Afonso Lopes
Afonso Lopes

Eleições: a estiagem de maio e junho

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A mais recente pesquisa da corrida presidencial, en­cerrada na quinta-feira, 9, pelo Datafolha, é qua­se uma cópia da anterior, realizada no mês de abril. Todos os porcentuais se moveram dentro da chamada margem de erro, o que não pode ser considerado como queda ou subida, mas variação positiva ou negativa. É natural essa parada geral. Historicamente, as corridas sucessórias pegam fogo no final do ano anterior, quando são definidos os quadros partidários, repercutem nos três ou quatro primeiros meses do ano da eleição, e atravessam por essa calmaria até a chegada das convenções partidárias, no final de junho.

Se o quadro nacional é esse, nos Estados deve estar acontecendo a mesma coisa, salvo exceções muito localizadas. De qualquer forma, essa paralisação, com registros apenas de variações positivas ou negativas, não significa que as pesquisas nesses dois meses não são importantes. São, sim, e não somente pelo acompanhamento. Variações sistemáticas e mensais para menos ou para mais indicam a formação e consolidação de tendências. Ou seja, candidatos que agregam um ou dois pontinhos a cada levantamento vivem tendência de alta. O oposto, evidentemente, é tendência de queda.

Fora do marketing das campanhas, mas no núcleo pensante delas, essas tendências significam apenas que se deve ter atenção máxima, e reestudo sobre a situação geral da candidatura. Na voz estridente dos marketing, as variações são quedas ou crescimentos, comemorados por quem sobe e silenciados por quem desce. O eleitor não deve levar isso em conta. O trabalho do marketing é esse mesmo.

O que se deve fazer, então, quando o candidato entra numa tendência de queda? Descobrir a causa do problema. Pode ser um esgotamento da sensação de proposta inicial por parte dos eleitores ou falta de geração de fatos que chamem a atenção das mídias. Em ambos os casos, é necessário mudar alguma coisa internamente para que a tendência não se torne queda real.

É o que está acontecendo neste momento com a presidente Dilma Roussef (PT). Ela caiu muito no início do ano, e entrou agora em tendência de queda com variações negativas mês a mês. Ou seja, parou de cair, mas continua vivendo uma fase negativa. Ela precisa reagir agora, ou poderá enfrentar um seriíssimo problema depois: a cristalização da imagem negativa. Não seria, ainda assim, o fim do mundo para a candidatura dela, mas é claro que quebrar uma cristalização de imagem é muito complicado. É possível, mas da um trabalhão danado.

O outro lado dessa mesma moeda é a variação positiva com tendência de crescimento. Num cenário estático, esse é o melhor dos mundos. A voz estridente do marketing nesses casos, costuma salientar que é um crescimento pequeno, mas absolutamente consolidado e seguro. É e não é. Se o núcleo pensante da campanha fizer essa leitura, será enorme a possibilidade de o gás acabar de uma hora para outra.

Esse é o mundo ideal para dar sustentação à militância. As campanhas bem organizadas e profissionais costumam usar fases assim para renovar o ânimo das bases, que é a sustentação da candidatura no período de pré-convenção e também depois dele, caso o partido não tenha problemas internos. As tendências de crescimento, quando devidamente trabalhadas tanto pelo marketing como, e principalmente, junto às bases, seria uma forma de estopim pronto a ser aceso a qualquer mo­mento mais à frente, quando as coisas realmente entram em e­bulição total e contagiam as ruas.
Por enquanto, e isso pode ser facilmente notado no dia a dia, um dos assuntos menos discutidos pela população são as candidaturas. Não será assim o tempo todo. O clima de eleição vai chegar e, quando chegar, quem estiver com estopim preparado pode assegurar uma boa vantagem inicial no momento vital da campanha.

E as candidaturas que estão estacionadas? Bem, essas devem estar enfrentando problemas graves na estrutura das bases. Se nem cresce nem cai, mesmo dentro das variações, não há qualquer tendência. Pode ter uma série de causas, e cabe aos comandados centrais e pensantes descobrir o que é que tem causado a paralisia. Na pior das hipóteses, a paralisação indica que essas candidaturas bebem água somente no mesmo pote, e não conseguem acrescentar novas fontes. Na hipótese melhor, mas não menos problemática, pode revelar que falta visibilidade, especialmente quando somam pequenos porcentuais de intenção de votos. Se o estacionamento está situado nos andares superiores, nem tudo está ruim, principalmente porque nestes meses de maio e junho costuma ser assim mesmo.

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