Augusto Diniz
Augusto Diniz

Flertar com autoritarismo é absurdo. Negar o que disse é ainda mais absurdo

Vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) acredita que basta tentar dar novo sentido a declaração feita na noite anterior e a verdade será apagada

Fiel escudeiro e influente no governo federal, vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) demonstra todo seu desprezo pela democracia em publicação | Foto: Flickr Família Bolsonaro

“O governo Bolsonaro vem desfazendo absurdos que nos meteram no limbo e tenta nos recolocar nos eixos. O enredo contado por grupelhos e os motivos cada vez mais claro$ lamentavelmente são rapidamente absorvidos por inocentes. Os avanços ignorados e os malfeitores esquecidos.” A declaração foi dada pelo vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho do presidente da República Jair Bolsonaro (PSL).

https://twitter.com/CarlosBolsonaro/status/1171201933891244033

Mas a parte mais preocupante do pensamento de Carlos tornado público na noite de ontem veio quatro minutos depois, às 20h21. “Por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos… e se isso acontecer. Só vejo todo dia a roda girando em torno do próprio eixo e os que sempre nos dominaram continuam nos dominando de jeitos diferentes!”

Na tarde de hoje, depois de toda a repercussão negativa, o vereador pela capital fluminense, que mais fica em Brasília (DF) do que na cidade que o elegeu ao Legislativo municipal, tentou atribuir à imprensa a culpa pela, segundo o parlamentar, interpretação mentirosa de seus tuítes. ” O que jornalistas espalham: Carlos Bolsonaro defende ditadura. CANALHAS!”

https://twitter.com/CarlosBolsonaro/status/1171460220700086273

Ao chamar jornalistas de “canalhas”, Carlos Bolsonaro ignora a capacidade de interpretação de texto das pessoas, não só dos profissionais da imprensa, uma profissão que o vereador, a família Bolsonaro e seus apoiadores mais fieis preferem tratar como uma ideia manipuladora, não como um trabalho remunerado. É como se a profissão fosse uma ideologia, algo que Jair, Eduardo e Carlos negam ter, mas não param de demonstrar – muitas vezes em uma tentativa de impor seu pensamento mais truculento e opressor.

Não poderíamos esperar algo diferente de um parlamentar que foi jogado na política eletiva por uma briga do pai com a ex-esposa Rogéria Bolsonaro para impedi-la de ser reeleita vereadora, com a necessidade da usar o filho para continuar a ter o controle sobre o mandato eletivo pertencente à família, da qual a mulher não mais fazia parte. Aliás, “filho de troglodita, troglodita é”, já dizia Jair Bolsonaro.

Declaração trecho a trecho
Mas voltemos à declaração de Carlos Bolsonaro na noite de ontem. E para isso precisamos prestar atenção em cada trecho do que foi dito pelo filho do presidente. Recordemos que o vereador foi o responsável pela queda de dois ministros do governo do pai até o momento: Gustavo Bebianno (Secretaria-Geral da Presidência da República) e general Carlos Alberto dos Santos Cruz (Secretaria de Governo).

De fato o filho 02 começa a falar sobre uma mudança muito lenta perto das expectativas da família Bolsonaro e de seus apoiadores: “Por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos”. Mas a continuação mostra que a primeira parte da frase pode ser ignorada em poucos segundos com “… e se isso acontecer”. O próprio Carlos coloca dúvida sobre a possibilidade que chegou a levantar de a democracia abrir espaço para uma modificação do cenário existente.

“Só vejo todo dia a roda girando em torno do próprio eixo.” Sabe o rato que corre dentro da gaiola e nunca consegue sair do lugar? “A roda girando em torno do próprio eixo” é exatamente isso. E aqui Carlos, para que o vereador consiga entender o que escreveu – muitas vezes o parlamentar demonstra certa dificuldade com as palavras e seu significado -, é bom lembra que o 02 ainda descreve as “vias democráticas” das quais questionou a eficácia ao dizer “… e se isso acontecer”.

