Afonso Lopes
Afonso Lopes

Fátima Mrué mais esconde do que explica crise da saúde em Goiânia

Prefeitura mantém quase 500 leitos de UTI e recebe verbas federais e estaduais por esse quantitativo. Há muito menos vagas à disposição de quem precisa

Na década de 1990, algumas empreiteiras contratadas para asfaltar rodovias no Brasil recebiam valores referentes a cada quilômetro de pavimento construído. Posteriormente, fiscalizações concluíram que grande parte desses quilômetros tinha somente 900 metros, e não 1000. Desde então, o quilômetro de 900 metros passou a ser melhor fiscalizado. Algumas cidades, inclusive, ficaram mais “próximas” das outras, após a correção da metragem real.
Mal comparando, é mais ou menos o que a Prefeitura de Goiânia tem feito na área da saúde. O município é responsável por informar ao Ministério da Saúde, e também ao governo estadual, quantos leitos de UTI há em oferta para os pacientes atendidos pelo SUS. O problema é que a Secretaria da Saúde registra uma quantidade de leitos bem acima do que realmente é oferecido à população. É o quilômetro de 900 metros da saúde de Goiânia.
Essa anomalia entre o que é disponibilizado para atendimento de pacientes em grave estado de saúde, maioria das vezes com risco imediato de morte, nas UTIs não começou no ano passado. Vem desde 2014. Desconfiado, o Ministério da Saúde tem enviado técnicos a Goiânia para conferir o número real e efetivar as devidas correções. Sem sucesso. O erro grotesco é bom para a Secretaria Municipal, que recebe verbas federais e estaduais por leitos de UTI que não existem e que, por consequência, não geram um só centavo de despesa.

As explicações dadas pela secretária de Saúde de Goiânia, Fátima Mrué, cujo currículo é absolutamente invejável, não dizem nada. Em reportagem para o jornal “O Popular”, que fez o comparativo entre os números de leitos de UTI e descobriu as gritantes diferenças entre o que está registrado no Ministério da Saúde e o que é efetivamente colocado a serviço de quem necessita, Fátima admitiu que há divergências, e que isso ocorre desde 2014. Acrescentou que o dinheiro que vem a maior parte da União e do Estado é utilizado para pagamento de outros tratamentos de alta e média complexidade. Como o SUS reembolsa cada procedimento médico realizado, esses tratamentos, ao menos teoricamente, já estariam cobertos em outras rubricas das despesas/repasses.

Isso pode significar, ao menos passa essa impressão, de que os gravíssimos problemas no atendimento geral da saúde em Goiânia não têm relação, ou se têm são em menor escala, com falta de verbas. E se for realmente assim, o caos que a população enferma enfrenta diariamente dentro dos Cais e nos demais postos de atendimento básico de saúde está intimamente próximo da confusão gerencial do sistema. E sobre essa questão não se ouve muita coisa na Secretaria ou no próprio Palácio do Cerrado Ve­ne­rando de Freitas Borges. Ge­neri­camente, o prefeito Iris Rezende diz, em tom claramente acusatório, que a secretária Fátima Mrué está atacando privilégios, e por essa razão estaria enfrentando resistências, inclusive de parte da Câmara. O prefeito, porém, não especifica quais são esses privilégios e nem quem seriam seus beneficiários. A população que procura atendimento nas unidades municipais de atendimento com toda a certeza não tem sido privilegiada por um serviço de qualidade ao menos razoável. Muito pelo contrário.

Longe do disse-me-disse que se trava sobre esse problema, é certo que não é muito complicado encontrar gargalos administrativos da Secretaria da Saúde que não são resolvidos. Recentemente, vereadores denunciaram que o serviço de manutenção e reparo de algumas ambulâncias utilizadas no sistema custa pouco menos que um veículo novinho em folha. Em outra denúncia, também registrada na Câmara Municipal, levantou-se que um sistema informatizado implantando pela atual administração da Secretaria causou tanto tumulto que a solução encontrada por funcionários foi retornar ao velho sistema analógico do papel e caneta. Era o único jeito de fazer a fila de pacientes andar um pouco. Muito pouco, até porque a falta de profissionais de atendimento, como médicos e enfermeiras, além de auxiliares, é denúncia constante dos usuários.

Em resumo, apesar de receber verbas a mais por informar número exagerado de leitos de UTI, a Secretaria de Saúde de Goiânia tem oferecido um serviço tão deficiente quanto as explicações oficiais. É muito problema para um setor só.

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