Elder Dias
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Forças Armadas entre a cruz e a espada: hora do perder ou perder

Ao entrar em qualquer governo, em vez de ficarem na caserna, os militares não teriam nada a ganhar; fizeram pior, coonestaram a gestão Bolsonaro

A cena emblemática da semana, provavelmente também a ser lembrada nas retrospectivas de fim de ano, foi a do velho tanque de guerra atravessando a via em frente ao Palácio do Planalto e deixando no ar a paisagem escondida pela fuligem que produzia. Um blindado com décadas de uso e que estava ali a serviço da Marinha, cuja tropa seguia a caminho de um exercício anual das Forças Armadas no município de Formosa (GO).

A viagem do comboio da Operação Formosa é rotina anual, programada sempre para esta época do ano. Brasília faz parte da rota, mas a passagem por dentro da capital foi novidade. Nunca havia acontecido desde que o treinamento de guerra dos fuzileiros navais foi iniciado no local, em 1988.

Também é a primeira vez, desde a redemocratização em 1985, que o Brasil tem um presidente de origem militar. O hiato temporal de 1985, fim da ditadura militar, a 2019, quando Jair Bolsonaro (sem partido) assume o poder, é também o maior tempo em que a República não teve à frente alguém com farda ou que já tivesse vestido uma. O Exército é, sem dúvida, o maior responsável pelo fim do Império e início da era republicana. Foram militares os dois primeiros presidentes, Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto.

Voltando à atualidade, não se pode dizer que os militares não gostaram da velha novidade em ter o que consideram um dos seus no comando do País: desde janeiro de 2019, já são mais de 2,6 mil membros das Forças Armadas em cargos comissionados, entre efetivos (a maioria) e da reserva, ocupando funções que poderiam ser de civis, no governo Bolsonaro.

A tendência de militarização do Poder Executivo, é bem verdade, começou com o governo de Michel Temer. A sinalização foi dada a partir do momento em que o então presidente trocou, na posição simbólica de ministro da Defesa, um civil por um militar: em fevereiro de 2018, o emedebista substituiu Raul Jungmann pelo general Joaquim Luna e Silva.

Durante a passagem dos blindados por Brasília, Bolsonaro posa ao lado dos três comandantes das Forças Armadas e do ministro da Defesa: Carlos Alberto Baptista Júnior (Aeronáutica), Almir Garnier Santos (Marinha), Braga Netto e Paulo Sérgio Nogueira (Exército) | Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

Com a posse do ex-capitão, claro, as portas do Planalto não só se abriram como se multiplicaram. A começar do número de ministros militares, maior em proporção até que o dos governos dos generais. Mas tudo que tem um bônus tem também seu ônus. Com sua notável incapacidade administrativa e ausência de trato político – de que, é importante ressaltar, ele se orgulha –, e em meio à mais grave crise sanitária dos últimos cem anos, Bolsonaro arrastou consigo, para o precipício, a reputação das Forças Armadas, instituição que antes era tida, nas periódicas pesquisas de opinião, como uma das mais respeitadas pela população.

O episódio mais triste nessa trajetória de frustração foi a passagem do general Eduardo Pazuello pelo Ministério da Saúde durante a pandemia. Depois de demitir dois médicos (Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich) da pasta por simplesmente eles conduzirem a crise de acordo com a ciência e as orientações internacionais, Bolsonaro encontrou no companheiro das Forças Especiais um subalterno que lhe diria “um manda e o outro obedece”. E, em meio a escândalos envolvendo cloroquina e outros remédios do tratamento precoce, ele pegou o cargo com 15 mil mortes, em maio de 2020, e o entregou com quase 300 mil, em março.

Depois de uma inédita demissão conjunta dos três comandantes das Forças – aliados do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, no intuito de não deixar a política contaminar os quartéis –, o presidente parece ter conseguido capitular, pelo menos em parte, os Altos-Comandos das Forças Armadas. O brigadeiro Carlos Alberto Baptista Júnior já se mostrou aliado do bolsonarismo em redes sociais; por outro lado, uma entrevista sua ao jornal O Globo, em que faz insinuações golpistas, foi compartilhada pelo comandante da Marinha, almirante Almir Garnier Santos no Twitter. E o general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, comandante do Exército e bem mais reservado, se viu forçado algumas vezes a fazer a vontade de Bolsonaro – a mais explícita e chocante delas com a não punição à participação de Pazuello em um ato político no Rio, já como ex-ministro.

Substituto de Azevedo na Defesa, o general Walter Braga Netto praticamente emulou Bolsonaro, não fazendo muita questão de esconder suas posições políticas mesmo em um cargo que deveria prezar pela discrição e pelo aspecto técnico e disciplinar. Antes disso, ainda na Casa Civil, coordenando as ações da pandemia, foi um desastre.

A parada militar mambembe, improvisada com a passagem de um contingente rumo a uma operação de rotina, teria sido obra de Braga Netto com Garnier, segundo diversas fontes ouvidas. Bolsonaro, claro, amou e aprovou a ideia de mostrar poderio no dia D da ida ao plenário da Câmara dos Deputados de sua pauta mais barulhenta, a do voto impresso/“auditável”. O dia começou tenso e terminou em memes com os veículos bélicos antigos, muitos dos quais aparentemente sucateados.

Tudo isso leva a uma conclusão que já no começo, a quem estava de fora, parecia óbvia: entrando de cabeça em um governo, em vez de se manter na caserna, os militares só tinham a perder. E tanto perderam que agora a saída será somente com mais perdas ainda.

Ex-ministro titular da Secretaria de Governo, o general Santos Cruz foi o primeiro a perceber a enrascada e logo estava fora da barca bolsonarista – não sem antes sofrer ataques do “gabinete do ódio” comandado por Carlos Bolsonaro. Em recente entrevista à jornalista Miriam Leitão, no canal Globonews, ele disse que “a intenção de Bolsonaro é destruir as instituições”. “O desgaste que as Forças Armadas estão tendo por conta da má condução do governo nunca houve. Fiquei 47 anos no Exército, nunca vi as Forças Armadas sofrerem desgaste tão grande como agora, exatamente no governo do presidente Bolsonaro”, acrescentou.

Perguntado pela jornalista sobre se Lula (PT) tinha sido um bom presidente para as mesmas Forças Armadas, Santos Cruz respondeu, bem a contragosto e rapidamente, com uma sinalização positiva. Sua reação resume o dilema em que agora se encontram os militares: a maioria absoluta não gosta da esquerda, não gosta do PT, não gosta de Lula. Então passam a ver a derrota dos dois lados: a continuidade com Bolsonaro, neste e em um eventual novo mandato; ou a possibilidade de ver de volta ao poder a esquerda que a maioria dos fardados abomina. É ou não perder ou perder?

Bode na sala, pepino no Senado

A aprovação da volta das coligações na Câmara dos Deputados, apenas um dia depois de derrubar o voto impresso, mostra a que servem os parlamentares em primeiro lugar: aos próprios interesses.

A tendência é de que o Senado derrube a matéria, ou mesmo nem a coloque em pauta – o presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), já se mostrou contrário à mudança por mais de uma oportunidade. De qualquer forma, é apenas mais um sinal de que o problema do Brasil é muito mais profundo do que um presidente incapaz no Executivo.

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