Elder Dias
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Foi tentativa de golpe, sim. E o instinto de Bolsonaro anseia por outras

O presidente atravessou o Rubicão. Mas Rubicão brasileiro é diferente do romano. Dessa forma, o estado de alerta deve seguir

Jair “César” Bolsonaro passando sobre o Rubicão: sorte do presidente que está no Brasil | Foto: montagem sobre foto de North Wind Picture Archives / Al/Alamy

Uma semana se passou desde a coluna anterior neste espaço. O título de então foi 7 de Setembro: Bolsonaro aposta tudo, mas o jogo é mais bruto do que ele. O texto, claro, foi sobre o espírito “vai ou racha” com que o presidente encarava aquele que já estava nomeado e dado como certo, nas hostes bolsonaristas, como “dia da Nova Independência”.

E realmente, com os discursos abertamente golpistas em Brasília e São Paulo, Jair Bolsonaro (ainda sem partido) foi longe. Na Roma antiga, se diria que o presidente passou pela ponte do Rubicão – o rio que Júlio César se atreveu a atravessar com suas tropas, contrariando a lei romana, gesto a partir do qual se iniciou uma guerra civil que transformou a República no Império Romano, tendo o general como ditador.

Aqui em Goiás, diríamos apenas que o “mito” pulou o corguinho. De ré. Os dois discursos da estrela do dia 7, além de seus já conhecidos e repetitivos bordões – que seriam enfadonhos se não fossem desconexos –, com uma segunda camada de sentido óbvia, embora pobre, vieram dessa vez com o incremento de ataques diretos à cabeça do Poder Judiciário, o Supremo Tribunal Federal (STF), mais especificamente a Alexandre de Moraes.

O ministro é o responsável, na corte, pelo inquérito das fake news, que muito incomoda a família presidencial, por motivos óbvios a quem acompanha a novela desde o começo. Mas essa era apenas a parte visível da audácia, que seria bem maior.

Segundo contou o professor e historiador Fernando Horta em uma sequência de postagens no Twitter, a travessia do Rubicão planejada pelo bolsonarismo era algo muito mais avançado em termos de ousadia: um golpe de fato. O relato ficou mais crível após reportagens, como uma da BBC News Brasil, apurarem que uma “articulação de bastidores” teria ajudado a impedir a invasão do STF às vésperas dos protestos bolsonaristas.

“Bolsonaro tentou o golpe, e ele não aconteceu. O que teria dado errado? O que efetivamente aconteceu para que os planos golpistas fossem frustrados? Seria apenas um erro de cálculo de Bolsonaro? Seria o fato de o Brasil ter ‘instituições fortes’?”, provocou Horta.

Ele começa os tuítes seguintes com uma afirmação tácita: É completo consenso que o que ocorreu no dia 7 de setembro foi uma tentativa de golpe”, mas “para entender o que aconteceu precisamos olhar para o dia 6”.

Segundo o historiador, quando os bolsonaristas retiraram as barreiras de contenção da Esplanada dos Ministérios – é procedimento padrão que qualquer manifestação na capital federal tenha essas proteções –tendo para isso toda a complacência da Polícia Militar, estava dada a senha para “o estopim do golpe”.

No entanto, para a consecução do objetivo era preciso que um número realmente expressivo estivesse em Brasília, a ponto de aquela “foto” – para usar uma palavra repetida à exaustão pelo presidente – justificar uma adesão dos militares. Como em 1964, esperavam um apelo do “povo” a Jair Bolsonaro, ainda que esse “povo” signifique, nas contas atuais, de 20% a 25% do eleitorado, segundo a média as pesquisas de popularidade do mandatário, que segue caindo.

E aí, conforme diz Fernando Horta, entram dois fatores que foram essenciais para que não houvesse as vias de fato da quebra institucional. O primeiro foi o contato do presidente do Supremo, Luiz Fux, com os comandantes militares, exigindo providências contra uma iminente invasão do STF e falando em convocar as Forças Armadas para, por meio da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) – medida extrema quando se entra em uma situação caótica de ameaça à democracia – garantir a segurança do prédio.

O segundo fator estava, ainda segundo Horta, nas mãos de Alexandre de Moraes. Por meio da inteligência do Judiciário, ele recebeu informações de contas pelas quais estavam sendo financiadas as caravanas e outras formas de mobilização para os atos antidemocráticos. E o ministro fechou a torneira dos recursos, inviabilizando a ida ou estadia de um bom contingente, principalmente em Brasília.

