Elder Dias
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Em 2022, vamos ter um segundo “Ele Não”? Não, de novo, não

Se Bolsonaro quer ser reeleito, não será apelando à pauta comportamental, à qual deve boa parte de seus votos em 2018

Faixa “Mulheres contra Bolsonaro” levantada no Largo da Batata, em São Paulo| Foto: Lucas Pena

Em 2022, quando faltava poucas semanas para as eleições, Jair Bolsonaro (à época no PSL, sem partido por dois anos e quase no PL, para o momento) ainda estava convalescente da facada de 6 de setembro. Principalmente se da agenda constassem debates com os concorrentes.

O atentado fez com que o candidato da extrema-direita consolidasse a liderança que já ocupava nas pesquisas eleitorais, com a saída definitiva de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) do páreo. A proximidade do pleito e o temor de enfrentar um governo com pautas retrógradas e que atacassem os direitos de mulheres, da comunidade LGBTQIA+ e das minorias.

Começava ali a campanha que ficou conhecida como #EleNão, puxada pelos setores progressistas e liderada especialmente por mulheres politizadas. Com uma história política inteira de misoginia e machismo, Bolsonaro e sua performance eleitoral atiçaram o levante, cujo ápice se deu no dia 29 de setembro. Naquele sábado, centenas de milhares de pessoas foram às ruas para gritar “ele não!” – uma referência direta de negação ao protagonista das eleições.

Entre as muitas personalidades que se juntaram ao coro e alertaram para o perigo que seria para as conquistas sociais uma eventual eleição de Bolsonaro estava a cantora e compositora Marília Mendonça, que morreu em um acidente aéreo na sexta-feira, 5. Era algo tão surpreendente como animador: dentro da música sertaneja, seu nicho e ninho de machismo até mesmo entre as artistas mulheres – pelo menos até o surgimento do “feminejo”, do qual a própria Marília foi uma propulsora –, ela era naquele momento uma exceção. Fez um vídeo expondo seu apoio ao movimento, após ser convidada a externá-lo pela também cantora Maria Gadú. A reação foi ruim: os fãs, apolíticos ou de posição antipolítica – terreno fértil para o bolsonarismo, portanto – não gostaram de ver sua musa se meter em assunto de eleição. Pressionada, a cantora retirou a postagem do ar.

Depois de ganhar as ruas e com volume considerável, o #EleNão também sofreu um efeito rebote: nos dias seguintes, a reação conservadora foi mais forte. Tão intensa quanto esse contra-ataque foi a corrente de fake news espalhada pelas redes sociais e grupos de conversação que ligaram o movimento puxado pelas mulheres a atos obscenos, blasfemos e até satanistas, usando imagens antigas e de outros países para dizer que aqueles horrores haviam sido cometidos durante as manifestações do fim de semana anterior. O objetivo era atingir a religiosidade do eleitorado mais vulnerável e desinformado. Conseguiram.

Em outras palavras, pode-se dizer que o #EleNão – claro, involuntariamente – ajudou a firmar as raízes da eleição daquele que queriam defenestrar. Os movimentos fizeram o que puderam para deter Bolsonaro, mas foi exatamente o que fizeram que, manipulado pelo vale-tudo daquelas eleições, ajudou a cavar por antecipação a derrota de Fernando Haddad (PT) no segundo turno.

As eleições de 2018 são coisa do passado. E a fórmula de seu sucesso, também. Bolsonaro não terá como se repetir, até porque naquele ano era apenas um deputado candidato a presidente e seu trabalho à frente do País era uma incógnita. Agora, não mais. Ao contrário, o conceito que a maioria da população – boa parte dela formada por eleitores frustrados com os rumos que o Brasil tomou – tem do desempenho do atual governo é bastante negativo.

Diante da falta de projetos, da pouca entrega de resultados, do excesso de erros e de mortes na pandemia, da procrastinação da compra de vacinas, da inflação cada vez mais galopante e da perda de poder aquisitivo decorrente, não haverá como pesar a mão em pautas de costumes. Quem está com fome não quer saber de guerra cultural e não vai deixar de votar em Lula, por exemplo, porque o PT está vai aprofundar a ligação com ditaduras comunistas.

Primeiramente, porque o eleitor médio já conhece Lula e o PT e sabe até onde poderia ir a parceria com essas e outras nações em um novo governo de esquerda. A memória do eleitor médio – aquele que não se preocupa tanto com ideologia política e que se pauta de forma pragmática, observando quem pode oferecer mais a ele próprio e a sua família.

A pressa de Bolsonaro
Daí a pressa que Bolsonaro e aliados têm de aprovar o Auxílio Brasil e fazer o povão “esquecer” o Bolsa Família, tido como marca registrada exatamente de seus maiores adversários. Com o advento do novo programa social e com a anabolização do valor pago, para 400 reais, a ideia é começar a atacar exatamente o flanco que dá mais sustentação a Lula: a esperança de recuperar o poder de consumo, de ter direito a um churrasco com os amigos e uma viagem de férias no fim do ano inteiro de trabalho.

Quando decreta a vigência do Auxílio Brasil até dezembro de 2022, fica explícito o caráter eleitoreiro do benefício. O que Bolsonaro aposta é que pese o pragmatismo e não a visão de longo prazo do eleitorado, especialmente o mais pobre.

Mas esse é apenas um dos problemas que o presidente terá para ser bem-sucedido em 2022. A semana terminou com uma repercussão forte do lançamento da pré-candidatura de Sergio Moro, agora filiado ao Podemos e, ao mesmo tempo, passando a principal nome da chamada “terceira via”.

Se Moro realmente se viabilizar como nome competitivo – e as próximas rodadas de pesquisa vão dizer se isso vai acontecer –, Bolsonaro poderá vir a sofrer da síndrome do cobertor curto: ao mesmo tempo em que aposta no aumento de sua aceitação pela classe mais remediada da população, pode ver os votos de seu eleitorado mais estável pelo viés do discurso ideológico migrar para o curral do ex-juiz. É bom lembrar que, para essas pessoas, Sergio Moro continua como referência de honestidade e combate à corrupção, ao contrário do presidente entregue aos desmandos fiscais e negociatas com o Centrão.

Se Bolsonaro tiver uma perda de eleitorado para Moro antes que possa repercutir nas pesquisas o efeito que quer que seja provocado pelo Auxílio Brasil, essa oscilação para baixo poderá ser o suficiente para catalisar a migração de eleitores de direita de um para o outro. É a esperança de Moro e é a preocupação de Bolsonaro.

O que se sabe, desde agora, é que aquela invasão das ruas com pautas progressistas e refutando a misoginia, o machismo, o racismo e a homofobia não poderão mais ser contra-atacadas. Na verdade, talvez os mesmos manifestantes nem precisem ir às ruas: vão observar, de camarote, a direita brigar entre si para definir o candidato que disputará o segundo turno.

 

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