Augusto Diniz
Augusto Diniz

Distante do sentimento de mudança que o elegeu, Caiado começa a encontrar soluções para minar críticas

Nos primeiros quatro meses à frente do Executivo, governador pôde perceber que missão não será nada fácil. Caiu em armadilhas. Se colocou em outras. Mas começa a dar sinais de que situação não está perdida

Ronaldo Caiado - Foto Divulgação Governo de Goiás 7 - editada

Em seu 118º dia de gestão, o governador Ronaldo Caiado (DEM) tem muitos desafios para superar. A maioria deles ainda longe de uma solução, mas outros começam a ganhar novos contornos | Foto: Divulgação/Governo de Goiás

O governo que assumiu no dia 1º de janeiro o Estado com a promessa de que os bandidos mudariam de Goiás viu 24 presos fugirem da Casa de Prisão Provisória (CPP) do Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia na terça-feira, 23. A gestão que prometeu pagar os salários dos servidores no mês trabalhado viu que não tinha condições de quitar a folha de fevereiro até o dia 28 para todos os funcionários. A administração que apresentou um projeto de regionalização da saúde com as policlínicas foi obrigada a atestar a morte de um garoto de 5 anos no corredor do Hospital Materno Infantil (HMI).

A solução inicialmente encontrada pelo governador Ronaldo Caiado (DEM) para solucionar o problema do Materno Infantil foi de um populismo sem muito resultado prático. Leiloar dois carros de luxo usados pelas gestões passadas rendeu aos cofres do hospital R$ 335 mil. Pode até parecer para o mais desavisado que o chefe do Executivo abriu mão de mordomias e beneficiou uma unidade de saúde com dificuldade financeira. Mas o recurso é pouco perto dos R$ 37,6 milhões que restam em dívidas do HMI. Populismo puro.

Antes, Caiado havia pedido para que comerciantes vendessem fiado para os servidores estaduais e entendessem momento de dificuldade financeira do Estado, sem recursos para quitar a folha salarial de dezembro. A repercussão foi imediata e virou motivo de piada. Isso somado ao convênio que seria firmado com prefeituras para quer os gestores municipais recebessem os recursos estaduais e tocassem por conta própria as obras de melhorias de trechos das rodovias goianas. Apenas 21 das 246 cidades aderiram à proposta da Agência Goiana de Infraestrutura e Transportes (Goinfra).

Agetop maculada
Sem contar a mudança do nome da Agência Goiana de Transportes e Obras (Agetop) para Goinfra em uma tentativa de desvincular a imagem de instituição corrupta que teria ficado colada na autarquia após as duas prisões do ex-presidente Jayme Rincón, que já foi solto, em decorrência dos desdobramentos da Operação Cash Delivery. A limpeza ética parou na nomeação de dois primos para o cargo de presidente da mesma Goinfra, antiga Agetop.

Nesse ínterim, a Justiça bloqueou trechos de GOs pela má condição de trafegabilidade e a quantidade de buracos. Aí surgiu a placa na entrada de Pirenópolis durante o feriado de Páscoa com a seguinte informação: “O governo de Goiás pede desculpas aos motoristas e passageiros. Recebemos o Estado quebrado e as estradas esburacadas. Vamos reconstruir Goiás”. O material vinha identificado como pertencente à “GO Infra”, mas o governo não informou se tratava-se de algo oficial ou não.

O não acordo com os sindicatos que representam os servidores para definir o cronogama de pagamento do salário de dezembro dos funcionários do Estado talvez tenha sido o maior problema enfrentado até aqui pela gestão Caiado. Apoiado em números que dão conta de dívidas herdadas das gestões passadas que variam de R$ 3,4 bilhões a R$ 3,6 bilhões, o governador optou por dizer que o não empenho da folha impedia a quitação do vencimento mensal atrasado. Preferiu focar na manutenção dos salários em dia a partir de janeiro.

As proposta de escalonamento em oito vezes, depois seis meses e por último cinco parcelas para quitar os salários de dezembro a partir de março não foram aceitas pelos líderes sindicais. Os servidores da educação entraram em greve. A secretária estadual da Economia, Cristiane Schmidt, disse que não conseguiria fazer uma divisão das faixas salariais a serem quitadas em menos do que seis parcelas.

Mudança de humor
Quando o governador foi vaiado durante sua participação na procissão do fogaréu na quarta-feira, 17, na cidade de Goiás, parecia ali surgir o primeiro indício de que as coisas começaram a mudar. “A democracia é ruidosa na sua essência. Sempre tive profundo respeito pela divergência e não pretendo ser unanimidade. Aceito toda manifestação com a tranquilidade de quem governa com seriedade, transparência e responsabilidade, e por isso mesmo pode andar no meio do povo com a cabeça erguida e coração leve”, respondia um sereno Caiado às críticas de parte da população que estava naquele dia na antiga capital do Estado.