Quando houve o avanço dos bolsonaristas sobre a primeira barreira de contenção na Esplanada, as redes sociais também se encarregaram de denunciar a aparente anuência da PM de Brasília com os manifestantes invasores. Isso pressionou o vice-governador, Paco Britto (Avante), a agir – o titular do cargo, Ibaneis Rocha, bolsonarista, “achou” uma viagem exatamente no dia da movimentação.

A antecipação do recado do STF aos comandantes militares, ainda de acordo com o historiador e professor, acabou sendo, “sem querer querendo”, o golpe de mestre para evitar o golpe de Estado: ou se reforçava a segurança ou eles teriam de atender à GLO, sob risco de, caso não assim procedessem, obviamente já quebrarem o pacto institucional – ou seja, o golpe já estaria dado, ao desobedecer à determinação de um dos chefes dos Poderes.

Horta diz que tanto a PM quanto as Forças Armadas provavelmente avaliaram os riscos da empreitada e decidiram pela prudência – o professor insinua que menos por decoro à democracia do que medo das consequências em caso de fracasso. No feriado, com atos realmente concorridos, mas sem as multidões de milhões de pessoas – um pouco por conta do providencial corte na fonte de recursos, por Moraes –, não havia o apelo necessário para uma intervenção desse nível.

Diante desse cenário, as declarações de Bolsonaro nos palanques se tornaram ainda mais desastrosas. E para os dois lados: quem estava ali como militante esperava que o presidente determinasse ao menos a retirada de Alexandre de Moraes do cargo – o que, em si, já seria uma medida “fora das quatro linhas”, mas sob o pretexto de o outro lado já estar jogando esse jogo assim. E quem observava cada fala ficava perplexo com os pisões sonoros na goela da democracia.

O socorro de Temer
Depois da farra, vem a ressaca. E na quarta-feira, 8, o STF reagiu aos impropérios do dia anterior, ameaçando não tão sutilmente o presidente de ser enquadrado em crime de responsabilidade por suas falas. Em outra frente de estresse, ocorria o bloqueio de rodovias pelos caminhoneiros.

Bolsonaro se viu perdido. E chamou o ex, Michel Temer (MDB), por precisar de alguém pensante e que conhecesse o caminho das pedras para sair da enrascada. Veio a ideia da carta a ser publicada e que não teria nada de bolsonarista. Pelo contrário, seria um documento genuinamente republicano.

Exorcizava-se o bolsonarismo, o que também significa dizer que um caro preço político seria cobrado. Mais ainda assim foi uma pechincha. Explico: é preciso lembrar que estava em tela uma tentativa de golpe. Safar-se disso teria o custo de alta desmoralização com a base radical, mas era a única chance de sobrevivência. E a base bolsonarista… bom, ela é insana, mas fiel e domesticável. Foi assim quando da saída do então ministro Sérgio Moro e a aposta era de que novamente ela veria no capitão um homem “estrategista”, que “sabe o que está fazendo”.

E essa narrativa se mostrou pertinente, novamente: monitoramento feito por uma consultoria, na sexta-feira, 10 – portanto, menos de 24 horas após a “carta de arrego” – mostrou que o dano na base radical já estava sendo bem absorvido, com a interpretação de que o recuo tático não fora uma rendição, mas uma jogada de mestre do “estrategista”. Bingo.

Então, que se repita: não é que Jair e seus seguidores fizeram jogo de cena. Tudo leva a crer que o “mito” e companhia acreditavam mesmo que do dia 7 não se passaria sem a tal “ruptura”, como o filho Zero 3 e dublê de deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) já dizia em maio do ano passado – era o “quando” do golpe, a que o parlamentar se referiu naquela ocasião, em que ele próprio descartou o “se”.

Foi uma semana tensa. Nas próximas, muito mais se saberá sobre o que ocorreu na véspera e no dia dos eventos antidemocráticos mais marcantes em quase 60 anos. Mas, do que se tem até o momento, dá para arriscar com grande chance de acerto: sim, Bolsonaro tentou dar um golpe, usando seu “povo” (os “patriotas”) como maneira de caracterizar uma (falsa) ânsia geral da população por “liberdade” (algo a que o bolsonarismo deu um conceito muito particular).

Foi uma semana tensa, repitamos. Estão sendo dias tensos. Vivemos tempos tensos. Em favor de Jair Bolsonaro, o fato de que ele nunca deu alguma bandeira de que realmente gostava de democracia. E, se é assim, e se ele é assim, podemos esperar: vem mais golpismo pesado por aí. Não é questão de “se”, mas de “quando”. Nosso jeito cultural de ser fez Bolsonaro ter um Rubicão flexível. Ele vai recompor as energias para mais ataques. O estado de alerta deve seguir até que a faixa presidencial esteja em outro corpo.

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