentre as inúmeras possibilidades que existem para a sucessão de 2016 em Goiânia, apenas uma é certeza absoluta: o prefeito Paulo Garcia (PT) não será candidato à reeleição. Ele foi reeleito em 2012, e a legislação impede uma terceira candidatura consecutiva. Fora isso, tudo é possível. Mais do que isso, tudo está sendo discutido. Neste momento, PSDB, PSD e PTB, pela base aliada estadual, PT e PMDB, além do PSB, jogam seus nomes nos tubos de ensaio das articulações e especulações políticas para ver no que vai dar. Até o PP, de Sandes Júnior, se diz na onda pa­ra novamente surfar na campanha.

Vanderlan Cardoso: tem  apelo inicial que sempre cai | Foto: Fernando Leite

Vanderlan Cardoso: tem
apelo inicial que sempre cai | Foto: Fernando Leite

E o jogo poderá ser esse mes­mo, com uma multidão de candidatos oriundos de partidos fortes disputando a eleição. É um time “japonês” de qualidade inquestionável, mas sem pré-efeitos mirabolantes em termos de perspectiva de vitória. Com exceção de Iris Rezende (PMDB), não há um só nome que se apresente como referência na sucessão de 2016 na capital. Nem mesmo Vanderlan Cardoso (PSB).

Nem Vanderlan? Nem ele. É um nome que tem muito bom apelo inicial, mas não existe uma fidelização do eleitorado em torno de sua candidatura. Ou seja, potencial ele tem mesmo, mas daí a afirmar que ele vai compatibilizar isso com votação que se destaque é outra história. Vanderlan cai sempre na interminável questão da chapa que costuma liderar.

Em 2010, mesmo com o apoio oficial do Palácio das Esmeraldas, na época habitado pelo governador Alcides Rodrigues, Vanderlan não foi alicerçado por boas chapas proporcionais. Em 2014, o que já não era bom lascou de vez. Se repetir esse tipo de dose no ano que vem, é certo que não terá vida mansa, e poderá se decepcionar mais uma vez.

No PMDB, Iris Rezende é a eterna esperança. Não há qualquer outro nome à disposição dos peemedebistas para embalar o sonho de um retorno triunfal ao Palácio do Cerrado Venerando de Freitas Borges. É Iris ou Iris. E se for mesmo candidato a prefeito mais uma vez, o líder peemedebista, e única referência inicial do processo sucessório, poderá enfrentar problemas bastante sérios. O maior deles é o governo de Paulo Garcia. Em 2012, quando da reeleição de Paulo, Iris foi o grande cabo eleitoral, e empenhou seu prestígio na campanha do petista. Em que pese todos os méritos da ótima campanha que capitaneou, o aval de Iris foi fundamental.

Edward Madureira: prestígio, mas de pouca popularidade | Foto: Fernando Leite

Edward Madureira: prestígio, mas de pouca popularidade | Foto: Fernando Leite

E é aí que se concentra o problema que Iris terá em 2016. Seu aval em 2012 vai ser cobrado no ano que vem por eleitores que se decepcionaram com o governo de Paulo. A grande esperança de Iris e do PMDB era que o governo municipal recuperasse prestígio e virasse a página da impopularidade. Isso deveria estar ocorrendo, mas não está. As encrencas administrativas cotidianas, embora bastante amenizadas, continuam atazanando a vida e o humor dos goianienses. E num ano em que se prevê um fortíssimo enxugamento da liquidez monetária, é certo que não há tanto espaço assim para uma total recuperação.

Se for candidato, Iris terá que se confrontar com adversários que vão explorar esse seu ponto fraco. Aí, vai depender apenas da calibragem da mira. Se as campanhas oposicionistas acertarem o alvo, babau. Se não, e isso é uma possibilidade sempre real, as chances do peemedebistas disparam. Seu nome, apesar de tantos anos exposto, ainda consegue eletrizar boa parte do eleitorado, especialmente em Goiânia.

Mas e a famosa aliança PMDB e PT, como é que vai ficar? Sabe-se lá. Os petistas têm vendido um peixe que aparentemente não conseguem entregar, a de lançar candidatura própria. Já tem até nomes colocados no mercado político-eleitoral, como o do ex-reitor da UFG e ex-candidato a deputado federal Edward Madureira. O professor tem prestígio, sem a menor dúvida, mas daí a acreditar que ele é uma sumidade em popularidade é outra história. Outro nome colocado pelo PT é o da deputada estadual Adriana Accorsi. Ela tem força, sem dúvida, mas o fato de ter acabado de ganhar o primeiro mandato de sua vida em 2014, lança uma nuvem de incertezas sobre possível candidatura já no ano que vem.

Deputada Adriana Accorsi: estreante cercada por incerteza

Deputada Adriana Accorsi: estreante cercada por incerteza

Mas é na base aliada estadual que existe uma porção de possíveis candidatos. A questão é definir primeiro qual será o formato que a base pretende implantar desta vez para a batalha eleitoral de Goiânia. Inicialmente, há três caminhos: união total de forças em torno de um só nome, frente dupla ou multiplicidade de opções, com a maioria dos grandes partidos integrantes da base bancando candidaturas. Qual é a melhor estratégia? Está aí uma das chaves para a construção do sonho de vencer em Goiânia, onde a base apanha desde a eleição de 1996, quando venceu com o professor Nion Albernaz.

Caso opte por união total, como ocorreu em 1996, a briga de foice interna será muitíssimo intensa. A base aliada, além de tudo, tem pavão de sobra. Se, ainda assim, ocorrer um afunilamento total e pacificado, um candidato desse grupo desembarcará diretamente no centro da disputa. A base unificada terá a melhor e mais densa chapa proporcional e, muito provavelmente, o maior tempo de TV e rádio.

A opção por duas frentes de trabalho na eleição também não será tão pacífica assim. Um desses nomes fatalmente será o de Vanderlan. O outro, dos demais partidos, terá que se virar num corredor polonês que geralmente costuma ter tapas, pescoções e pancadas abaixo da linha de cintura. O sobrevivente geralmente chega à campanha debilitado.

A multiplicidade de candidatos pela base aliada facilita a vida pré-eleitoral porque as disputas individualizadas dentro de cada partido é muito menos intensa. O PSDB e o PSD são os partidos com maior número de possíveis candidatos, mas escolher um deles não é um bicho de sete cabeças. Afinal, o escolhido fica com a cabeça da chapa e o derrotado pode herdar a candidatura a vice. O problema nesse caso costuma ocorrer durante a campanha. Os pequenos grupos de candidatos começam a disputa quase colaborando com o colega ao lado, mas essa relação de boa vizinhança e camaradagem não dura muito tempo. Geralmente, começa a degringolar já nas primeiras pesquisas eleitorais. Quem aparece atrás tenta incrementar a própria campanha, e quem lidera no grupamento entende que os vizinhos devem abrir mão da pretensão e colaborar para que ele cresça ainda mais. É o início de uma guerrinha particular no grupo que geralmente resulta no afundamento de toda a frota.

Enfim, o quadro hoje favorece a multiplicidade de candidaturas exatamente pelo caráter “japonês” do jogo até aqui. Até o final deste ano, as coisas não devem sofrer grandes alterações. A partir daí é que o quadro perderá muito dessa nebulosidade e ficará bem mais claro. Será o início real do mercado eleitoral, e quem tem peixe pra vender terá que garantir a entrega.

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