No dia 15 de fevereiro, quando o democrata resolveu prestigiar a volta dos trabalhos da Assembleia Legislativa, protestos dos professores foram tratados por Caiado em tom nada amistoso. Ao ser chamado de “caloteiro” por não pagar o salário de dezembro, o democrata afirmou que aqueles presentes na galeria do plenário na representavam a população, “porque o goiano é um povo educado”.

Ironizou os protestos, mandou coração com as mãos para os funcionários da educação estadual, chamou os manifestantes de “choro de viúvas do PT” e “militantes do PSTU”. “Não vamos confundir os sinais. Os professores estão trabalhando, educando e lutando para que Goiás seja referência no cenário nacional.” A diferença do Caiado que tentou minimizar o atraso na folha de dezembro e o governador que publicamente aceitou as vaias na procissão do fogaréu mostram que o desgaste dos primeiros meses podem ter apresentado uma leve mudança de comportamento.

Ronaldo Caiado - Foto Divulgação Governo de Goiás 1 - editada

Diferente das críticas pesadas que fez aos professores em fevereiro, quando foi à Assembleia e chamou aqueles servidores de “militantes do PSTU”, Caiado soube lidar de forma mais democrática com vaias que sofreu durante a procissão do fogaréu em Goiás | Foto: Divulgação/Governo do Estado

Educação domada
Quando o governo anunciou que pagaria no dia 1º de fevereiro os salários de dezembro para 33% dos servidores, especificamente para os profissionais vinculados à Secretaria Estadual de Educação (Seduc), parte da revolta contra uma espécia de palanque continuado da campanha na gestão começou a ser controlada. A quitação da folha atrasada para os funcionários da pasta que recebem até R$ 2,7 mil líquido por mês gerou o primeiro alívio nas críticas à gestão e ao administrador público eleito no primeiro turno com facilidade.

O discurso da terra arrasada foi mantido, as críticas às gestões anteriores do Estado, administrado pelo PSDB até 2018, continuaram. Mas quando pagou, no dia 29 de março, outros 31 mil servidores, Caiado conseguiu acalmar 55% dos funcionários estaduais. Foram incluídos os celetistas, contratados por CLT [Consolidação das Leis do Trabalho], com vencimentos até R$ 4,590 mil.

Também os funcionários da Secretaria de Segurança Pública com salário máximo de R$ 5,1 mil, ativos e inativos dos outros órgãos até R$ 2,670 mil. A primeira parcela do escalonamento, que vai até agosto, garantiu a quitação da folha atrasada a 95 mil servidores até o final de março. Até o maior movimento de reivindicação pelo pagamento do salário atrasado de dezembro perdeu força. Iniciada no dia 3 de abril, a greve dos servidores da educação foi encerrada na sexta-feira, 12, e os professores que aderiram ao movimento voltaram às salas de aula na segunda, 15.

Sem a força da pressão que incomoda bastante dos professores, o governo Caiado abafou ainda mais os protestos contra os que ainda discutem a falta de entendimento entre a negociação dos sindicatos, que não aceitaram o escalonamento do salário de dezembro em seis parcelas, e a secretária Cristiane Schmidt. O anúncio feito na quarta-feira, 24, de pagamento da folha em atraso para mais 23 mil funcionários do Estado para terça, 30. Com isso, o número de servidores que terá seu vencimento quitado chegará a 70%.

Ao atingir 118 mil funcionários na conta dos que terão recebido o salário de dezembro, o governo pode ter mais facilidade para tentar, com muita dificuldade, continuar na busca pela redução do gasto público, aumentar a arrecadação e reduzir a dívida herdada sem ter de enfrentar movimentos grevistas ou protestos com atração de um número grande de servidores.

Reconquista do sentimento
Se continuar a cumprir o cronograma de escalonamento da folha atrasada, Caiado terá até mais tranquilidade para entender melhor o funcionamento da máquina pública e desempenhar seu papel de governador com o apoio de grande parte dos 1.773.185 goianos que acreditaram no sentimento de mudança apresentado pela campanha do democrata em outubro. Até, inclusive, do restante da população, que preferiu não votar em Caiado, mas pode apoiar a gestão se os problemas começarem a ser resolvidos, mesmo em um cenário de crise econômica que parece não ter fim.

Com menos preocupação em regularizar práticas cruéis com animais, por mais que tenham um passado de ligação cultural importante, como a vaquejada, querer ganhar apoiadores com a retirada dos radares eletrônicos das rodovias goianas e continuar a descer do palanque, Caiado pode sim fazer um bom governo. E essa resposta só cabe ao governador.

Ronaldo Caiado - Foto Divulgação Governo de Goiás 6 - editada

Críticas à gestão são necessárias para ajudar governo a confrontar ideias apresentadas com o que a oposição tem a dizer sobre projetos da gestão. Cabe ao governador e sua equipe fugir das pautas populistas e trabalhar em benefício dos goianos e do Estado | Foto: Divulgação/Governo de Goiás

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