Afonso Lopes
Afonso Lopes

A grande jogada do mestre

Iris Rezende anunciou desistência da política, mas ficou a dúvida se é pra valer mesmo ou se ele vai retornar. Em um caso ou no outro, foi uma grande jogada política

Iris tinha duas cartas na manga: usou a da renúncia, mais interessante para o momento

Iris tinha duas cartas na manga: usou a da renúncia, mais interessante para o momento

Dos grandes mestres, em qualquer área do co­nhecimento ou da atividade humana, o que se espera são sempre iniciativas geniais. Às vezes, complicadas como um teorema. Noutras, de uma simplicidade tão grande que se tornam imprevisíveis. A aposentadoria política de Iris Rezende, anunciada em entrevista à jornalista Fabiana Pulcineli, de “O Popular”, é um desses momentos mágicos da política. Tanto para o caso de ter sido um gesto definitivo, como na possibilidade de ele ainda retornar para a disputa de prefeito de Goiânia.

Há algumas semanas, esta Conexão mostrou que Iris andava preocupado com a falta de compromisso do PMDB para com a candidatura dele a prefeito. Ele temia seriamente ter que bancar praticamente todos os custos da campanha com dinheiro do próprio bolso. E mais, não sentia participação dos dirigentes estaduais do partido e nem dos parlamentares estaduais e federais com a eleição de Goiânia. Estavam todos eles preocupados com seus próprios redutos. Goiânia era, portanto, um problema eleitoral de Iris. Apenas de Iris.

Não é mais. Ao anunciar que está fora, e não que não vai participar do processo interno de escolha de candidato, ele simplesmente jogou a enorme carga para o PMDB. O partido precisa pelo menos se manter e se mostrar competitivo na capital para que isso reverbere no Estado e alcance 2018. Um vexame agora certamente terá reflexos profundamente negativos na eleição estadual daqui a dois anos, provavelmente ao ponto de comprometer qualquer candidatura ao governo de Goiás por mais viável que ela possa ser.

Mas o Iris não tem a perder com essas consequências? Pois é, tem, mas bem menos do que todos os demais. Iris realmente está a um passo de sua aposentadoria, caso ela não tenha ocorrido. Portanto, sua possibilidade de lucro ou de perda é pequeno, de curtíssimo alcance. Aos 82 anos, 58 dos quais dedicados à vida pública recheada de êxitos, que o colocaram como um dos poucos habitantes do Olimpo político goiano, o seu futuro político não vai além do amanhã.

Existem algumas informações que foram relegadas a segundo plano diante da grande informação, a de que um dos maiores políticos do Estado se aposentou. A carta de despedida e agradecimento, por exemplo. O destaque, naturalmente, foi para essa mensagem, mas havia uma outra. Uma segunda carta, que não foi lida, obviamente. Nela, Iris anunciava a sua disposição de ser candidato a prefeito de Goiânia mais uma vez. Não se sabe em que momento Iris se decidiu por apresentar a carta de despedida e não a carta de candidatura.

Iris ganhou um mês de prazo até a realização das convenções partidárias. É lucro. Por ser bem mais conhecido que todos os demais pretendentes, ele não precisa balançar o coreto no período de pré-campanha. Pode sair de sua casa na hora do jogo e entrar em campo como titular e esperança do time peemedebista. No mínimo, ele se livra de um mês de pauladas dos adversários. Afinal, para que gastar críticas com alguém que está fora da disputa? Ao mesmo tempo em que se poupa, Iris termina por expôr seu principal concorrente neste momento, o deputado e delegado Waldir Soares, do PR. Ele, Waldir, passa a ser a bola da vez, o cara a ser batido.

O tempo de Iris, inclusive, pode ser maior do que um mês. A não ser que o PMDB decida na sua convenção se aliar a um dos candidatos já colocados — e tem se falado bastante em Vanderlan Cardoso, do PSB — e tope uma mera candidatura coadjuvante, de vice-prefeito, Iris poderá substituir o peemedebista que eventualmente for escolhido candidato a prefeito depois da convenção. Bastaria apenas que o escolhido renunciasse à candidatura. Como previsto na legislação, nesse caso, o partido poderia indicar o substituto, o próprio Iris. E isso já às vésperas da abertura da campanha relâmpago determinada pela legislação eleitoral a partir deste ano.

Como se pode observar, a anunciada aposentadoria de Iris Rezende é uma ação essencialmente política e atual. Não tem nada a ver com a derrota de 2014, como ele disse. Se realmente ele tivesse se decidido pela retirada naquela época, por que deixaria para oficializar isso somente às vésperas da eleição de prefeito de Goiânia dois anos depois? A explicação não bate, não tem muita lógica. Isso não significa que Iris não se aposentou. Mostra somente que se ele parou de vez, foi através de ação política e não como forma de extravasar um cansaço causado pelas derrotas e pela idade. Mostra, além disso, que o tempo pode ter passado, como ele próprio disse, mas a mestria arte da política que se mistura ao seu ego permanece.

Se a real intenção de Iris é retornar, com os lucros advindos e aqui já abordados, certamente isso se dará através de um PMDB compromissado com ele até a medula, inclusive no campo financeiro da campanha. Se não der certo, e a decisão de agora se tornar definitiva, ele sai dando um toco nas pernas mais jovens que lhe causaram aborrecimentos no comando do partido, que ele sempre considerou ser não apenas uma extensão de sua casa, mas de sua vida política.

Enfim, Iris se retira de maneira genial. E pode ainda retornar mais genial ainda. Coisas de mestre.

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