Afonso Lopes
Afonso Lopes

Intolerância na política atrofia o debate de ideias

Não há, pelo menos na parte mais conhecida dos países desenvolvidos, discussões mais barulhentas e chatas como as que ocorrem no Brasil

Se um gosta da azul e o outro gosta da amarela, é natural que se estabeleça uma disputa de preferência entre duas pessoas, certo? Sim, certo e democrático. Cada um tem todo o direito de defender seu bom gosto, destacar as próprias qualidades, e até se estender sobre as existencialidades que envolvem as vibrações das cores. Ou sabe-se lá mais o que há para acrescentar nesse embate.

O oposto dessa saudável disputa é a ditadura. Ou seja, um dos lado simplesmente esmaga a possibilidade de o outro falar sobre suas preferências. Nem azul, nem amarela, mas a cor do chicote é que impera.

A analogia aqui só entra pra tentar criar um destaque acachapante em favor do modo democrático de se viver em sociedade em comparação com a brutalidade das imposições. O problema é que nem sempre encontrar o ponto que separa a democracia em estado puro e bruto com os traiçoeiros e danosos periféricos de abrangência da ditadura. Geralmente, é possível notar uma certa tendência de queda pelo totalitarismo da ideia quando se deixa de lado a saudável defesa das qualidades daquilo que se prefere para destacar somente o que se considera abominável na preferência de outrem. Quebra-se assim o elã da democracia, espatifando-se em consequência a norma mais basilar da convivência e da disputa.

Em tese, embora tudo pareça muito democrático quando duas ou mais pessoas divididas em grupos travam discussões sobre a política partidária, o que se exerce mesmo são os espectros periféricos da ditadura. Nada há de democrático em rotular o outro lado como se um rótulo fosse suficiente para extrair toda a essência e diversidade do pensamento antagônico. Quando isso ocorre é um desvio de conduta democrática que conduz necessariamente a um embate que foge da teorização do tema e centraliza o individualismo daquele que tematiza.

O Brasil já há várias décadas vive exatamente assim quando as pessoas se propõe a debater qualquer assunto, de qualquer área. No futebol tem isso demais da conta, e como derivativo nefasto dessa espiritualização totalitária, mergulhamos na violência absolutamente incompreensível e desnecessária das guerras entre torcedores de times adversários. É frase comum entre as pessoas idem que para se evitar uma discussão sem fim, e sem possibilidade de descambar para o pugilato das sarjetas, não se pode discutir futebol, política e religião. É como se os temas é que fossem a causa.

E aí chegamos ao país atual que mergulha prazeirosamente nas redes sociais. E haja emoção atrás dos teclados. Deseja-se a morte de quem pensa de forma diferente como se fosse algo como a queda em um precipício de desenho animado do Pernalonga ou do Bip-Bip. Não é uma questão de amar determinada cor, mas de odiar a cor adversária. E quanto mimimi alimenta egos e se alimenta deles, aprofundando e dividindo cada vez mais as muitas e diferentes maneiras de se pensar e ver a vida.

A rotulagem nas discussões políticas, no Brasil especialmente, há muito perderam qualquer forma de conteúdo ideológico sério. Há muito não representam nada além de uma intenção de agredir. De um lado, os que se autodeclaram de orientação esquerdista entendem que os que defendem o pensamento à direita são… odiosos. Já os autodeclarados direitistas veem, e acusam, os que optam pela orientação à esquerda como seres… odiosos. E ambos os lados, ao impor limites demarcados pelo ódio ao “inimigo”, criam fronteiras entre os pensamentos que idealmente poderiam servir de alicerce um para o outro rumo a plenitude da política como um todo. Então, em vez de a direita aprender alguma coisa com a esquerda e a esquerda absorver algo bom à direita, ambos se condenam ao isolacionismo predatório da evolução das relações humanas.

O Brasil é o país mais insuportavelmente “mimizento” nas discussões políticas. É claro que existem nações muito piores, mas não sem que os opostos peguem em armas para matar diariamente os oponentes — o que retorna ao campo da questão totalitária. Quem tem alguma pachorra para pesquisar sobre debates no parlamento inglês e de outras nações europeias por vezes se escandaliza com o nível de civilidade com que as diferenças e os diferentes se tratam. Não se percebe jamais nenhuma margem de ódio ao antagonismo da ideia contrária. Ao contrário, o que aflora é a força dos argumentos que lastreiam a própria ideia.

O que há no Brasil, desde o Congresso Nacional até as redes sociais, passando por setores impensáveis como a academia, é somente a divisão permanente entre nós e eles. Mas quem são eles e quem somos nós se formamos juntos um só?

Talvez por isso os brasileiros sempre recorram aos salvadores da pátria para tentar acabar com todos os problemas. Alguns querem o retorno dos governos militares, outros querem nova ascensão da esquerda, e muitos defendem uma guinada à direita. E assim o país com a política mais “mimizenta” do mundo vai adiando o bom debate sobre a melhoria da qualidade de vida.

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Gonzalo

Prezado Afonso Lopes, Exatamente. Tenho pensado nessas linhas. As bandeiras ideológicas estão, simplesmente, desmontando o que deveria ser a base: compromisso com a verdade. Se a pessoa não critica quase que fanaticamente o que sua posição ideológica e o grupo com o qual se identifica exigem, é um traidor. Do que se trata, então, não é em defender posições convencidos de que se defende o que é correto ou a verdade, mas o que convém. Faz tempo se impôs a ditadura do rótulo. Você tem que assumir um rótulo para se definir e não pode dizer publicamente algo que de… Leia mais