Afonso Lopes
Afonso Lopes

Iris não quer (ou não pode)

Com dificuldades para manter a governabilidade na Câmara Municipal, prefeito descarta reorganização para diminuir gigantismo da Prefeitura de Goiânia. Até quando?

Iris Rezende, equivocadamente, diz que é preciso esperar para ver se reforma feita por Paulo Garcia vai servir | Foto: Paulo José

Em entrevista ao jornalista Elton Lenine, no jornal “Diário da Manhã”, no meio da semana, o prefeito Iris Rezende descartou completamente a possibilidade de promover uma reforma administrativa que enquadre as despesas dentro da realidade da arrecadação da Prefeitura de Goiânia. É uma opção, sem dúvida, mas pode não ser esse o melhor e mais adequado caminho para resolver pesadas questões de fundo financeiro.

O prefeito nega que esteja sendo conduzido nessa questão pela falta de governabilidade natural na Câmara dos Vereadores. Isso, provavelmente, não é inteiramente verdadeiro. Iris, com toda a experiência que tem, sabe perfeitamente a importância que o legislativo tem para o bem e também para o mal. E neste momento, tudo o que ele deseja é que a Câmara seja o menor dos males do início desta administração.

O único problema, e isso chama a atenção na entrevista que ele concedeu a Helton Lenine, foi a absurda justificativa apresentada para se negar a discutir uma reorma administrativa que vise debelar as labaredas que torram os cofres da Secretária de Finanças. Ele explicou que foi feita uma grande reforma em 2015, portanto no governo de Paulo Garcia, e que é necessário esperar para saber o que funcionou e o que não deu certo naquela medida. Ora, basta observar o resultado dessa equação para saltar os olhos o insucesso total dessa reforma. E para se fazer isso basta recorrer às declarações do próprio prefeito, quando ele diz que recebeu como herança maldita um rombo de 600 milhões de reais na dívida flutuante já vencida, além de um déficit mensal na casa dos 30 milhões. Além dessa falta de dinheiro, Iris também detalhou que recebeu uma cidade muito maltratada, com lixo espalhado por todos os lugares, buracos nas vias e sistema de saúde mergulhado no caos. Se esse conjunto tão negativo não é a comprovação de fato de que a reforma anterior não foi suficiente, então não resta muita coisa além disso.

Na Prefeitura de Goiânia, todas as dificuldades de caixa são sempre justificadas pelo custo da Comurg, a companhia municipal encarregada da limpeza pública. Há razões para se jogar toda a “culpa” na empresa? Toda a culpa, não, mas uma boa parte dela, sim. O gigantismo da Comurg chegou ao requinte de o sindicato dos trabalhadores do setor de limpeza, que congrega funcionários da estatal e da iniciativa privada, ter negociado durante anos duas convenções de trabalho, uma aplicada exclusivamente na empresa e a outra para a iniciativa privada. O problema Comurg, portanto, é real, mas está longe de ser o único patinho feito do lago de dificuldades de caixa da Prefeitura.

Paralelamente a tudo isso, o fator político tem se mostrado um fardo pesadíssimo. E aqui não é apenas na Câmara Municipal. Essa dificuldade extrapolou a relação legislativo e pulou para a esfera partidária. O jornal “O Popular” fez levantamento e concluiu que pelo menos 46 ex-candidatos a vereador de vários partidos, derrotados nas urnas nas eleições do ano passado, foram incorporados às folhas de pagamento da Prefeitura. Parece pouco no universo dos servidores públicos municipais, mas representa mais do que toda a composição da Câmara de Goiânia, com seus 35 vereadores.

Também a relação com a Câmara tem demonstrado efeito negativo sobre o equilíbrio financeiro da Prefeitura. Basta observar que Goiânia, com 2 milhões de habitantes, tem um primeiro escalão com um único cargo a menos que São Paulo, a maior cidade do país. Ou seja, há inegável influência política para não se modificar esse organograma administrativo. E a principal fonte de pressão é, sim, e desde sempre, a Câmara Municipal. Por mero comodismo, ao longo dos anos os prefeitos de Goiânia não enfrentaram politicamente o Legislativo para pacificar essa relação. O resultado é que entra ano, sai ano, entram vereadores, saem vereadores e o conjunto na Câmara não se altera enquanto substância de pressão política que resvala dos melhores interesses da boa administração. Iris se apresentou ao eleitor no ano passado como sendo a pessoa certa no momento exato para mudar tudo o que está errado em Goiânia. Sob esse aspecto, a dívida está aí sem nenhuma demonstração de que será quitada.

O prefeito é o mais longevo político goiano em atividade, mas parece que ele não acumulou somente experiência depois de seis décadas de vida pública. O cansaço bateu. Esta, pelo menos, é uma sensação que está gerada pelo evidente fracasso administrativo até aqui. Há muito tempo para a recuperação total, mas essa reação precisa necessariamente que ser mais rápida. Iris precisa voltar a ser Iris. Só isso seria suficiente. Por enquanto, nem parece ser ele o comandante da Prefeitura.

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