Afonso Lopes
Afonso Lopes

Eleitorado gosta de triângulo forte

Ao contrário do que historicamente ocorre nas disputas estaduais, goianiense quase sempre leva eleição para concentração entre três nomes, o que deve se repetir em 2016, e nesses casos não há favoritismo

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Desde a redemocratização do Brasil, no início da década de 1980, as elei­ções no Estado de Goiás sempre tiveram forte polarização entre dois grupamentos políticos. A única exceção foi em 1994, mas mes­mo assim dois dos três candidatos que disputaram voto a voto o go­verno do Estado pertenciam ao mes­mo tipo de eixo político. Já a capital adotou uma linha diferente, criando a concentração em torno de três nomes em alguns anos. Esse, por sinal, pode ser o destino da eleição de 2016, com três candidatos relativamente em igualdade de condições para chegar ao segundo turno.

Foram nove eleições para o governo de Estado desde 1982. Iris Rezende venceu duas vezes, em 82 e em 90, derrotando diretamente Otávio Lage e Paulo Roberto Cunha (ambos falecidos). Henrique Santillo ganhou de Mauro Borges Teixeira (ambos também falecidos) em 1986. Alcides Rodrigues bateu Maguito Vilela em 2006, e o mesmo Maguito ganhou em 1994 numa disputa intensa contra Lúcia Vânia e Ronaldo Caiado. Essa concentração entre os três candidatos se deu porque um dos eixos políticos, o de oposição, rachou na fase de pré-campanha, quando existiu inclusive a possibilidade de união entre eles. No final, eles disputaram os mesmos eleitores, que retira da eleição o caráter de disputa tripla. As outras quatro eleições foram vencidas por Marconi Perillo, em 1998, 2002, 2010 e 2014.

Já em Goiânia o cenário mudou bastante. A primeira eleição direta após redemocratização ocorreu apenas em 1985. Nela, PMDB e PT protagonizaram uma disputa bastante intensa, com vitória de Daniel Antonio contra Darci Accorsi (falecido). Em 1988, Goiânia inaugurou a tríplice disputa, vencida por Nion Albernaz contra o petista Pedro Wilson e Maria Valadão, do PDS. Em 1992, mais uma disputa em torno de três candidatos destacados, com vitória de Darci Accorsi contra Sandro Mabel e Sandes Júnior. Quatro anos depois, em 96, Nion ganhou novamente em nova eleição triplamente centralizada contra Luiz Bittencourt e Valdi Camárcio. Em 2000, o eleito foi Pedro Wilson, que bateu Darci Accorsi e Lúcia Vânia. Em 2004, deu Iris Rezende, que derrotou Pedro Wilson e Sandes Júnior. Em 2008 e 2012, não houve segundo turno, e Iris Rezende e o atual prefeito Paulo Garcia venceram com tranquilidade. Em resumo, nas oito eleições, em três apenas a disputa não aconteceu entre três nomes: na primeira e nas duas últimas.

Como todas as previsões possíveis neste momento para a disputa do ano que vem não apontam para um favorito destacado, nem mes­mo Iris Rezende, é tendência que a concentração retorne ao seu eixo favorito, entre três candidatos. Essa característica garante fortes emoções ao longo da disputa e muitas vezes ocorrem viradas fenomenais na reta final de campanha.

Em 96, por exemplo, Nion sempre apareceu na frente, mas o segundo turno só foi decidido entre Bittencourt e Valdi Camárcio por uma margem apertadíssima, com vantagem do peemedebista de apenas 1,5% dos votos. Em 2000, Lúcia Vânia aparecia quase o tempo todo na segunda posição, mas na reta final ela e Darci Accorsi foram surpreendidos por uma extraordinária arrancada de Pedro Wilson, que pulou do terceiro lugar para a vitória. Também em 2004 a centralização em torno de três candidatos provocou alegrias e decepções de última hora. Iris Rezende sempre liderou, mas Darci Accorsi aparecia com alguma folga na segunda posição, seguido de perto por Sandes Júnior e Pedro Wilson. No final, Pedro ultrapassou Darci e Sandes, e disputou e perdeu o segundo turno para Iris Rezende.

Essa dança imprevisível das posições durante a campanha é uma das mais marcantes características das eleições focadas em torno de três candidatos fortes. E isso poderá acontecer mais uma vez no ano que vem em Goiânia. É certo que o PSDB e seus aliados da base estadual comandada por Marconi Perillo irá lançar algum candidato. E ele nasce forte, naturalmente. O ex-candidato ao governo do Estado e ex-prefeito de Senador Canedo Vanderlan Cardoso é outro nome bastante cotado. Se Iris Rezende for candidato mais uma vez, pelo PMDB, o cenário da centralização tripla estará montado. O PT, neste momento, não parece ter forças suficientes para contrapor a esses nomes. De qualquer forma, mesmo que supere a fase atual, dificilmente a disputa tenderá a ser entre quatro nomes. Isso jamais ocorreu em Goiânia.

E o que poderá resultar numa eleição triplamente centralizada no ano que vem em Goiânia? Está aí uma pergunta que não tem resposta com um mínimo de segurança. É comum ocorrem surpresas em eleições assim. Inclusive na reta de chegada. No Rio Grande do Sul, na disputa pelo governo do Estado, o então governador Germano Rigotto liderou as pesquisas até na boca de urna. Apurados os votos, Rigotto nem chegou ao segundo turno. E nem seria necessário buscar o exemplo gaúcho para demonstrar que centralização com três candidatos pode terminar com surpresas. Pedro Wilson, em 2000, na eleição que terminou por vencer, apareceu o tempo todo em terceiro lugar durante a campanha no primeiro turno. Contados os votos, ele ganhou os dois turnos.

Mas tripla concentração sempre pode ter surpresas? Sempre, não, mas quase sempre, sim. E é fácil entender porque isso acontece. Não é manipulação de pesquisas e nem nada parecido. O que acontece é que a divisão do eleitorado em três partes torna essas parcelas muito semelhantes porcentualmente. Então, uma pequena variação, nem sempre possível de ser captada nas pesquisas, pode lançar quem estaria em terceiro lugar diretamente para a liderança. Por fim, a última característica de eleição triplamente centralizada é que o candidato que confirma as expectativas no primeiro turno ou quem consegue surpreender na apuração, geralmente vence também o segundo turno.

Tudo isso, inegavelmente, joga uma nuvem espessa sobre as possibilidades de cada eixo político para a sucessão do prefeito Paulo Garcia, no ano que vem. Qualquer que sejam os candidatos desses eixos políticos estabelecidos na capital têm chances. Menos o PT, pelo menos por enquanto.

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