Afonso Lopes
Afonso Lopes

A eleição do “fim do mundo”

Disputa sucessória vai se dar no meio do processo de investigação das delações da Odebrecht, e desfecho é imprevisível

O Brasil jamais viveu um processo eleitoral co-mo aquele que vai se dar no ano que vem. Se atualmente os brasileiros de uma maneira geral ficaram indignados ao saber do que ocorria nos subterrâneos da República, ainda haverá muito com o que se escandalizar. Apenas para lembrar, a Lava Jato começou como uma rotineira investigação a respeito da atuação de um doleiro, Alberto Youssef. Foi a partir da prisão dele que o imenso novelo começou a ser desfiado até chegar ao padrão em que se encontra. E o que mais virá pela frente? Não há como antecipar coisa alguma. As quase 400 acusações contra políticos de todo o país vão ser investigadas, e novos novelos podem surgir para serem também desfiados. Não se descarta previamente que a lista poderá aumentar e atingir quem por enquanto conseguiu escapar.
É exatamente esse quadro de incertezas que se joga sobre a disputa eleitoral no Brasil e em todos os Es­ta­dos. Quem hoje parece imune, ama­nhã pode deixar de ser. Quando isso ocorrerá, se ocorrer mesmo, tor­na qualquer possibilidade perfeitamente lógica. Tanto quando se refere a nomes de potenciais candidatos como partidos e, sempre conta, a tal estruturação de campanha. Como montar uma campanha com abrangência nacional ou estadual sem o incrível fundo multimilionário do caixa 2?

A realidade é que o conjunto da legislação eleitoral, a espinha dorsal e de sustentação dessa lei, praticamente obriga a maioria esmagadora dos candidatos a consumir uma montanha de dinheiro para se tornar viável. E esse dinheiroduto está, ou estava, ligado às empresas de praticamente todos os ramos da economia. Nas eleições do ano passado, a primeira sem financiamento oficial das empresas e com o temor que já pairava no setor político/empresarial, teve-se a sensação de que as campanhas foram bem mais modestas. Alguns candidatos ainda mantiveram estruturas físicas imensas como comitê eleitoral, mas dentro deles o que se pôde perceber foi um esvaziamento quase total. Sinal evidente da falta de dinheiro. Se foi assim em 2016, em 2018 será muito pior.

Isso significa que o sistema terá que se reinventar. Os tempos de gastança nas campanhas eleitorais – que fizeram do processo brasileiro um dos mais caros do planeta é coisa do passado. As antigas multidões de cabos eleitorais agitando bandeiras dos candidatos em cada esquina de grande fluxo sumiram. E vão se tornar ainda mais raras no próximo ano.
Os programas eleitorais mais enxutos também ficaram mais pobres tecnicamente. Muitos candidatos contrataram marqueteiros sem nenhuma experiência por falta de dinheiro para bancar os grandes nomes. E mesmo quem teve condições de escolha, fechou contratos muito mais baratos. Por fim, muitos candidatos precisaram gastar do próprio bolso para não ficar completamente inativo nas últimas semanas de campanha.

Diante de um balanço como esse há motivos reais para se acreditar que as mudanças até aqui foram boas. Boas, mas muito longe de serem perfeitas. Muito longe mesmo. Com as fontes externas de dinheiro diminuíram, candidatos ricos ficaram em nítida vantagem. Isso porque a legislação mudou alguns aspectos, mas não alterou em nada a linha condutora do processo eleitoral. Ou seja, cortou-se o dinheiroduto, mas não a necessidade de caixa bem abastecido. Consequentemente, quem pode não deixou de gastar.

É exatamente esse aspecto que precisa ser modificado: a necessidade de se gastar tanto nas eleições. Ou teremos, como consequência, cada vez mais ricos sendo eleitos e pobres e remediados servindo somente para compor o grande espetáculo democrático do voto. Uma das ideias que empolga alguns setores afeitos ao debate sobre eleições no Brasil é copiar o procedimento europeu. Para se ter uma ideia, os custos de todas as eleições nacionais dos países da zona do Euro somados totalizam menos que apenas a eleição presidencial do Brasil em 2014. Por lá não se avistam cartazes, murais, cabos eleitorais remunerados nem campanha de TV e rádio massiva. O mais comum, e é onde a campanha realmente ocorre, o candidato aparece para o grande público nos debates — que muitas vezes são transmitidos em rede não obrigatória — e no interior dos partidos, gerando assim fatos que repercutem entre a população através da mídia não paga.

É um bom modelo, sem dúvida, mas não se chega a esse patamar de disputa eleitoral da noite para o dia. O processo é lentamente evolutivo. Ou seja, o Brasil ainda teria que caminhar bastante para encontrar e fazer uma modelagem própria e apropriada para sua dimensão e população.

Para 2018, vai ser no modo antigo sem a grana farta de antigamente. E o que é pior, sem saber exatamente quem vai passar ao largo de todos os desdobramentos que certamente ainda vão se dar como consequência das ramificações da Lava Jato. Até porque tudo o que sempre se soube sobre eleições no Brasil é que praticamente todos os candidatos, em todos os níveis, vencedores e derrotados, em algum momento gastaram dinheiro em suas campanhas sem declarar para a Justiça Eleitoral. Isso fará da eleições do ano que vem uma equação que ninguém tem a mínima ideia de como será resolvida. Até, a bola fica no meio de campo apenas para marcar presença para a torcida. l

Deixe um comentário