Afonso Lopes
Afonso Lopes

Entre a fantasia marqueteira e a simplicidade

Os cidadãos são bombardeados por inúmeras propostas, mas poucas são realmente aplicáveis, e a maioria não altera a estrutura

O atendimento ás crianças exige que os gestores não deixem faltar unidades de educação infantil na cidade | Foto: Divulgação

O atendimento ás crianças exige que os gestores não deixem faltar unidades de educação infantil na cidade | Foto: Divulgação

O “Estado faz tudo por você” é característica dos períodos eleitorais brasileiros há algum tempo. É como se fosse uma temporada especial em que os candidatos a prefeito de todo o país se dedicassem unicamente à tarefa de criar um mundo entre o paraíso fantástico e a materialização de todos os desejos num piscar de olhos. E assim surgem milhares de creches, hospitais de Primeiro Mundo em todas as periferias, trânsito futurista sem engarrafamentos, montanhas de lixo domésticos recolhidos em passes de mágica silenciosa, sem ronco de motores e incômodos. O que mais? Escolas quase robotizadas, climatizadas como hotéis de Dubai, com professores especializados nas melhores universidades do mundo com o único propósito de educar crianças da periferia. Seria ótimo se tudo isso pudesse sair do fantástico mundo virtual das promessas de campanha para o dia a dia dos cidadãos após as eleições. Mas não é.

É óbvio que há algum exagero no que se afirma no parágrafo de abertura desta Conexão. Algum exagero, repita-se. Não muito. E o eleitor brasileiro sabe cada vez mais, através de aprendizado natural do decorrer de eleições, que campanhas eleitorais são um misto entre realidade, pés no chão e fantasias. A melhor forma de comprovar isso é que ninguém, rigorosamente ninguém, sai repetindo, por mais apaixonado que seja pelo candidato A ou B, as propostas de seu escolhido. Mas esse é um problema bastante sério do formato eleitoral brasileiro. Não existe esse “Estado bonzinho, que faz tudo e a todos oferece”. Ao contrário, o Brasil tem máquinas administrativas ultrapassadas, complexas, pesadas, perdulárias e de soluções sempre complicadas. A simplicidade, que deveria ser a meta, aparentemente não rende votos.

A melhor e mais inteligente forma de se manter as ruas limpas é associar Estado, no caso Prefeitura, com o cidadão. Sim, o cidadão também tem responsabilidade, e não apenas o direito de viver em ambiente limpo. Mas qual candidato diz isso abertamente em um programa eleitoral no rádio ou na televisão? Nenhum. Ora, se o cidadão não se sente na obrigação de fazer a sua parte na limpeza no dia a dia, candidatos devem prometer que limparão a sujeira que ele produz.

Isso, de forma geral, é constante nas campanhas eleitorais, mas aqui e ali é possível “garimpar” propostas bem razoáveis, exequíveis, e que atendem bem a um quesito fundamental: a simplificação da máquina administrativa. Nesse aspecto, em Goiânia, Francisco Júnior, PSD, e Vanderlan Cardoso, PSB, somam mais. O experiente Iris Rezende surge logo em seguida, mas ele tem repaginado exageradamente algumas de suas propostas apresentadas desde 2004, quando se elegeu prefeito.

É o caso da educação infantil. Em 2004, ele dizia que educação é tudo na vida, e que a escola pública deve ter qualidade para que o “filho do pobre” tenha as mesmas condições de, no futuro, disputar em condições de igualdade com o “filho do rico”. Enquanto frase de efeito eleitoral, é muito bom. Iris sabe como fazer as coisas como poucos. Na prática, a realidade tem custos, e por isso é bem diferente. Eleito em 2014 e reeleito em 2008, Iris deixou a Prefeitura para disputar o governo do Estado em 2010. Conforme o recém-divulgado Ranking de Eficiência municipal organizado pelo jornal “Folha de S. Paulo” e pelo instituto de pesquisas Datafolha, naquele ano, em 2010, de cada 100 crianças de zero a 3 anos que procuravam unidades de educação infantil da Prefeitura, somente 19 eram atendidas. Entre as crianças de 4 e 5 anos, esse índice era de 67 crianças matriculadas a cada 100 que necessitavam. Na atual campanha, Iris reafirmou exatamente esse compromisso com a educação infantil. Não há dúvida de que, se eleito, ele vai atender parte dessa população sem vagas, mas dificilmente conseguirá atender a todos os tais “filhos dos pobres”.

Soluções simples, que necessariamente custam muito pouco para os escassos recursos municipais, são bem mais factíveis do que soluções globalizantes que não são implementadas. Francisco Júnior disse na semana que passou que pretende revitalizar a parte central de Goiânia, que há anos vive em total decadência. E sua proposta é incentivar as pessoas a frequentar o espaço. De que forma? Com incentivo para a implantação de polo gastronômico, limpeza de fachadas de prédios, muitos deles históricos, e segurança pública. Nada de propor uma vila cultural, destruir e reconstruir quarteirões inteiros, fontes luminosas e demais pirotecnias do gênero. Pode funcionar? Claro que sim. Há três décadas, o goianiense teve um desses momentos de revitalização do centro com uma medida espantosamente simples: criou uma feira especializada em doces e mel. O fluxo de pessoas na época era imenso. Hoje, nem se fala mais sobre a tal feirinha Cora Coralina.

Vanderlan Cardoso também apresentou uma proposta interessante: a descentralização administrativa. A ideia não é nova. Iris, quando prefeito, tentou fazer isso, mas esbarrou na questão política na Câmara Municipal. Vanderlan está certo ao falar sobre o tema. Não é mais possível quem uma cidade com a dimensão territorial de Goiânia seja administrada de maneira centralizada, em um único prédio. Mas e os custos inerentes à implantação desse modelo administrativo? São muito baixos, e permite que a Prefeitura desenvolva ações de forma bem mais ágil.

Enfim, esses são somente alguns exemplos daquilo que se está colocando para o consumo do eleitorado. Adriana Accorsi e Waldir Soares também estão dizendo o que pretendem fazer se receberem o seu voto. Então, é hora de avaliar cada proposta e escolher o melhor conjunto. E este será o que se apresentar de forma mais simples e corriqueira. Afinal de contas, o caixa da Prefeitura tem limite, ou será do seu bolso que sairá dinheiro para colocar mirabolâncias em prática.

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