Afonso Lopes
Afonso Lopes

Iris é favorito, mas corre risco

Principal líder do PMDB goiano quer disputar a Prefeitura da capital em 2016, mas analisa possibilidade de perder

Iris Rezende: incertezas a respeito de suas forças para enfrentar urnas mais arredias que antes

Iris Rezende: incertezas a
respeito de suas forças para enfrentar urnas mais arredias que antes

Desde 1982, quando ressurgiu das cinzas da suspensão de seus direitos políticos pelo regime de 1964, Iris Rezende construiu uma das mais ricas e vitoriosas histórias políticas de Goiás. Durante 16 anos, enquanto colhia vitórias nas urnas, derrotava um a um todos os adversários internos, moldando assim o PMDB de Goiás à sua imagem. Quando nada parecia suficientemente forte para derrotá-lo, eis que aparece 1998, e o campeão absoluto dos votos goianos conheceu a sua primeira derrota nas urnas. Foi uma guinada radical numa trajetória até então irretocável.

Iris caiu por uma série de fatores. Por avaliações erradas inclusive. Uma delas, e às vezes apontada como principal naquele momento, o envolvimento de familiares nas eleições. Em 1998, um irmão de Iris era primeiro suplente dele no Senado, e sua esposa se candidatou como primeira suplente na chapa liderada pelo então governador Maguito Vilela. É óbvio que a democracia dos votos não é privilégio de apenas um membro em cada família. A questão, no caso de 1998, é outra. Ali, ao juntar todos esses interesses em torno de três membros da família numa única eleição, ficou muito difícil escapar da familiocracia, bem explorada pelos adversários na campanha.

Se esse foi um dos erros de Iris na eleição de 1998, talvez tenha sido apenas o mais barulhento, mas não o que gerou consequências mais negativas. Houve um estratégico equívoco de avaliação provocado, provavelmente, pelo imenso favoritismo que ele tinha naquela disputa. A oposição, na época com apenas quatro partidos, fazia o possível para se manter viva, mas respirava por aparelhos. A situação era tão desesperadora que o PSDB, partido do então presidente Fernando Henrique Cardoso, de quem Iris era ministro da Justiça, foi obrigado a abrir negociações com o PMDB irista visando uma composição. E nesse ponto é que os estrategistas de Iris se perderam. A proposta do PSDB foi aceita pelo PMDB, mas não soou como aliança, mas, sim, como rendição. O PSDB teria direito de indicar tão somente o segundo suplente ao Senado.

Esse aspecto mexeu com os brios dos opositores, que passaram a trabalhar intensamente para superar suas diferenças internas, o que resultou posteriormente na candidatura do jovem deputado federal Marconi Perillo. O restante da história é conhecido. Marconi começou com percepção insignificante diante do eleitorado e foi crescendo devagar e constantemente até fechar o primeiro turno com uma surpreendente vitória. O mito eleitoral Iris Rezende estava no chão. O segundo round não mudou o destino daquela eleição.

Neste momento, em Goiânia, Iris Rezende vive uma situação bastante parecida com a de 1998 quanto ao aspecto do favoritismo. Não em termos absolutos. Em 98, ele aparecia inicialmente com cerca de 70% das intenções de votos em todas as pesquisas. Hoje, fica abaixo dos 40 pontos e um pouco acima dos 30. É a metade. Ainda assim, é o nome mais lembrado pelos eleitores goianienses e, praticamente, o único. E é aí que está o perigo.

Algumas pesquisas mostram que a situação de Iris é tranquila numericamente, mas muito preocupante no campo qualitativo de uma campanha eleitoral. Por ser o único candidato conhecido por praticamente todo o universo dos eleitores, o natural seria ele aparecer nas pesquisas quantitativas com porcentuais muito mais expressivos. As pesquisas qualitativas mostram que é melhor aguardar um cenário de maior abrangência comparativa. Ou seja, há o desejo íntimo do eleitorado em conhecer outros candidatos e propostas para somente depois disso consolidar ou não a opção por Iris Rezende.

É dentro desse quadro analítico que se encontra o dilema do favoritismo inicial de Iris Rezende. Ele quer se candidatar a prefeito mais uma vez, e provavelmente vai mesmo se lançar na disputa, mas percebe instintivamente que poderá sofrer talvez a sua pior derrota. O eleitorado de 2016 não é o mesmo de 1982. Ele cresceu em informação, participação e, principalmente, no rol de exigência, o que inclui um discurso muito mais antenado com o mundo frenético atual, conectado 24 horas por dia. Iris não tem mais o mesmo pique nem conseguiu se reciclar o suficiente para debater esse mundo novo e cheio de novidades a cada instante.

Isso significa que ele terá que se utilizar da sua principal arma eleitoral, que é a incrível capacidade de sedução do eleitorado, contra armamentos muito mais ágeis e de forte apelo atual, que é o debate intenso de causa e conteúdo. Há 12 anos, quando se viu acuado pelos principais adversários durante um debate na televisão, Iris sacou do improviso e prometeu resolver todos os problemas do complicado sistema do transporte coletivo em apenas seis meses. Em 2004, isso funcionou. Hoje, a força de um argumento como esse, superficial enquanto solução e arrasador emocionalmente, provavelmente não obteria idêntico resultado. Ao contrário.

No fundo, talvez Iris carregue dentro dele, em suas horas mais íntimas e solitárias, algumas incertezas a respeito de suas forças para enfrentar urnas mais arredias do que eram antes, e uma campanha muito mais ardilosa e cheia de perigos do ponto de vista do discurso e sua tematização. Externamente, Iris Rezende gostaria de encerrar sua longa e exitosa carreira política com mais uma vitória, mas sabe que para chegar à ela vai enfrentar a mais difícil de todas as muitas batalhas, e poderá ser derrotado.

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