Afonso Lopes
Afonso Lopes

Iris inicia na frente numa corrida indefinida

Ausente das discussões no último mês da pré-campanha, peemedebista ressurge e assume a liderança. Waldir Soares é quem mais perdeu, mas continua vivo

Iris Rezende é o líder; Waldir Soares, o vice-líder; Vanderlan Cardoso está em 3º

Iris Rezende é o líder; Waldir Soares, o vice-líder; Vanderlan Cardoso está em 3º

Se as eleições de outubro fossem agora, provavelmente — ou muito provavelmente, pra ser mais preciso — Iris Rezende estaria classificado para o segundo turno. Contra quem ele iria para o confronto final? Aí é mais complicado precisar. Waldir Soares aparece em segundo lugar, mas Vanderlan Cardoso já aparece agigantado em seu retrovisor.

Esse quadro, porém, não está definitivamente pronto e acabado. A campanha está apenas no início e, embora seja curtíssima, muita coisa pode mudar em 45 dias. Os três nomes que estão na ponta, por exemplo, são exatamente aqueles que carregam um maior recall. Além desse fato, há o grande enigma representado pela “tríplice” polarização. As mudanças nas posições nessa situação são absolutamente imprevisíveis.

Para ficar em um exemplo, pegue-se o resultado da eleição gaúcha de 2006. O então governador Germano Rigotto, do PMDB, capitaneava um governo com muito boa imagem. Ao ponto de colocá-lo em evidência até como potencial candidato do seu partido à Presidência da República. Como não deu certo a sua estratégia nacional, ele partiu para o parecia ser uma reeleição garantida. Os gaúchos tem a tendência de dividirem a maioria dos votos entre três concorrentes, a tal “tríplice” polarização. Rigotto liderou todas as pesquisas com alguma vantagem, inclusive nos levantamentos realizados um dia antes da eleição. Apurados os votos, Yêda Crusius, do PSDB, que aparecia em segundo ou terceiro durante a campanha, chegou na frente. Rigotto? Nem foi para o segundo turno. Ficou em terceiro lugar.

Essa não é uma característica do Rio Grande do Sul, mas uma constatação quase óbvia quando três candidatos fortes concentram a disputa em torno deles. Em Goiânia, a eleição de 2000 teve esse caráter. Pedro Wilson, que as pesquisas sempre apresentaram na terceira posição, terminou o primeiro turno como vencedor. Lúcia Vânia, que era a segunda colocada, não foi para o segundo turno.
Há possibilidade de isso novamente acontecer este ano em Goiânia? Possibilidade há, mas ainda é cedo para afirmar que será assim. Iris passou um mês com aquele papo de que tinha se aposentado politicamente. Deve ter sido algo bem planejado. Fora dos debates no último mês de pré-campanha, ele se livrou completamente a linha de tiro dos adversários. Quem pagou o pato foi o deputado Waldir Soares, que se viu na liderança isolada de um momento para o outro.

Waldir, aliás, virou o “cara” a ser batido mesmo após o retorno de certa forma triunfal de Iris Rezende. Isso tem se dado nos discursos de seus adversários e também nas ações políticas. No meio do fogaréu que se acendeu aos seus pés, o republicano perdeu até o seu candidato a vice-prefeito, o conceituado médico Zacharias Calil, do PMB. O partido, fechado com Waldir desde o início, resolveu se bandear para a campanha de Vanderlan Cardoso. Dentro do próprio PR Waldir enfrenta dissidências. O deputado estadual Cláudio Meirelles teria anunciado apoio a Iris Rezende.
E daí, esse jogo é importante? É, sim, mas não significa que Wal­dir Soares, o fenômeno eleitoral de 2014 para deputado federal, está fo­ra do jogo. Sua campanha, claro, vai ter que passar por ajustes. Wal­dir não conseguiu montar uma co­ligação partidária forte, e com isso até seu tempo de rádio e TV ficou “nanico”. Seu desempenho em 2014 o credencia, e impõe respeito, mas não há qualquer garantia de que ao caminhar praticamente sozinho vai repetir a façanha.

Na outra perna do tripé está a base aliada estadual. Ninguém tem qualquer dúvida de que se trata da melhor e mais azeitada máquina eleitoral não apenas no Estado, mas também em Goiânia. Ao conquistar o apoio do PSDB para sua coligação, Vanderlan Cardoso atraiu a maior parte desse exército. O problema é que ele não tem sido o comandante desse grupamento. De certa forma, ele continua praticando uma política exclusivista, fator que comprometeu seu desempenho em duas eleições estaduais, em 2010 e em 2014. Ele não consegue, ou ainda não conseguiu, somar.

Quem pode se beneficiar dessa dificuldade de relacionamento interno de Vanderlan com a militância da base aliada estadual é o deputado estadual Francisco Júnior, do PSD. Ele é o tipo do sujeito que não cria problemas e nem arestas internas. Está inteiramente à vontade nesse processo como um dos candidatos ligados à base aliada estadual, e isso tem contado pontos com a militância. Não será nenhuma surpresa se ele começar a herdar apoios diante do comportamento de Vanderlan. O que parece é que a base recebeu Vanderlan, mas Vanderlan não recebeu a base. É uma situação fatal nesses casos. É mais ou menos o que acontece algumas vezes nos casamentos. Um lado se esforça, faz de tudo, mas percebe frieza do companheiro/a. A consequência é que a “cerca” fica cada vez mais baixa.

A quarta colocada nas pesquisas é a deputada estadual Adriana Accorsi. Após o retorno de Iris, sua pontuação caiu para 7,4%. É muito pouco, mesmo levando-se em conta o excelente desempenho que historicamente os petistas conseguem em Goiânia desde meados de 1985. O grande problema da Adriana nesta eleição não é ela. Sua dificuldade é conseguir se descontaminar da imagem negativa gerada pelo PT nacional, e pelos desempenhos complicados dos governos de Dilma Roussef e de Paulo Garcia. São três fatores que contam negativamente. Dois deles, de efeito menor, mas ainda assim relevante, não tem como ser minimizados: o partido e o governo federal. Resta a questão doméstica. Paulo herdou um caixa problemático e jamais conseguiu controlar completamente a situação financeira da Prefeitura. Para se livrar do problema, Adriana teria que jogar essa questão no colo do antecessor de Paulo, ninguém menos que Iris Rezende. Mas aqui também existe um pequeno detalhe complicador: Adriana Accorsi não tem perfil agressivo. Ao contrário, ela é afável. Como ela vai conseguir atacar Iris sem perder a candura? Trabalho extra para o marqueteiro dela, o conceituadíssimo Renato Monteiro. É ver no que vai dar.

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