Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

Dobradinha Lula/Alckmin é resgate do que PT e PSDB deveriam ter sido

Separados por estarem do mesmo lado, os partidos seguiram campos opostos. A aliança do ex-governador com o petista é um desagravo a essa condição

Geraldo Alckmin e Lula abrem sorrisos durante debate das eleições de 2006: embate duro, mas democrático | Foto: AFP

Em 1989, quando o metalúrgico e líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao segundo turno das eleições presidenciais, o então senador paulista Mário Covas, do recém-nascido PSDB, subiu no palanque petista. Ele havia ficado em 4º lugar na corrida ao Planalto, atrás também do adversário no duelo final, Fernando Collor, do nanico PRN, e de Leonel Brizola (PDT), à época a grande referência da esquerda. A seu lado nos comícios, estava também outro tucano de alta plumagem: Fernando Henrique Cardoso.

Ao fim, foram todos derrotados pelo playboy de Alagoas que falava em caçar marajás. Mas o natural, pelo que se via naquele momento, era que em 1994, quando ocorreria o pleito seguinte, caminhariam juntos.

Só que a política é como as nuvens, suas formações e conformações mudam muito em pouco tempo. Vieram a seguir o confisco da poupança, o Fiat Elba não explicado, as revelações de Pedro Collor, o tesoureiro PC Farias, a Operação Uruguai, os caras pintadas, a abertura do impeachment do presidente esportista, a renúncia dele, a posse do vice Itamar Franco, a negativa do PT em participar do governo de transição, a nomeação de FHC como ministro da Fazenda, e o Plano Real com, novamente, o petismo na contramão.

Fernando Henrique se tornara candidato natural à Presidência e o PT, claro, queria Lula lá. Com a esquerda tendo seu candidato e todo o restante do espectro político querendo surfar nas boas ondas do bem-sucedido plano econômico, a aliança foi fechada com o PFL, em uma mistura que, durante a Assembleia Nacional Constituinte ou até nas eleições de 89, seria considerada água e óleo. Não deu nem segundo turno. O liberal Marco Maciel seria o vice do sociólogo FHC por oito anos e os tucanos deixariam seu timbre socialdemocrata somente para compor a sigla.

Em 2002, com a alta rejeição do governo, Lula aparou a barba, maneirou no discurso, escreveu uma carta ao mercado e, finalmente, chegou ao Planalto. O PSDB já era arquirrival e assim continuaria até 2014, quando o PT passou a ser visto não apenas como adversário, mas inimigo. A ponto de ocorrer algo que nunca havia tido lugar na redemocratização: um candidato não aceitar a derrota e questionar as urnas. Foi o que o senador tucano Aécio Neves fez imediatamente após perder para Dilma Rousseff, com o consentimento e até apoio de boa parte do partido e de toda a oposição.

Naquele momento, as turbulências da economia já começavam a ameaçar o governo petista e a Lava Jato fazia os primeiros estragos. O racha entre PT e PSDB, que poderiam ter sido partidos parceiros desde o começo, se tornava irreversível.

Em 2018, com Dilma tendo sofrido um impeachment meramente político – liderado desde o começo por Aécio, diga-se – e o PT detonado pelo alcance das garras da turma paranaense do Ministério Público Federal (MPF) e do então juiz Sergio Moro, parecia que estava aberto o caminho para que os tucanos retomassem o poder. Mas ali já jazia abatido o senador mineiro, em meio a gravações muito pouco republicanas com o empresário Joesley Batista, um dos sócios da gigante JBS.

Em tese, estava tudo nas mãos de Geraldo Alckmin, o mesmo que enfrentara Lula em 2006. Governador de São Paulo por quatro mandatos e 13 anos – de 2001 (desde a morte de Mário Covas, do qual era vice) a 2006 e de 2011 a 2018 –, ele conseguiu formatar uma aliança de nove partidos: DEM (hoje União Brasil, após fusão com o PSL), PP, PR, PRB (hoje Republicanos), Solidariedade, PTB, PSD e PPS (hoje Cidadania), além do próprio PSDB. Com o maior favorito à eleição (Lula, líder das pesquisas) preso em Curitiba, a maior coligação, o maior tempo no horário eleitoral de TV e rádio, a maior estrutura de campanha, o tucano veterano protagonizou um dos maiores fracassos eleitorais da história da redemocratização, com menos de 5% dos votos válidos e fora até do “pódio”, composto por Jair Bolsonaro (PSL), Fernando Haddad (PT) – que foram ao segundo turno – e Ciro Gomes (PDT).