Mas é no trecho seguinte que mora o perigo. “E os que sempre nos dominaram continuam nos dominando de jeitos diferentes!” Aqui o entendimento não está explícito. Aqueles que “continuam nos dominando de jeitos diferentes” seriam os escolhidos pelos Bolsonaro como inimigos. Mas como podem ser os inimigos a ameaça se quem está no poder é justamente o pai do vereador?

https://www.youtube.com/watch?v=qPmBxInw_qs

Quem flerta há décadas com torturadores de todo o mundo e idolatra a ditadura militar brasileira que controlou o poder com autoritarismo e violência entre 1964 e 1985 não são “os que sempre nos dominaram”, como alega Carlos Bolsonaro no Twitter. Quem afirma manter o livro “A Verdade Sufocada” na mesinha de cabeceira é o presidente da República, que por acaso é pai do autor da declaração, que agora tenta desmentir o que escreveu no Twitter e culpar a imprensa.

E é bom sempre lembrar que o autor de “A Verdade Sufocada” é o comandante Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado de ser mandante e autor de torturas durante a ditadura militar. E o bordão “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” já estava presente nos momentos mais lamentáveis da atuação parlamentar da família Bolsonaro na história da política brasileira.

Primeira parte
Voltemos ao início da declaração de Carlos na internet. “O governo Bolsonaro vem desfazendo absurdos que nos meteram no limbo e tenta nos recolocar nos eixos.” Se o vereador filho do presidente considera avanços a interferência na Polícia Federal, as demonstradas intenções de mudança na chefia alfandegária no Porto de Itaguaí (RJ), o desmonte da fiscalização ambiental e o fim do Coaf, além do silêncio sobre Fabrício Queiroz, ex-assessor parlamentar do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) e do pai, talvez falemos idiomas diferentes.

Mas imaginemos – com muito esforço – que o Brasil tenha melhorado e que a gestão Bolsonaro mudou a situação do País em vários aspectos, vamos buscar entender o que vem a ser “nos recolocar nos eixos” depois de tirar a nação do rumo errado “desfazendo absurdos que nos meteram no limbo”. Carlos continua: “O enredo contado por grupelhos e os motivos cada vez mais claro$ lamentavelmente são rapidamente absorvidos por inocentes. Os avanços ignorados e os malfeitores esquecidos”.

Quem são os grupelhos? A família Bolsonaro, que mente para os brasileiros, assim como fez na campanha – que o presidente atribui a maior parte do mérito ao 02, que adora brigar com a imprensa e falar besteira nas redes sociais -, e viu a rejeição à gestão de Jair chegar a 38% em oito meses de governo enquanto a aprovação caiu para 29% de acordo com a última rodada da pesquisa Datafolha? Me esqueci. É verdade. Para acreditar no Datafolha é preciso crer também no Papai Noel.

Mas Carlos descreve que “o enredo contado por grupelhos” tem motivos “cada vez mais claro$”. Então diga quais são quais são as motivações tão evidentes, vereador. Porque já sabemos que não entende a língua portuguesa muito bem. Inclusive deixou claro que não consegue nem compreender o que escreve no Twitter.

Só que o 02 diz que o tal “enredo contato por grupelhos” faz com que os “motivos cada vez mais claro$ lamentavelmente” sejam “rapidamente absorvidos por inocentes”. Resta que o filho do presidente esclareça se os “inocentes” enganados por supostos inimigos da família Bolsonaro são os mesmos que acreditaram na mamadeira de piroca e no kit gay.

Será que também tratam-se de conteúdos que “lamentavelmente são absorvidos por inocentes”? Ou o estrago causado por mentiras contadas em uma campanha eleitoral que visa simplesmente “motivos cada vez mais claro$” deve ser ignorado?

https://www.jornalopcao.com.br/ultimas-noticias/quais-sao-as-11-mentiras-ditas-por-bolsonaro-sobre-homofobia-e-kit-gay-no-jornal-nacional-134665/

 

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