Afonso Lopes
Afonso Lopes

Impeachment trava processo sucessório

Em anos anteriores, as campanhas eleitorais fervilhavam desde fevereiro. Agora, começa o mês de maio e o debate ainda não decolou de vez

Ilustração

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Vai ter eleição em todas as cidades brasileiras este ano? Claro que sim. É o que prevê a regra democrática. Mas a impressão é mesmo de que este ano vai passar sem campanha nas ruas. Todas as atenções estão praticamente concentradas em Brasília, por onde segue o processo de impeachment da presidente Dilma Roussef, embora o assunto permeie em cada cidade do país. É um ano sucessório anormal, sem dúvida.

Normalmente, já no final do mês de fevereiro há um notável aumento na atividade interna dos partidos. No início de maio, como estamos nesta altura, o mundo político não fala em outra coisa que não seja a definição de candidaturas. O impeachment é o assunto do Brasil. Então, talvez por essa razão, os debates sobre o destino que o eleitor dará às suas cidades ainda não estão acontecendo. As mudanças nos prazos eleitorais introduzidas este ano também contribuíram para a diminuição das movimentações partidárias. Antes, por exemplo, a eleição começava um ano antes, portanto, no caso, em outubro do ano passado, com o encerramento do prazo mínimo de filiação. Este ano, esse prazo acabou somente no dia 2 de abril, seis meses antes da eleição. Outra mudança que empurra a campanha mais para a frente é o período destinado às convenções partidárias. Antes, os partidos deveriam escolher todos os seus candidatos e definir as coligações entre 10 e 30 de junho. Este ano, esse período está marcado para 20 de julho até 5 de agosto, apenas dois meses antes da eleição. E os partidos vão ter até dia 15 de agosto para o registro das chapas na Justiça Eleitoral.

Essas mudanças refletem o eixo central da intenção de diminuir o período de campanha. Oficialmente, o objetivo é forçar a redução dos custos da eleição. Se isso vai funcionar mesmo ou não é quase impossível garantir, mas que já criou um efeito colateral indesejado e inegável: o debate eleitoral tende a ser esfriado.

Um outro efeito colateral também já se observa: a criatividade dos candidatos. É necessário encontrar caminhos que ainda não foram completamente bloqueados pela legislação. Além de encontros localizados, os candidatos também têm criado uma movimentação que encontre pelo menos alguma forma de espaço na mídia, especialmente os jornais e emissoras de rádio, muito mais receptivos às informações políticas do que as emissoras de TV.

Em Goiânia, os candidatos também estão conseguindo bom destaque nas redes sociais. Recentemente, pesquisa feita pela agência goianiense Eureka avaliou a participação e influência dos pré-candidatos a prefeito de Goiânia. E algumas situações se revelaram. Há, na visão e avaliação da agência, um princípio de saturação de imagem no até então campeão absoluto das redes, o deputado federal Waldir Soares, que deixou o PSDB para garantir candidatura a prefeito este ano pelo PR. O seu grau de influência, que é a soma de três quesitos analisados — interações, alcance e engajamento — está em 24 pontos, apenas 3 a mais que Luiz Bittencourt, que passou a se utilizar das redes sociais da internet somente este ano. Outro candidato que também tem crescido muito é Giuseppe Vecci, com 19 pontos no total, 2 à frente de Vanderlan Cardoso, que também marca presença nas redes. O único candidato a prefeito que não utiliza as redes sociais para se comunicar com o eleitor é Iris Rezende. E nesse caso, a razão é bastante simples: ele não se adaptou muito bem nessa tecnologia.

Esse é, e pode ser cada vez mais, um grave problema para Iris Rezende, frequentemente acusado por seus adversários de ser um político e um administrador superado. Com a campanha mais curta, embora Iris detenha a mais alta popularidade dentre todos os candidatos a prefeito de Goiânia, a atuação, principalmente de Bittencourt e Vecci, que sabem se comportar nas redes e conseguem impregnar suas postagens com pontos de vista administrativos. Isso acaba funcionando como uma guerra de guerrilha silenciosa, mas que tem se revelado cada vez mais importante nas eleições brasileiras. Iris, nesse aspecto, vai passar apertado na campanha se realmente se lançar na disputa. Não é mais possível ignorar o poder no eleitor nas redes sociais. Prova maior desse fato são as manifestações a favor do impeachment, todas elas organizadas nas redes sociais.

Quando se analisa todas essas questões, é óbvio que as campanhas eleitorais deste ano vão ser completamente diferentes. O espaço de tempo no rádio e na tevê, e mesmo nas ruas, vai ser muito menor. Esse modo mais tradicional de campanha, portanto, não terá mais a capacidade de fazer o eleitorado reverberar as propostas dos candidatos, o que certamente causará um enfraquecimento da capacidade de convencimento, principalmente dos indecisos, que sempre formam o fator que determina vitoriosos e derrotados nas eleições. E quanto mais o processo de impeachment continuar no centro das atenções, mais importante ainda firmar posições nas redes sociais e nos jornais. No primeiro ramo, Iris Rezende é um ilustre desconhecido. Na imprensa, tem aparecido cada vez menos.

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