Se, em 1994, a disputa de espaço com o PT empurrou o PSDB para a centro-direita, o papelão de Aécio em 2014 levou o partido de vez para o colo dos reacionários, como abrigo da intolerância e quatro anos depois, se mostrava letal para o partido. Justamente porque os reacionários se viram muito mais bem representados pela figura tosca de Bolsonaro.

No fim, a tentativa de retomada do poder, que passou por um acordão conspiratório não escrito com Michel Temer (MDB) – o qual serviria como “ponte para o futuro” do PSDB –, acabava por implodir o partido. A constatação definitiva veio nas prévias de 2021 para as eleições presidenciais: em vez de unir os tucanos, como seria a finalidade da consulta aos filiados, a vitória de João Doria, governador de São Paulo, serviu para traçar uma risca no chão ao redor dele mesmo, separando seu grupo dos demais. De um lado, Eduardo Leite, o vencido governador do Rio Grande do Sul, não digeriu a derrota e está a ponto de deixar o partido; do outro, Geraldo Alckmin fez as malas e, na quarta-feira, 23, desembarcou no PSB para ser vice, vejam só, do ex-rival Lula, novamente (como em 2018) favorito à Presidência.

De todos os envolvidos diretamente na confusão, talvez hoje o espírito que gerou o PSDB não esteja sendo carregado por ninguém. Nem mesmo Alckmin. Ele nunca foi um Covas, nem mesmo um Fernando Henrique. Seu perfil não carrega em si um vislumbre de grandes mudanças – ao contrário, é modelado para seduzir quem quer “manter o que está aí”, como o eleitorado conservador do interior paulista. Talvez isso explique grande parte de seu sucesso comandando, por tanto tempo, o Executivo do maior PIB entre as unidades federativas do País. E, agora sem qualquer talvez, é disso que, pragmaticamente, o PT mais precisa neste momento.

Não se pode dizer de Alckmin que não seja um democrata. Em 2018, ao contrário de vários correligionários à época, como o próprio governador paulista e seu “BolsoDoria”, ele jamais acenou apoio ao candidato Bolsonaro. Obviamente, aquela conjuntura fazia com que não desse nenhum tchauzinho para o PT.

Agora, saindo do PSDB, se não traz o “S” da sigla, o ex-governador paulista embrulha bem o “D”. Como disse no discurso em Brasília, no ato de filiação ao PSB: “Eu disputei com o presidente Lula a eleição em 2006 e fomos para o segundo turno, mas nunca colocamos em risco a questão democrática”. E mais: “Lula representa a própria democracia porque é fruto da democracia.” Por fim, citando seu padrinho na política, a frase que sela o tipo de união que deveriam ter tido, lá atrás, PT e PSDB: “Quero encerrar com uma homenagem ao Mário Covas, que sintetizou um sentimento: apoiar não significa deixar de emitir discordância.”

Quando era então candidato à Presidência em 2018, num ato de campanha em Betim (MG), já a menos de um mês para o primeiro turno, Alckmin anunciou que “votar em Bolsonaro era um passaporte para a volta do PT” – com quem o extremista de direita disputaria o segundo turno e para quem, na visão do agora ex-tucano, ele perderia. Ironicamente, quatro anos depois, o governo de Bolsonaro tornou o PT, com Lula, a única porta viável para tentar sair da crise econômica e institucional. O que talvez nem o próprio Alckmin esperasse era que, para salvar a Pátria, estaria no posto de imediato no mesmo bote do comandante Lula.

 

Geraldo Alckmin e Lula abrem sorrisos durante debate das eleições de 2006: embate duro, mas democrático | Foto: AFP

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